Blog do Sakamoto

PF prende Temer por Pinho Sol. Movimento quer seu impeachment por blasfêmia

Leonardo Sakamoto

Temer almoça entre embaixadores em churrascaria para defender a exportação de carne em meio à Operação Carne Fraca em março. Foto: Sérgio Lima/Poder360

''Como em toda organização criminosa, com divisão de tarefas, o presidente Michel Temer se utiliza de terceiros para executar ações sob seu controle e gerenciamento.'' De acordo com a Polícia Federal, o ocupante da Presidência da República possui poder de decisão nas ações do ''Quadrilhão do PMDB''.

A organização criminosa, de acordo com relatório enviado ao Supremo Tribunal Federal, contaria, além de Temer, com Eliseu Padilha e Moreira Franco – esses três soltos por contarem com foro privilegiado, por enquanto. E com Geddel Vieira Lima, Henrique Alves e Eduardo Cunha, no momento, presos. Mas também com Rodrigo Rocha Loures, Tadeu Filippelli, Sandro Mabel, Antonio Andrade, José Yunes e Lúcio Vieira Lima.

A investigação apontou indícios de que o supremo mandatário tenha recebido vantagens de R$ 31,5 milhões, o que ele – claro – nega. Temer agiria para a indicação de cargos, articulação com empresários beneficiados nos esquemas, recebimento de valores e relações com doações eleitorais. Ou seja, um homem de múltiplas habilidades, que cobra o escanteio e corre para cabecear ao gol. Sinceramente, nada que já não havia sido revelado pela imprensa.

Não é novidade que grupos políticos tenham montado esquemas para garantir governabilidade ou sua permanência no poder desde a fundação do país. A diferença é que, diante de elementos muito menos robustos do que os apresentados para o ''Quadrilhão do PMDB'', um processo de impeachment estaria em curso e organizações da sociedade civil convocariam grandes protestos.

A hipótese corrente é de que o governo não cai porque adquire os votos dos quais precisa para afastar denúncias no Congresso Nacional através da liberação e de cargos e emendas mas, principalmente, pelo apoio à aprovação de leis e ao perdão bilionário de dívidas que beneficiam os próprios parlamentares e seus patrocinadores. Como ocorreu com a bancada ruralista, que vai herdar um Brasil em que meio ambiente, povos indígenas e Previdência rural sejam um ''problema'' menor do que hoje.

Ao mesmo tempo, o governo tem afagado o Pato Amarelo, ou seja, sido competente para aprovar uma agenda de reformas que reduz os gastos com a proteção aos trabalhadores mais pobres e suas famílias a fim de garantir a manutenção de de políticas que beneficiam os negócios dos mais ricos. E tira a fatura pela crise do colo dos mais ricos, evitando mudanças tributárias guiadas por justiça social e redistribuição.

E como não há consenso sobre quem ou o quê iria para o seu lugar, tudo fica como está. Em um ambiente em que a oposição luta para sobreviver às próprias denúncias de corrupção que recebe, parte dos sindicatos está mais interessada em salvar a contribuição sindical obrigatória do que em lutar pelos trabalhadores e que muitos se dedicam mais em compartilhar textos de apoio a Lula do que ir às ruas contra o desmonte do Estado social ou mesmo participar da discussão de um novo projeto para o país, o ''Quadrilhão do PMDB'' prossegue.

Por isso, confio na hipótese de que a Polícia Federal segue uma linha promissora de investigação, apurando, neste momento, denúncias de que uma quantidade razoável de Pinho Sol estaria estocada nos porões do Palácio do Planalto.

Considerando que portar o perigoso produto levou ao jovem negro e pobre Rafael Braga, a ser o único condenado nas manifestações de Junho de 2013, no Rio de Janeiro, imagina-se que apenas uma caixa seria indício suficiente para que a Procuradoria Geral da República e o STF destituíssem Eliseu Padilha e Moreira Franco. Rafael foi, posteriormente, também condenado e preso por, segundo a polícia, portar 0,6 g de maconha e 9,3 de cocaína – o que ele nega. Mas ele não é presidente, nem tem Gilmar Mendes como padrinho do casamento de sua filha, então, segue na cadeia.

Ao mesmo tempo, um alerta soou a movimentos que atuaram pelo impeachment de Dilma Rousseff. Recentemente, eles incitaram a população e organizaram a turba para censurar uma exposição que tratava da temática LGBT, questões de gênero e diversidade sexual, com obras de Cândido Portinari, Adriana Varejão, Lygia Clark, Leonilson, em Porto Alegre Acusou-a de blasfêmia, pedofilia e zoofilia.

Agora eles tiveram contato com o livro de poesias ''Anônima Intimidade'', de Michel Temer, e ficaram escandalizados com o que leram. Ao que tudo indica, esses movimentos se organizam a voltar às ruas, pedindo a deposição de Michel Temer. ''Não entendo que isso seja arte'', teria afirmado uma coordenadora do movimento. Temer é acusado de satanismo e de apologia ao uso de maconha pelos versos: ''De vermelho/ Flamejante/ Labaredas de fogo / Olhos brilhantes / Que sorriem / Com lábios rubros / Incêndios / Tomam contam de mim''.

A sacanagem do desmonte do Estado de proteção social somada à corrupção pornográfica e a céu aberto são insuficientes para levar os deputados federais, sócios da suruba, a votarem um afastamento presidencial diante de denúncias encaminhadas pelo Supremo Tribunal Federal. Ao mesmo tempo, é mais fácil ver uma onda de intolerância popular por uma exposição de arte, organizada por grupos que se dizem liberais, mas são contra a liberdade de expressão e que, até pouco tempo atrás, bradavam contra a corrupção, do que indignação pelo ''Quadrilhão do PMDB''.

Se a lógica e a razão deixaram de funcionar no ''Brasil da Era do Foda-se'', talvez Pinho Sol e um pouco de poemas de caráter duvidoso resolvam.