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Tiros contra caravana de Lula mostram que já começamos transição à barbárie

Leonardo Sakamoto

28/03/2018 02h06

Foto: Marcos Alves/ Agência O GLOBO

Dois ônibus da caravana que o ex-presidente Lula realiza na região Sul foram atingidos por tiros entre as cidades de Quedas do Iguaçu e Laranjeiras do Sul, ambas no Paraná. Ninguém ficou ferido. O veículo que transportava parte dos jornalistas que estão cobrindo os atos ostentava buracos de bala.

"Ouvi um barulho de pedra, olhei para os lados e não vi ninguém tacando. Só tivemos certeza que era tiro quando paramos o ônibus porque haviam jogado 'miguelitos' [pregos entrelaçados para furar pneus] e vimos as marcas de fora", afirmou ao blog um dos jornalistas que estavam no ônibus.

Em qualquer lugar minimamente civilizado, todas as autoridades e organizações sociais, independentemente de sua orientação ideológica, repudiariam o ataque e exigiram investigação urgente. Porque, um ataque a tiros, sem contar o uso de material para furar pneus, se configura atentado à vida de um ex-presidente e pré-candidato à Presidência da República, mesmo que os agressores tenham errado o ônibus em que ele estava. Mas, por aqui, isso é relativizado e minimizado. Ou, pior, comemorado.

Sarney, Collor, Fernando Henrique, Lula, Dilma, Temer. Uma coisa é protestar contra seus governos ou mesmo exigir que enfrentem a Justiça e sejam punidos, conforme a lei, por eventuais crimes cometidos. Outra coisa é tentar assassiná-los ou colocar em risco a vida de pessoas que trabalham com eles ou de jornalistas que estão lá para relatar a seus públicos os fatos.

É a diferença entre a civilização e a barbárie. E, sim, à medida em que nos aproximamos do primeiro turno, em 7 de outubro, chegamos mais perto da degradação. Para quem tem dúvida sobre isso, sugiro checar as milícias digitais de extrema direita que, em meio ao ocorrido, espalham que o PT forjou um ataque a tiros contra a caravana de sua principal liderança.

O ministro extraordinário da Segurança Pública, Raul Jungmann, declarou que é "inaceitável" o ocorrido. "Isso não é convivência democrática. Isso não pode acontecer, e se acontecer é preciso identificar os responsáveis porque não pode se repetir dentro do regime democrático." Com um pouco mais de boa vontade, teria descrito o ato por seu nome real.

Enquanto isso, o governador paulista Geraldo Alckmin, surpreendentemente, passou a mão na cabeça de quem cometeu o ato, transferindo a responsabilidade a quem levou chumbo. "Acho que eles estão colhendo o que plantaram", afirmou. Não, nada justifica uma ataque a tiros.

Em setembro do ano passado, questionado por uma rádio se ele se sentia incomodado por ter apadrinhado a carreira de João Doria que, naquele momento, tentava puxar seu tapete na disputa pela candidatura ao Palácio do Planalto, respondeu algo que serviria perfeitamente a ele próprio neste momento. "Uma vez o meu pai me falou: 'Lembre-se sempre de Santo Antônio de Pádua. Quando não puder falar bem, não fale nada.' "

Com a repercussão negativa de sua declaração, o governador voltou atrás e amenizou: "É papel das autoridades apurar e punir os tiros contra a caravana do PT". E completou com o óbvio: "e é papel de homens públicos pregar a paz e a união entre os brasileiros". Mas estamos falando da internet, onde a correção não tem o mesmo fôlego da bizarrice original.

No final das contas, ao tentar chamar a atenção para o eleitor de Bolsonaro, ele acabou fazendo propaganda para o próprio.

Durante a caravana, o efetivo policial não tem sido sempre suficiente ou competente para evitar ataques. Na verdade, pelos relatos dos colegas, não raro policiais fizeram vistas grossas e deixaram o pau comer. Seria uma profunda hipocrisia, contudo, afirmar que houve um equilíbrio nas agressões. Grupos de ruralistas, milicianos de extrema direita, fãs de Jair Bolsonaro e milícias digitais têm perseguido a caravana em ondas de paus, pedras, ovos e até chicotadas.

Critiquei aqui não só a ovada que o prefeito João Doria levou de manifestantes em Salvador (BA), como o ataque a muitos outros políticos, independente de sua coloração ideológica. É algo que vale para todos, é inadmissível esse tipo de ação. Os instrumentos de disputa devem ser ideias e não objetos e armas.

Mas em um país em que se executa Marielle Franco, a quinta vereadora mais votada de nossa segunda maior cidade, voz de várias minorias historicamente sub-representadas, as regras de civilidade política já foram subvertidas há muito tempo. A verdade é que nem foram implantadas de fato para uma camada da população. Enquanto isso, os corpos que tombam regularmente na região amazônica e no Cerrado provam que enterrar político é uma de nossas mais amadas tradições.

A imprensa, ao mesmo tempo, é atacada e socada por todos os lados, com a complacência dos mesmos policiais. E considerando que o ataque a tiros ocorreu contra um ônibus que levava jornalistas, a agressão a quem tem por ofício produzir notícia foi elevada a um novo nível de ignorância. Cansei de denunciar aqui a violência contra jornalistas que cobrem atos e manifestações. Se nossa categoria se visse como trabalhadora, já teria cruzado os braços diante da percepção de que veremos colegas sendo mortos até outubro por conta do ódio.

Mas quem são os "monstros" que fazem boa parte dessas ações? São apenas doidos perdidos na multidão?

Em "Eichmann em Jerusalém – Um relato sobre a banalidade do mal", a filósofa Hanna Arendt conta a história da captura do carrasco nazista Adolf Eichmann, na Argentina, por agentes israelenses, e seu consequente julgamento. Ela, judia e alemã, chegou a ficar presa em um campo de concentração antes de conseguir fugir para os Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Já usei a analogia antes, mas acho que ela é pertinente aqui.

Ao contrário da descrição de um demônio que todos esperavam em seus relatos, originalmente produzidos para a revista New Yorker, o que ela viu foi um funcionário público medíocre e carreirista, que não refletia sobre suas ações e atividades e que repetia clichês. Ele não possuía história de preconceito aos judeus e não apresentava distúrbios mentais ou caráter doentio. Agia acreditando que, se cumprisse as ordens que lhe fossem dadas, ascenderia na carreira e seria reconhecido entre seus pares por isso. Cumpria ordens com eficiência, sendo um bom burocrata, sem refletir sobre o mal que elas causavam.

A autora não quis com o texto, que acabou lhe rendendo ameaças, suavizar os resultados da ação de Eichmann, mas entendê-lo em um contexto maior. Ele não era o mal encarnado. Seria fácil pensar assim, aliás. Mas explicar que a maldade foi construída aos poucos, por influência de pessoas e diante da falta de crítica, ocupando espaço quando as instituições politicamente permitiram. O vazio de pensamento é o ambiente em que o "mal" se aconchega, abrindo espaço para a banalização da violência.

É assustador saber que alguém visto como "normal" e "comum" pode ser capaz, nos contextos histórico, político e institucional apropriados, tornar-se o que convencionamos chamar de monstro. Ou seja, os monstros são nossos vizinhos – aquela que empina pipa com sua filha, aquele que faz um ótimo churrasco, aquele que adora cuidar de roseiras. Ou podem ser nós mesmos.

Como sempre digo aqui neste espaço, líderes políticos, sociais ou religiosos afirmam que não incitam a violência através de suas palavras. Porém, se não são suas mãos que seguram o revólver, é a sobreposição de seus argumentos e a escolha que fazem das palavras ao longo do tempo que distorce a visão de mundo de seus seguidores e torna o ato de atirar banal. Ou, melhor dizendo, "necessário". Suas ações e regras redefinem o que é aceitável, visão que depois será consumida e praticada por terceiros. Estes acreditarão estarem fazendo o certo, quase em uma missão divina.

Na prática, os envolvidos nesses casos colocam em prática o que leem todos os dias na rede e absorvem em outras mídias: que seus adversários político e ideológico são a corja da sociedade e agem para corromper os valores morais, tornar a vida dos "cidadãos pagadores de impostos", um inferno, e a cidade, um lixo. Seres descartáveis, que vivem na penumbra e nos ameaçam com sua existência, que não se encaixa nos padrões estabelecidos do bem.

Vendo, nas redes sociais, comentaristas reais e perfis falsos alternarem-se em postagens de júbilo pelo ataque e de tristeza por Lula ou alguém de seu partido não terem morrido. Não conseguem se ver como pessoas balbuciando seu ódio e sua incapacidade de compreender e aceitar a existência da diferença e do outro. Pelo contrário, enxergam os agressores como "soldados" que estavam fazendo o bem pelo país.

Como agir com um país que vê com normalidade a comitiva de um ex-presidente ser atingida por tiro? Como dialogar com quem acha normal matar por ideias? O que fazer quando um ato, que pode ser de loucura, tem origem estrutural? Independentemente da estratégia, ela começa com paciência e vai demandar muita resistência. Porque a barbárie não pode vencer.

Políticos não deveriam ser impedidos de falar em público, não importa quem sejam. Jair Bolsonaro, Geraldo Alckmin, Lula, todos têm o direito de defender sua visão para o país. Mesmo os que incitam a violência podem falar, afinal a liberdade de expressão não aceita censura prévia, mas prevê a responsabilização judicial posterior. Pois a partir do momento em que a política se torna proibida e é recebida à bala, democracia é ferida de morte.

Não importa quem começou. Isso é de responsabilidade de todos, agora, e todos devem dar um basta a isso. A discussão não é entre direita e esquerda, mas entre civilização e barbárie. Antes que seja tarde demais. Porque, dependendo do que aconteça, não são apenas mortos e saudades que deixaremos pelo caminho. Mas o futuro de um país.

Esperemos que não seja tarde demais.

Texto atualizado às 10h30, do dia 28/03/2018, para inclusão de novo posicionamento de Geraldo Alckmin.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.