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Como a execução de Marielle está semeando novas Marielles pelo país

Leonardo Sakamoto

22/03/2018 08h12

Por Lorena Lacerda e Maíra Kubík Mano (*)

As ruas foram novamente ocupadas por multidões sentidas.

Sentidas de luto, dor e tristeza de terem que se reunir para lembrar o sétimo dia dos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes.

Como nos despedirmos dessa mulher negra, feminista, bissexual, vinda da comunidade da Maré, de esquerda socialista, que lutava cotidianamente em defesa da população favelada e acreditava em um mundo livre de desigualdades?

Uma mulher que ousou ocupar um espaço na política institucional, tão pouco afeito à presença de pessoas que não sejam brancas, heterossexuais, homens e cisgêneros, para pautar os direitos humanos.

Em Salvador, de onde escrevemos este texto, diante de muita comoção, as e os participantes do ato transformaram o luto em luta. Partindo de uma caminhada fúnebre do Terreiro de Jesus até a frente da Igreja do Rosário dos Pretos, lugar histórico do movimento negro, as mulheres fizeram um chamado-homenagem às diversas vítimas de feminicídio em Salvador e em outras cidades no Brasil.

A lembrança se deu através de cartazes que traziam fotos dessas mulheres também assassinadas, a exemplo de Cláudia da Silva Ferreira, mulher negra e favelada, executada e arrastada pela polícia militar do Rio de janeiro. Gritamos o nome de cada uma, marcando suas presenças. Os manifestos foram engajados por discursos, poesias, cantos e gritos de resistência negra, chamando atenção para as violências contra as mulheres, os crimes de feminicídio, o racismo, a negação do Estado em relação aos direitos das mulheres negras e para o genocídio da população negra. Demarcou-se um sentimento de despertar em relação a segurança das e dos militantes que têm como premissa questionar e combater as violações dos direitos humanos. Para a militância negra, o assassinato de Marielle, que era uma porta voz eleita, efetiva ainda mais o genocídio da população negra, uma das bandeiras de luta da vereadora.

Eleita com 46.502 mil votos na segunda maior cidade do Brasil, Marielle tinha uma carreira política promissora e estava em rápida ascensão. Num Rio de Janeiro que tem sido o laboratório do que há de pior no golpe parlamentar-jurídico-midiático, sua voz, potente, ecoava em defesa dos subalternizados e dos excluídos. Em tempos de fascistização social, sua presença física impactava o parlamento dessa tão incompleta, frágil e agora suspensa democracia. Era uma ferida aberta e insistente para que os de baixo não fossem esquecidos.

No final do ato em Salvador, todas e todos se abraçaram no sentido de simbolizar a união e a força que transforma Marielle Franco em diversas sementes daqui em diante. Algumas de nós já saíram de lá pensando ou discutindo suas candidaturas nas próximas eleições, demonstrando uma coragem sem fim para manter a chama acesa. Sim, o horizonte segue existindo e nós é que demarcamos ele. É preciso ocupar os espaços, todos os espaços. Se estamos juntas, não teremos medo.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, um dos discursos mais potentes foi feito pelo pastor Henrique Vieira e traduz muito do sentimento que dominou os atos em diversos estados: "Aqueles tiros não foram capazes de silenciar a voz de Marielle. Nós estamos vivos e o sonho permanece. O sonho ainda está vivo. É preciso respeitar a dor. As nossas lágrimas e as nossas fraquezas vão mover as estruturas desse mundo. Ainda está de pé o sonho de um país em que os negros não são culpados até que se prove o contrário, em que as mulheres derrotem de vez o machismo, o sonho em que seja justa toda a forma de amor, em que o parlamento seja ocupado por indígenas, quilombolas, camponeses, sem teto, mulheres negras. Negros não voltarão para as senzalas, LGBTs não voltarão para o armário, mulheres não voltarão para a submissão. Os nossos sonhos não vão ficar num caixão porque nós somos a semente".

Aqui interrompemos o texto a quatro mãos para encerrar com Lorena Lacerda, feminista negra, da comissão organizadora da Marcha do Empoderamento Crespo, falando:

É muito doloroso perder Marielle Franco, uma mulher negra, uma das nossas. Marielle era o nosso espelho, pois não tem como ser mulher e negra, e não se enxergar em Marielle Franco. Marielle representa uma liderança brilhante, pois sua força ancestral move uma geração de mulheres aguerridas. Por isso, nós, mulheres, negras, militantes dos direitos humanos, transformaremos, mais uma vez, o luto em luta! Onde será honrado cada discurso de Marielle Franco em prol da população negra, a qual ela morreu lutando.

Seguiremos atuantes, mais firmes e fortes, ecoando a voz de Marielle Franco contra o genocídio da população negra, o racismo, LGBTTfobias e a misoginia. Convocamos toda a população para dizer e firmar #MariellePresente!

O braço armado do Estado insiste em nos enterrar, com tanta negação de direitos, racismo e misoginia, mas temos os punhos cerrados para lutar, por Marielles e Cláudias, pois somos sementes.

E sementes germinam.

(*) Lorena Lacerda, feminista negra e integrante da comissão organizadora da Marcha do Empoderamento Crespo. Maíra Kubik Mano, mulher, branca, cis, feminista e professora da pós-graduação em Estudos Interdisciplinas sobre Mulheres, Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia.

 

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.