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Notícia falsa diz que terei o poder de censurar notícia falsa no Facebook

Leonardo Sakamoto

17/05/2018 19h37

Montagem com três postagens que imputam falsamente meu envolvimento no processo

Está circulando nas redes sociais a informação de que eu darei a última palavra sobre quais conteúdos que podem ou não aparecer nas timelines do Facebook, censurando aquilo com o qual não concordar. Tudo a pedido da maior rede social do mundo.

Sinto desapontar os haters, mas isso é uma notícia falsa sobre uma notícia falsa. Não conseguia mandar nem no meu gato. De qualquer forma, é história que merece ser contada para mostrar como funciona o submundo da construção das "verdades alternativas" nas redes sociais. Até porque, por conta dessa farsa, fui atacado – nas redes e na rua.

Primeiro, se esses mesmos grupos que divulgam esse boato não tivessem preguiça ou preconceito de ler, teriam encontrado textos, neste blog, em que exponho algumas premissas sobre o assunto que contrariam o boato, como:

– Defendo fortemente que não é possível, nem desejável, definir por lei o que seja "verdade" e o que seja "mentira" por lei. Para uma democracia, é preferível um ecossistema político contaminado com a circulação de notícias falsas a um Estado ou grande corporação com o poder de decidir o que deve ter credibilidade e o que não;

– Também defendo que as pessoas tenham acesso a informações checadas com método e qualidade. Quanto mais versões de um mesmo fato, maior a chance de se ter um retrato fiel possível do que chamamos de realidade;

– Liberdade de expressão não admite censura prévia. As pessoas têm liberdade de dizer o que desejam. Mas, ao mesmo tempo, as pessoas são responsáveis legais pelo impacto que a divulgação de suas opiniões causa na vida de outros.  Como não existem direitos absolutos, nem o direito à vida é (caso contrário, haveria punição severa para a legítima defesa), um direito é limitado pelos demais. E é a Justiça quem pune os excessos;

– Na internet, infelizmente "verdade" é todo conteúdo no qual acreditamos e "mentira" é tudo aquilo do qual discordamos. Para alguns políticos e grupos, essa distorção é usada de forma estratégica para conquistar corações e mentes, travar uma guerra simbólica com a imprensa e a oposição e/ou se manter no poder.

O boato contra mim está sendo bombado por páginas de grupos conservadores e perfis de profissionais liberais, estudantes, trabalhadores da área de tecnologia e professores. Até o procurador de Justiça do Rio de Janeiro Marcelo Rocha Monteiro e o deputado federal Eduardo Bolsonaro acreditaram na história e compartilharam a informação falsa sem verificar sua veracidade ou procedência.

Tudo começou com o Facebook divulgando sua nova parceria com as agências de checagem de notícias Aos Fatos e Lupa para verificação de conteúdo e difusão da informação checada para a rede social no dia 10 de maio. Imediatamente, grupos conservadores passaram a criticar o anúncio, afirmando que isso levaria à perda de sua liberdade de expressão na rede. Até aí, tudo bem – eles têm todo o direito de expor sua opinião.

O problema é que, na sequência, começaram pesados ataques pessoais aos profissionais que trabalham nessas agências. Esses tiveram fotos próprias, de familiares e de pessoas próximas disseminadas, junto com informações falsas e ofensivas, como registrou a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). A violência que sofreram deve ser algo de processos judiciais.

Em meio a isso, não apenas fui associado à história, apesar de não participar da parceria para checagem e de não fazer parte de nenhuma agência de checagem de informações, como fui alçado à categoria de um dos líderes do processo. E atacado como tal, em vídeos de grupos radicais, sites e redes sociais.

A razão para tanto, vejam só, é uma outra notícia falsa.

Há alguns anos, sites que veiculam conteúdo fraudulento passaram a divulgar que eu era o proprietário da Agência Pública de jornalismo investigativo, que também conta com um serviço de checagem de informações. Não sou e nunca fui dono ou sócio dessa organização. Permaneci por um tempo como membro de seu conselho consultivo – grupo informal que, uma vez por ano, discute perspectivas, sem remuneração ou cargo, sem poder para nada.

Na época, houve um desmentido da própria Pública, mas como fatos são irrelevantes diante da possibilidade de usar uma mentira em proveito próprio, grupos ultraconservadores que sabem que um naco de seus seguidores não confia em serviços de checagem de notícias e outro naco não vai com a minha cara por conta de meus posicionamentos, passaram a usar essa falsa relação de propriedade para me criticar.

Por ignorância ou má fé, alguém relacionou o serviço de checagem da Agência Pública (sobre o qual eu nunca opinei) a essa parceria com o Facebook, do qual ela também não participa. Isso bastou para um mar de chorume invadir minha timeline e minhas caixas postais, acusando-me de censor, com ataques e ameaças.

O ódio fabricado transbordou e alcançou a rua, onde fui abordado e xingado por conta de uma participação inexistente num processo de checagem de conteúdo.

Falta amor no mundo, mas falta interpretação de texto. Bastariam cinco minutos de leitura para constatar que minha área de atuação sobre a questão da desinformação online é prioritariamente a alfabetização para a mídia – que diz respeito a ensinar técnicas para ajudar as pessoas a consumir e compartilhar informação de forma responsável, garantindo que elas façam as escolhas. Para tanto, um grupo de professores de jornalismo do qual faço parte atua no desenvolvimento de metodologia educacional sobre o tema e conta com apoio de instituições públicas e privadas, entre elas o próprio Facebook.

Considerando o baixo índice de alfabetização midiática, com uma população, em sua maioria, sem ferramentas para discernir o que é um fato real do que é conteúdo fraudento, mas também levando em conta que existem processos de manipulação extremamente desenvolvidos, capazes de enganar até quem desbarata notícias falsas por profissão e com plataformas com transparência limitada, temos um longo caminho para combater a instrumentalização das redes por quem deseja tolher a liberdade.

Não é a primeira vez que sou transformado em alvo ambulante por conta de conteúdo fraudulento. Em 2015, um anúncio pago no Google bombou uma notícia falsa de que eu ganharia milhões para defender políticos. Com a autorização da Justiça, sigilos foram quebrados e os documentos apontaram para a empresa JBS como responsável pela propagação da difamação. Talvez seja pelo fato de que atuo, há quase 20 anos, na denúncia de combate ao trabalho escravo e desmatamento ilegal na cadeia da carne. O que importa é que, no meio disso, fui derrubado na rua, cuspido, perseguido, xingado, acusado injustamente de algo que não cometi. Para ler mais sobre isso, clique aqui.

Ou em 2016, quando um jornal de Minas Gerais publicou em sua capa um manchete em que atribuía a mim uma declaração que nunca dei dizendo que aposentados eram inúteis à sociedade. Ela remetia a uma entrevista inventada de página inteira. Justificaram-se afirmando que foram "enganados" por alguém que se passou por mim. Por obrigação legal, tiveram que publicar um direito de resposta na capa e no miolo. Mas o estrago estava feito e, até hoje, redes de ódio utilizam essa informação falsa para atacar.

Para mim, seria muito fácil defender censura prévia aos malucos que despejam ódio e intolerância. Mas prefiro atuar em outras causas, reduzindo a ultrapolarização política, garantindo espaços para o desenvolvimento da empatia, aumentando a pluralidade nas timelines, alfabetizando os mais jovens para a mídia e para o diálogo. Espero que, com essa informação, as informações falsas sejam retiradas do ar.

Isso vale para quem publicou a informação de forma equivocada e desavisada. Se foi de má fé, daí é outra história. A mesma história que está sendo escrita sobre a corrosão da democracia no Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.