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Por uma greve geral das mulheres neste 8 de março

Leonardo Sakamoto

06/03/2017 19h21

Por Manoela Miklos e Mayra Cotta, especial para este blog*

No Dia Internacional das Mulheres, comemorado neste 8 de março, as mulheres entrarão em greve. Em mais de 50 países, paralisações estão sendo planejadas e há muitas razões para você, mulher, parar também.

Trata-se de um movimento internacional que conecta a potência de mulheres de todo o mundo, em luta, demandando muitos direitos a mais e nenhum a menos.

Temos nos articulado localmente para nos fazer ouvir. Estamos reagindo. Fizemos campanhas, marchamos. Temos encontrado novas maneiras de reagir aos velhos perigos. Alimentamos as novas experiências feministas de agora com a energia e o repertório das feministas de ontem e, assim, temos forjado as feministas do amanhã.

Como prosseguir? Conectando as primaveras locais e enfrentando juntas esse inverno que se impõe. E sendo mais audaciosas na nossa estratégia: vamos parar. Juntas. Todas.

Mulheres polonesas pararam o país depois da tentativa do governo de proibir o aborto em 2016. Argentinas também pararam em 2016, um desdobramento da estrondosa campanha Ni Una Menos contra a violência machista. A ideia de greve, portanto, nasce das ruas e tem inspiração na experiência recente e concreta de mulheres que decidiram se unir e resistir ao machismo.

Parar é a melhor maneira de continuidade à luta neste dia 8.

O termo greve chama à atenção o problema específico do trabalho feminino, seja o visível, no mercado de trabalho, seja o invisível, dentro do lar. Não apenas a combinação da misoginia com a exploração capitalista inferniza a vida das mulheres nos escritórios, fábricas, gabinetes e outros locais de emprego formal, como uma boa parte do trabalho feito por mulheres, especialmente dentro do lar ou relacionado ao cuidado de crianças e idosos, mantém-se invisível e sem o reconhecimento enquanto forma de trabalho.

O trabalho que garante a reprodução da vida social precisa ser visibilizado e a greve deve transcender os locais de emprego formal. Temos que parar também dentro de nossas casas. Parar nos permite avançar juntas nos muitos lugares que ocupamos, visíveis e invisíveis, e protestar em todos eles contra a desigualdade.

Nos Estados Unidos, temos notícia de 62 cidades organizando alguma forma de ação – e, certamente, há muitas outras mais que ainda não estão em nosso radar. Na Carolina do Norte, a mobilização das professoras, que compõem 75% da força de trabalho nas escolas, foi tão intensa, que um distrito inteiro cancelou as aulas no dia. Em grandes cidades, como Nova York, Chicago, Washington e Los Angeles, enormes protestos estão previstos para o dia.

A importância da greve, neste contexto, ganha contornos específicos: os Estados Unidos possuem as mais retrógradas leis trabalhistas dentre as democracias liberais. Exemplos assombrosos é a inexistência do direito à licença maternidade e às férias remuneradas.

Foi neste contexto que um grupo de mulheres americanas ou vivendo nos EUA, entre elas as conhecidas feministas Angela Davis e Nancy Fraser, assinaram um manifesto convocando uma greve geral das mulheres no país. Em três semanas, uma rede em diferentes estados norte-americanos se consolidou e cresce a cada dia.

As leis estadunidenses proíbem greves e punem severamente qualquer tentativa nesse sentido. Por isso, no país que mais explora o trabalho formal e se aproveita da invisibilidade do trabalho informal, majoritariamente feito por mulheres, a organização de uma greve de mulheres é tão profundamente radical que deve encontrar eco no mundo todo.

No Brasil, assim como nos Estados Unidos, urge uma greve não apenas por melhores condições de trabalho formal e pelo reconhecimento do trabalho reprodutivo, como também contra as tantas formas de violência que sofremos na rua e dentro de casa.

Nós acreditamos que este momento será crucial para que as divisões entre as diversas formas de resistência – criadas pela combinação nefasta entre neoliberalismo, supremacia branca e misoginia – comecem a ser superadas. Um terreno para ações em comum começa a ser construído por mulheres de todo o mundo.

Isso não significa que pretendemos transformar esta coalizão em um novo sujeito político que irá representar todas as lutas. Ao contrário, a ideia é que, em articulação, consigamos criar um holofote comum para as diversas lutas e formas de resistência, respeitando a diversidade e a pluralidade. Fortalecendo-as. Nos fortalecendo.

Em Nova York, no dia 8 de março, marcharão juntas mulheres sindicalistas, feministas negras, mães de vítimas de violência policial, estudantes, migrantes, lutadoras curdas, palestinas, professoras, indígenas de Standing Rock, ativistas trans, organizadoras iemenitas da greve das bodegas, feministas queer e latinas.

Em São Paulo, esperamos que as feministas independentes e as companheiras que fazem a opção legítima e difícil de militar dentro dos partidos brasileiros tenham o mesmo impulso aglutinador e marchem juntas. Sem reproduzir as lógicas das disputas políticas que moldam esse mundo machista.

Mas, sobretudo, desejamos que você, mulher, pare onde estiver. Pare de fazer o que quer que esteja fazendo – e você faz tudo. Note sua importância e faça sua ausência ser notada. Entre em greve.

E, quando parar, olhe para o lado neste dia 8 de março. Verá que lá estará, certamente, outra mulher. Quando a vir, fale sobre ser a mulher que você é e ouça ela contar sobre ser como ela é. Falemos umas com as outras sobre nós.

Dessa conversa virá a liberdade.

(*) Manoela Miklos é doutora em Relações Internacionais, feminista e articuladora da coluna Agora É Que São Elas, na Folha de S.Paulo.

(*) Mayra Cotta é advogada e pesquisadora do Departamento de Política da New School for Social Research em Nova York.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.