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Leonardo Sakamoto

Eleições 2018: Pessoas normais se tornam zumbis após mordidas pelo WhatsApp

Leonardo Sakamoto

30/04/2018 18h18

Uma coisa que dá tilt na cabeça de muita gente é um jornalista corintiano ou palmeirense criticando o seu próprio time. Ou um que se reconheça à direita ou à esquerda e critique o comportamento de políticos que se dizem do mesmo campo ideológico.

Isso leva as torcidas organizadas de times ou de candidatos à loucura. Para muitos leitores, uma crítica vinda de alguém que compartilha uma visão semelhante de mundo é visto com tal assombro que passa a ser tratada como uma traição, ou seja, ofenda maior que as palavras do adversário. No caso da política, uma resposta padrão usada quando se critica a corrupção, o machismo ou a incompetência de determinados líderes é de que "não é hora de fazer o jogo do inimigo". Ignorando, claro, o que seu herói disse.

O país vive um momento ultrapolarizado. Muitas pessoas não vão às redes sociais buscar informações plurais que possam ajudar a montar sua visão de mundo, mas elementos para reafirmar as características da identidade de seu grupo – nós somos melhores, mais nobres, mais éticos, mais competentes que o outro. E, ao mesmo tempo, munição para atingir e derrubar o adversário.

Ou seja, informação boa é aquela que me permita ganhar a guerra. Se ela atinge meu próprio "time", mesmo que seja procedente, deve ser enterrada ou ignorada. Nesse contexto, reportagens densas e textos analíticos que envolvem muitas variáveis ganham menos reverberação não por sua complexidade, mas por sua pluralidade. Ao passo que conteúdo que traz denúncias simples é consumido como jujuba.

O algoritmo das redes sociais, que ajuda a criar bolhas e caixas de eco, não ajuda em nada a situação. As pessoas leem, repetidamente, conteúdo semelhante àquele que postam. Quando aparece algo diferente, piram e acham que é uma exceção na sociedade.

As postagens de minhas contas em redes sociais, por exemplo, alcançam menos leitores de extrema direita do que os da direita liberal, centro-esquerda e esquerda. Ultraconservadores recebem algum post meu quando este é replicado por um de seus membros para me xingar. Acabam não tendo acesso, portanto, aos textos críticos à esquerda – e nem se dão ao trabalho de procura-los.

Nesse caldo, não pode existir jornalismo, apenas militância partidária. Quando um analista identificado com um campo ideológico publica textos incômodos, critica-se a sua falta de "bom senso" em meio à "guerra travada". Os envolvidos não percebem que o erro é deles ao achar que todo conteúdo na rede deva servir para ativismo puro e simples.

Tempos atrás, um assessor político no Congresso Nacional disse que um certo texto meu sobre a situação social no Maranhão, apesar de bem apurado e com bastante informação, seria pouco distribuído nas redes sociais. O post trazia críticas às gestões Sarney, por conta de um assunto, e questionava a atual gestão Flávio Dino, por outro. E daí, segundo ele, residia meu erro. Pois nem a "torcida" dos Sarney, nem a "torcida" do Dino se sentiriam à vontade de compartilhá-lo e tuita-lo.

Acertou em cheio. Sua dica seria, da próxima vez, dividir em dois, agradando, assim, diferentes públicos, como muita gente faz. O problema é que o resultado disso é que o texto se transformaria em mais munição para guerra digital e não em um conteúdo que mostrasse vários aspectos simultaneamente. Tristes tempos que um texto que traz toda a complexidade de um problema é tachado de "isentão" e considerado ruim sem que seja totalmente lido.

Num momento em que o número de leitores e cidadãos é reduzido e aumenta o de fãs clubes e torcedores, todos somos sistematicamente coagidos a nos tornarmos cheerleaders de um candidato e defendê-lo até a morte. Caso contrário, somos vistos como incoerentes.

Incoerente é o cidadão deixar o senso crítico no congelador e terceirizar a interpretação da realidade. Para certas pessoas, uma mensagem anônima no WhastApp é mais agradável que cinco minutos de reflexão solitária – pois nunca se sabe aonde a autocrítica pode nos levar. Dissolver-se no coletivo e deixar que as decisões sejam tomadas pela massa me parece desesperador. Mas cair no fluxo e ser levado por ele tem sido a saída encontrada para muitos que estão assustados como o mundo e suas mudanças.

O problema é que, no limite, isso destrói pontes e desumaniza o outro a tal ponto que atirar nele ou esfaqueá-lo torna-se um ato banal, quase uma ação em prol do coletivo.

Como disse um leitor em pane: "Você é um hipócrita. Sabemos que você comprou um Porsche com os pixulecos que ganha do PT para defende-lo, mas critica o PT . Qual o seu problema?" Meu problema? É não saber onde parei o Porsche. E ainda ter a curiosidade mórbida de ler certos comentários em redes sociais.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.