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Execução de Marielle colocou esquerda e direita contra ultraconservadores

Leonardo Sakamoto

17/03/2018 16h55

Ato contra a morte de Marielle, no centro do Rio, na quinta (15). Foto: Guilherme Prado

A reação à execução da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes conseguiu, ao que tudo indica, suspender as disputas internas da esquerda (que briga até pelo lado certo de quebrar o ovo) e afastar tanto parte da direita liberal quanto da conservadora de perto de grupos extremistas – que abrigam uma curiosa subespécie de humano que é contra os direitos de humanos. Isso mexe com a polarização do debate público, que se manifesta desde as eleições de 2014.

Mesmo que isso seja provisório e demande mais análises para ser compreendido, também parece ter envolvido, de forma catártica, uma massa de cidadãos que não professa uma fé política específica e ficou indignada com os assassinatos. Ainda mais porque o caso envolveu alguém jovem e promissor, representante de grupos sistematicamente oprimidos, que buscava formas de reinventar a política.

Núcleos de pesquisa que analisam as redes sociais, como a Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas, o Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura da Universidade Federal dos Espírito Santo e o Monitor do Debate Político no Meio Digital da Universidade de São Paulo, apontaram que o repúdio à execução de uma defensora de direitos humanos e vereadora provocou um gigantesco impacto nas redes sociais, chegando a fazer mais barulho que o impeachment de Dilma. Apenas uma (barulhenta) minoria, em maior ou menor grau, responsabilizou a vítima por sua própria morte e relativizou a importância do assassinato.

Redes de ultraconservadores, que estavam acostumadas a participar da definição da agenda pública desde as últimas eleições gerais, reagiram com memes fraudulentos e conteúdo visando à desinformação sobre a vida pessoal da vereadora. E abusaram do velho mantra de que "direitos humanos servem apenas para defender bandido". Para se ter ideia do tamanho da preocupação do campo da extrema direita, até pessoas que falam pelos cotovelos, como o deputado federal Jair Bolsonaro, percebendo o potencial de estrago de sua candidatura, foi aconselhado a submergir e se calar para evitar perda de votos.

E a reação à reação não foi menos forte, o que levou aos corajosos de redes sociais a voltar atrás e apagar postagens ou ter que se explicar.

Direitos humanos dizem respeito à garantia de não ser assaltado e morto, de professar a religião que se escolher, de abrir um negócio, de ter uma moradia, de não morrer de fome, de poder votar e ser votado, de não ser escravizado, de poder pensar e falar livremente, de não ser preso e morto arbitrariamente pelo Estado, de não ser humilhado por sua orientação sexual, identidade, origem ou cor de pele. De não ser executado.

O protesto de uma parte considerável da população diante da execução da "defensora de direitos humanos" não é sinal de que, daqui para frente, tudo vai ser diferente e que a morte de Marielle fez com que o Brasil se tornasse um mar de diálogo, empatia e compreensão. Pelo contrário, a execução provou que o país é um lugar terrível para se viver se você tenta melhorar a vida de sua comunidade. Um lugar que permite que uma liderança negra e feminista, eleita com uma expressiva votação para representar moradores pobres, seja executada no exercício de seu mandato.

Mas o comportamento do debate público mostrou que talvez exista um espaço para que reafirmemos esse pacote mínimo de garantias que cada um deveria receber ao nascer chamado de direitos humanos. Independentemente do sentido apontado pelas investigações, lideranças sociais, políticas e econômicas deveriam aproveitar o momento para se comprometer publicamente de não colocar esse pacote em renegociação. Seria uma bela forma de honrar não só a memória de ambos, mas toda mobilização decorrente da tragédia até agora.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.