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Temer 2, A Missão: Quanto vai te custar o voto dos deputados para livrá-lo?

Leonardo Sakamoto

20/09/2017 20h14

Foto: Edilson Dantas/Agencia O Globo

A menos que o roteirista responsável por escrever os capítulos da crise política brasileira esteja usando um alucinógeno mais poderoso do que imaginávamos, a Câmara dos Deputados deve livrar novamente o pescoço de Michel Temer de ser processado pelo Supremo Tribunal Federal.

Os ministros da corte decidiram que a denúncia contra ele por obstrução de Justiça e organização criminosa seja enviada para análise da Câmara dos Deputados – só Gilmar Mendes se colocou contra. A defesa do ocupante do Palácio do Planalto havia pedido para que o processo não fosse encaminhado antes do fim da investigação sobre a lambança no acordo de delação dos controladores da JBS.

O presidente mais impopular da história recente do país, menos querido até que benzetacil nas nádegas (ao menos a injeção dói, mas traz benefícios), deve sobreviver a esta segunda denúncia encaminhada pela Procuradoria Geral da República à custa do nosso dinheiro e de nossa dignidade.

Sim, você pode não se importar com política. Mas será quem pagará para que ele continue lá, produzindo mesóclises, enterrando direitos e mentindo na Assembleia Geral das Nações Unidas.

O Congresso Nacional vive um descolamento total e abissal com relação aos interesses da maioria da sociedade. Boa parte dos que estão ali defendem apenas o seu e o de seus grupos de interesse. Aprovam propostas que seriam facilmente rejeitadas nas urnas e dobram a democracia para garantir sua perpetuação no poder. Vendem seus votos para o Palácio do Planalto com o objetivo de evitar que um presidente denunciado seja processado por cargos, emendas ou em troca de apoio em projetos que rasgam a dignidade de grupos vulneráveis, como as populações indígenas, e o meio ambiente. E legislam em causa própria, chegando ao cúmulo de propor e conseguir perdões de dívidas bilionárias, que estavam em seu nome e no de seus amigos empresários, com o poder público.

A maioria dos ministros do STF está certa ao encaminhar a denúncia para análise da Câmara dos Deputados.

Mas poderiam, ao menos, ajudar a nação determinando que o dinheiro que será usado para comprar os parlamentares não saia de áreas essenciais, como a gasolina dos carros da fiscalização que retira crianças do trabalho infantil ou da bolsa de pesquisadores que produzem nossa ciência. Afinal, essas políticas chegaram a ser afetadas pela "crise econômica" enquanto dinheiro para livrar Temer nunca faltou.

Post atualizado às 15h30 após a finalização da votação – foram 10 votos contra o recurso do governo e apenas Gilmar Mendes a favor.

 

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Leonardo Sakamoto