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Facebook tira do ar página que bombou notícia falsa sobre Marielle Franco

Leonardo Sakamoto

2024-03-20T18:13:42

24/03/2018 13h42

Foto: Mídia Ninja

Envolvidos na difusão de notícia falsa sobre a vereadora Marielle Franco, a página Ceticismo Político e dois perfis no Facebook atribuídos ao nome "Luciano Ayan", que se apresenta como o responsável por ela, foram retirados do ar. Os perfis de Ayan estão indisponíveis desde a noite de sexta (23) e a página, neste sábado.

O Facebook confirma que essa página (facebook.com/ceticismopolitico) e os perfis não voltam ao ar. "Nossos Padrões da Comunidade não permitem perfis falsos, e contamos com nossa comunidade para denunciar contas assim. Páginas administradas por perfis falsos também violam nossas políticas", afirmou comunicado da empresa ao blog.

Após o bloqueio de sua página, o site Ceticismo Político publicou um texto de alguém que afirma se chamar Carlos Augusto de Moraes Afonso e que seria responsável pelo pseudônimo Luciano Ayan e por suas páginas no Facebook.

O nome Carlos Augusto de Moraes Afonso aparece como um dos donos da empresa Yey Inteligência (CNPJ 28.724.932/0001-04, nome fantasia "Nox"), cuja atividade econômica é "consultoria em gestão empresarial", de acordo com a Receita Federal. Segundo registros da Junta Comercial do Estado de São Paulo, esse nome é sócio de Pedro Augusto Ferreira Deiro – um dos fundadores do MBL. A página do movimento costuma divulgar publicações do Ceticismo Político com frequência.

Os nomes "Luciano Henrique Ayan" e "Luciano Ayan" são velhos conhecidos do debate político nas redes sociais desde os tempos do Orkut. Tanto ele quanto a página são acusados de propagarem notícias falsas e de atuar para desinformar, manipular dados e reportagens e hiperpartidarizar conteúdos.

Logo após a execução de Marielle, no dia 14, no Rio de Janeiro, ter criado comoção nas redes sociais e veículos de comunicação em todo o mundo, começou a circular informação falsa de que ela seria namorada do traficante Marcinho VP e aliada de uma facção criminosa.

Nesta sexta, o jornal O Globo publicou a reportagem "Como ganhou corpo a onda de 'fake news' sobre Marielle Franco", apontando que o link mais compartilhado na difusão do boato de ligação dela com o crime organizado pertencia ao site Ceticismo Político. O conteúdo foi divulgado através da página com mesmo nome no Facebook. E, logo depois, reproduzido pela página do MBL na mesma rede social.

Distorcendo uma reportagem de Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, que tratava do caso de uma desembargadora que havia repassado boatos sobre Marielle Franco (informação que, na matéria, a própria magistrada reconheceu não ter checado), o site Ceticismo Político publicou "Desembargadora quebra narrativa do PSOL e diz que Marielle se envolvia com bandidos e é 'cadáver comum'".

De acordo com o Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura, da Universidade Federal do Espírito Santo, a postagem havia sido compartilhada mais de 360 mil vezes no Facebook até a noite de quinta. Os dados do Monitor do Debate Político no Meio Digital, da Universidade de São Paulo, reafirmam o número. Isso o coloca em primeiro lugar entre os materiais que circularam na rede e que trataram do boato, considerando aqueles que difamaram quanto os que defenderam Marielle.

Não apenas Luciano Henrique Ayan (facebook.com/luciano.henriqueayan) não está mais disponível desde ontem à noite, como também "Luciano Ayan" (facebook.com/luciano.ayan.96).

Segundo os Padrões da Comunidade do Facebook, que traz as regras de utilização da plataforma digital, as pessoas que desejam se conectar à rede precisam usar suas verdadeiras identidades. Ou seja, não são permitidas contas falsas. A regra, na prática, é pouco cumprida, o que leva à existência de milhões de perfis falsos usados com objetivos comerciais, políticos ou de simples desejo de anonimato.

Acionada por denúncias de usuários, a rede pode suspender perfis e páginas até que comprovem não serem falsos. Tanto a página quanto os dois perfis sofreram uma avalanche de denúncias por conta da matéria de O Globo.

Também pelas regras da plataforma, uma página tem que estar vinculada a um ou mais perfis de pessoas reais. A rede comprovou que os perfis por trás da página Ceticismo Político (facebook.com/ceticismopolitico) – com mais de 106 mil curtidas e que traz o nome e uma foto atribuída a Luciano Ayan – eram falsos e a removeu do ar. Há outras menores, como a que está no endereço facebook.com/ceticismopolitico.org, com 25 mil curtidas, que permanecem, contudo.

A rede social não conta com políticas específicas para identificação de notícia falsa, a justificativa é de que a empresa não quer ser "árbitro da verdade". A remoção de conteúdos fraudulentos depende, na maior parte das vezes, de ordem judicial. Mas sua política de autenticidade acaba sendo a porta utilizada para suspender quem veicula notícias falsas que prejudicam outras pessoas, uma vez que uma parte dos perfis que alimenta a rede de desinformação é fraudulento.

Para um perfil suspenso retornar ao Facebook, seu proprietário deve comprovar, com um documento de identidade com foto, que ele é ele. O mesmo se aplica aos perfis que administram páginas. No caso abordado aqui, a empresa afirma que os perfis e páginas específicos não retornarão.

A Constituição Federal, em seu artigo 5o, inciso IV, afirma que "é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato". Ou seja, garante a liberdade de expressão como direito fundamental, mas cobra daqueles que a exercem responsabilidade pela consequência de seus atos.

Veículos de comunicação tradicionais, independentes e alternativos, comunicadores em redes sociais, blogs, sites grande ou pequenos, que se apresentam publicamente com identidade real e formas de serem localizados, como o endereço físico real, por exemplo, podem ser interpelados judicialmente caso alguém se sinta prejudicado por alguma ação por eles realizada. Já quem está sob o anonimato ou pseudônimos, não.

Há discussões no Tribunal Superior Eleitoral, no Congresso Nacional e junto às empresas que controlam redes sociais para aumentar a transparência e reduzir a possibilidade de anonimato durante as eleições deste ano.

Ressalte-se a importância de veículos tradicionais e alternativos na resposta aos boatos. Considerando a repercussão deste que difamou Marielle Franco, o Monitor do Debate Político no Meio Digital da USP aponta que, em segundo lugar entre os mais compartilhados, ficou a postagem da plataforma de checagem Aos Fatos, manchete do portal UOL, com mais de 276 mil compartilhamentos.

O título era "Não, Marielle não foi casada com Marcinho VP, não engravidou aos 16 e não foi eleita pelo Comando Vermelho". Em quarto e quinto, duas postagens da plataforma de checagem E-farsas e do UOL relevando a mentira, com 73,6 mil e 57,7 mil, respectivamente.

Luciano Ayan – Apesar de fazer parte do debate político e ser frequentemente reproduzido por páginas como a Folha Política e MBL, não se conhecia sua real identidade, o que dificultava sua interpelação e responsabilização. A carta publicada por alguém que assina Carlos Afonso, que se diz da "área de tecnologia", assumindo o pseudônimo, mas não apresenta endereço físico, contato ou foto.

No texto publicado no site Ceticismo Político, neste sábado, Luciano Ayan/Carlos Afonso afirma que desenvolveu "um método para a guerra política", beneficiando a direita. E que usa o pseudônimo porque queria, além de desenvolver o método, "criar uma base de conhecimento" e auxiliar as pessoas", "mas sem transformar tudo em uma atividade principal".

Segundo ele, a decisão de sair do anonimato se deve ao fato da Globo – a quem chama de "mídia pró-PSOL – ter dito que ele havia publicado fake news usando um perfil falso. O missivista mantém o que foi publicado, ignorando que a desembargadora admitiu ter reproduzido conteúdo não checado. Pelo contrário, afirma que "as dúvidas já estão lançadas e não é mais possível que membros do PSOL afirmem que Marielle certamente 'foi vítima de crime político' sem serem questionados". Culpa as pessoas por má fé e não reconhece problemas no que publicou.

Post atualizado para inclusão de informações às 16h14 do dia 24/03/2018.
Aviso de transparência: O autor deste texto faz parte de um núcleo interuniversitário de professores de jornalismo responsável por um curso gratuito online sobre desinformação, manipulação e notícias falsas que conta com o apoio, entre outras instituições, do Facebook. 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.