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São Paulo foi pintada de cinza por luto aos futuros mortos das Marginais?

Leonardo Sakamoto

24/01/2017 18h35

Boa parte dos paulistanos já abraçou "pós-verdade" como sua palavra de estimação.

"Pós-verdade" ganhou notoriedade depois que o dicionário Oxford a elegeu como a palavra do ano. Pesou a eleição de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos e a consulta popular que levou à saída do Reino Unido da União Europeia. Em ambos os casos, as campanhas optaram por construir a realidade apelando a emoções e crenças pessoas e não usando fatos objetivos.

Por aqui, não importam os dados mostrando que o número de atropelamentos e acidentes fatais caiu consideravelmente com a redução das velocidade nas pistas das Marginais. No município de São Paulo, o ódio a qualquer política que restrinja a liberdade desfrutada pelo automóvel é maior que a razão.

Talvez porque carros não são apenas meios de locomoção mas, sim, projeções sexuais. Ou instrumentos de compensar a frustração pela vida que deveria ser igual à que prometeram na TV. Aliás, é estranho que, quando algumas pessoas aceleram, esquecem a tristeza de empregos ruins, de casamentos que deram errado e da falta de perspectivas para a existência.

É difícil imaginar que uma cidade que tem orgulho de chamar de herois escravagistas, como os bandeirantes, vá se importar com mortes causadas por conta de uma visão distorcida de progresso. O importante é acelerar. Mesmo que mortos sejam deixados pelo caminho.

O Tribunal de Justiça de São Paulo suspendeu, nesta terça (24), a liminar que havia barrado o aumento nos limites de velocidade das marginais Pinheiros e Tietê. A pista expressa deve passar de 70km/h para 90km/h, a central de 60 km/h para 70 km/h e a local de 50km/h para 60 km/h – com exceção da faixa da direita, que não sofrerá mudança. Também serão implementadas campanhas educativas, mais sinalização e equipes de resgate.

O prefeito João Doria quer dar esse "presente" aos paulistanos no aniversário de 463 anos da cidade, nesta quarta (25), indo na contramão da tendência das principais cidades do mundo.

Ele bem que poderia aproveitar e instalar um placar eletrônico, supermoderno, de LED, a fim de mostrar o número de mortos nas marginais. Que seria atualizado em tempo real. Seria um outro presente à altura de uma capital que corre cada vez mais. E, na pressa, esquece o porquê.

Inconscientemente, talvez ele saiba disso. Tanto que está deixando a cidade inteira de luto, pintando-a de cinza.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.