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Aliado de Temer reclamar de "subversão da ordem política" é auge do cinismo

Leonardo Sakamoto

12/12/2017 13h29

Foto: Marco Miatelo

O deputado federal Carlos Marun (PMDB-MS), indicado para ministro-chefe da Secretaria de Governo, pediu indiciamento de Rodrigo Janot. Ele usou a Lei de Segurança Nacional para acusar o ex-procurador-geral da República de "subversão à ordem política", entre outros crimes que preveem pena de prisão. Segundo Marun, "houve uma conspiração com o objetivo de afastar o presidente" Michel Temer.

Podem rir, a piada é essa.

É de um cinismo espetacular um governo que chegou ao poder após um processo conspiratório reclamar de conspiração e de subversão da ordem política.

O deputado – que trocou a tropa de choque de Eduardo Cunha pela de Michel Temer quando o ex-presidente da Câmara dos Deputados se mudou para a cadeia em Curitiba – apresentou, nesta terça (12), seu relatório final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre a JBS. Quem cobre o Congresso sabe que, desde o início, o circo foi montado com o objetivo de blindar Temer.

Os controladores da JBS haviam grampeado o ocupante da Presidência da República e parte da elite política para entregá-los de bandeja a Janot e se safarem de punição por corrupção. Joesley Batista tentou manipular esse processo para evitar que fosse punido e, agora, está preso. Isso não apaga o que foi constatado (o que inclui até imagens de uma mala de dinheiro sendo entregue para Rodrigo da Rocha Loures, assessor da Presidência). E nem dá à equipe de Temer o direito de reclamar de conspiração, uma vez que ele fez isso a céu aberto pela queda de sua antecessora.

Marun afirmou que "o resultado pretendido era que a cúpula da PGR interferisse na sua própria sucessão e isto é uma atitude ilícita". Pediu também o indiciamento de Eduardo Pelella, ex-chefe de gabinete de Janot, Marcelo Miller, ex-procurador da República e os controladores do JBS. Pela mesma lógica, Michel Temer e sua cúpula (a parte que não está presa, claro) poderiam ser indiciados por interferir na sucessão do país.

A linha de reclamar da "conspiração"(dos outros) foi adotada pelo Palácio do Planalto para se defender das denúncias de corrupção passiva, organização criminosa e obstrução de Justiça enviadas pela Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal. Temer se livrou de responder por elas enquanto estiver no cargo após distribuir emendas e cargos, perdoar bilhões de dívidas de parlamentares e seus patrocinadores e apoiar medidas para agradar os deputados. Uma delas foi a polêmica portaria que dificultava a libertação de escravos, sonho de consumo da bancada ruralista e de empresas da construção civil, que foi posteriormente suspensa pelo STF.

Quando Temer afirmou, em pronunciamento no último dia 22 de setembro, que "só regimes de exceção aceitaram acusações sem provas, movidos por preconceito, ódio, rancor ou interesses escusos" e depois completou com "lamento dizer que, hoje, o Brasil pode estar trilhando este caminho" quer que ignoremos o seu papel central no processo de impeachment.

Não importa se você considera que houve impeachment legal ou golpe parlamentar contra Dilma. Há de concordar que Temer não teve um comportamento como o de Itamar Franco diante da queda de Fernando Collor. Pelo contrário, vendeu-se como o único capaz de tirar o país da crise e aplicar as reformar liberalizantes desejadas pelo poder econômico, enquanto prometia salvar políticos que eram alvos da Lava Jato (entre os quais, a si mesmo) e ajudar a aprofundar o Congresso Nacional como um balcão de negócios.

Claro que Dilma tem parte parcela considerável de responsabilidade em nossa atual crise econômica devido às suas decisões equivocadas. Mas apeá-la de um mandato alcançado democraticamente por conta da emissão de créditos suplementares/pedaladas fiscais e não por corrupção ou caixa 2 foi forçar a barra. Instituições foram esgarçadas para que o impeachment coubesse nas necessidades do poder econômico e da velha política. Agora, pagamos todos o preço do esgarçamento institucional e do clima de desrespeito a leis e regras com o consequente "foda-se" a tudo aquilo que nos une como um país.

E como o país responde a cinismo em doses cavalares por parte de seus políticos? Com desalento, impotência, desgosto e mais cinismo. Isso não estoura em manifestações com milhões nas ruas, mas gera uma bomba-relógio que vai explodir invariavelmente em algum momento, ferindo de morte a democracia.

Como já escrevi aqui, deixar de confiar na política como arena para a solução dos problemas cotidianos é equivalente a abandonar o diálogo visando à construção coletiva. Caídas em descrença, instituições levam décadas para se reerguer – quando conseguem. No meio desse vácuo, vai surgindo a oportunidade para semoventes que se consideram acima das leis se apresentarem como a saída para os nossos problemas.

Para uma pessoa como Marun, as trevas decorrentes desse processo serão apenas mais um governante a quem jurar lealdade e dele se beneficiar. Porém, para muitos de nós, será um longo caminho escuridão adentro.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.