Blog do Sakamoto

Aprovação de Temer é tão precária quanto os novos empregos gerados no país

Leonardo Sakamoto

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

O povo é pragmático. No fim do dia, ele costuma optar por políticos que garantam a ele e a sua família segurança econômica. Fernando Henrique e Lula foram reeleitos mesmo com os escândalos de compra de votos e corrupção em seus governos. Não porque a população é mal-informada. Pelo contrário, foram escolhidos novamente porque a sociedade fez um cálculo racional sobre sua própria vida.

Michel Temer segue sendo visto como uma ''aberração'' pela maioria da população segundo a pesquisa Datafolha divulgada neste domingo (3). Sua rejeição melhorou dois pontos (ou seja, dentro da margem de erro), ficando em 71%. A aprovação manteve-se nos ridículos 5%.

Os sinais de melhora na economia são insuficientes para provocar mudanças consistentes na vida da população. Segundo o IBGE, o desemprego foi de 12,2% no trimestre que terminou em outubro, ou seja, 12,7 milhões de pessoas. No trimestre encerrado em julho, a taxa era de 12,8% – maior que no trimestre encerrado em outubro de 2016, quando era de 11,8%. Neste ano, houve um aumento de 2,4% de trabalhadores sem carteira. Ou seja, mesmo se milhões forem empregados, ainda assim a situação continuará muito ruim.

E a geração de empregos cresceu na base da precarização dos direitos dos trabalhadores. Pesquisa divulgada pelos IBGE, nesta semana, estimou que praticamente todas as vagas criadas no setor privado, em 2017, são informais. De empregos sem carteira, passando por pessoas que resolveram se virar por conta própria até trabalhadoras empregadas domésticas sem contrato.

Postos de trabalho precarizados não garantem férias remuneradas, 13o salário, descanso semanal, licença maternidade, limite de jornada, enfim, nenhum dos direitos mais básicos que não foram sustados pela Reforma Trabalhista realizada pelo governo. Para um trabalhador em situação de desespero, trabalho precário é trabalho mesmo assim e ajuda a pagar as contas no final do mês. Mas ele sabe que isso é um acochambramento da realidade.

Ao mesmo tempo, o Datafolha mostrou que subiu o percentual de pessoas que consideram a perda do emprego seu maior temor: de 26% para 31%.

Após uma crise grave, a retomada de empregos com carteira de trabalho leva mais tempo que outros sinais de melhora econômica. Contudo, esta crise veio casada com um processo de retirada de proteção a direitos dos trabalhadores, seja através da já citada Reforma Trabalhista ou da Lei da Terceirização Ampla, seja por um rosário de leis avulsas aprovadas no parlamento sem que a sociedade ficasse sabendo.

Empresas já estão aproveitando as possibilidades trazidas pelo novo marco legal e realizando demissões em massa, contratando outras pessoas sob novas regras, ou aplicando adaptações nos contratos de seus empregados. Ainda é cedo para cravar, mas há a possibilidade da retomada de empregos de qualidade, que garantam um mínimo de qualidade de vida, não ocorra com a mesma força de ciclos anteriores. E um dos efeitos colaterais disso tende a ser a insatisfação da classe trabalhadora com aquele que capitaneou o processo, ou seja, o ocupante da Presidência da República.

Os trabalhadores entregaram mais do que os patrões para que esse crescimento voltasse a acontecer. A impressão de que este é um governo que defende os mais ricos em detrimentos aos mais pobres vem sendo demonstrado pela estratificação do apoio a Temer na série histórica da pesquisa. Além disso, entre os mais ricos, 31% avaliam que sua situação piorou e, entre os mais pobre, 60%. Não apenas porque os de cima têm um colchão de proteção maior, mas também porque não sentiram o estalar do chicote como os de baixo.

Ainda assim, por mais que a aprovação de Temer suba nos próximos meses junto com algum crescimento da economia, não deve avançar muito.

Nenhum outro presidente foi denunciado criminalmente pela Procuradoria-Geral da República ainda estando no cargo. E por duas vezes, envolvendo corrupção passiva, organização criminosa e obstrução de Justiça. Por mais que governos anteriores tentassem, este transformou a relação com o Congresso Nacional em uma grande feira livre a céu aberto, entregando facilidades, benefícios e dinheiro em troca de votos para a manutenção do seu pescoço.

Nenhum foi tão fundo a ponto de publicar uma medida para dificultar a libertação de pessoas escravizadas a fim de atender antiga demanda da bancara ruralista e de grandes empresas da construção civil – e, consequentemente, conquistar votos e apoio para permanecer no poder. Trocar a dignidade da população pela manutenção do poder é algo que a população não esquece tão fácil.

Um presidente visto como corrupto, misógino (suas declarações machistas são antológicas) e amigo dos piores nomes da República. E, pior, um presidente visto como traidor. Porque, concordando ou não com o impeachment, ele conspirou a céu aberto pela queda de Dilma Rousseff. E o povo detesta um traidor.

E olha que a Reforma da Previdência nem foi posta em votação ainda, o que tende a reduzir ainda mais o que já é pequeno.

Ou seja, o grosso da população pode até melhorar o humor com Temer a depender do que aconteça na economia. Mas ele continuará sendo avaliado como alguém que primeiro pensa em garantir o seu e o dos seus, para depois, se der tempo, garantir qualidade de vida ao resto. O povo vai acreditar que o país melhorou apesar dele. E ele não poderá culpar ninguém mais além de si mesmo por conta disso.

Ex-presidentes normalmente preocupam-se com seu legado, como serão vistos daqui a meio século. Caso reflita sobre isso e não ouça apenas áulicos conselheiros, deputados mercenários e empresários interesseiros, Temer já deve vislumbrar o grande vazio que o espera.