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Alckmin afirma que PSDB foi sócio de um "intruso" no comando do país

Leonardo Sakamoto

23/05/2018 14h51

Foto: Nacho Doce/Reuters

"Você quando não tem voto, você é meio intruso." Em sabatina a jornalistas do UOL, da Folha e do SBT, nesta quarta (23), o ex-governador de São Paulo e pré-candidato do PSDB à Presidência da República Geraldo Alckmin afirmou que faltou legitimidade a Michel Temer para governar.

"Quem ganhar essa eleição terá o apoio de, pelo menos, 55 milhões de brasileiros no segundo turno", afirmou. "A legitimidade nas urnas é muito forte." Para Alckmin, além da falta de votos dados diretamente a Temer, o próprio processo de impeachment (um "trauma", segundo ele) também complicou as circunstâncias, dificultando a realização de reformas.

Não tenho críticas quanto à sua análise.

Só faltou a Alckmin explicar por que seu partido ajudou a colocar e manter Michel Temer no Palácio do Planalto. Líderes tucanos queriam aproveitar a janela de oportunidade que se abriria com a retirada forçada de Dilma Rousseff para aprovar reformas liberalizantes – mudanças que seriam rechaçadas pela população se apresentadas em um processo eleitoral. Tanto que o PSDB participou ativamente do seu governo e apenas desembarcou por oportunismo quando o calendário eleitoral se aproximou. E, mesmo fora, continua dentro, prometendo os votos necessários para a pauta do partido.

O partido foi – em média – o mais fiel a Temer, com 83,5% dos votos favoráveis, seguido pelo DEM, com 80,7%, e pelo próprio MDB do presidente, com 78,9% segundo levantamento da Folha de S.Paulo. 

Apesar de não conseguir passar as mudanças da Previdência Social, o "Intruso de Tietê" conseguiu aprovar outras reformas demandadas pelos tucanos, como a PEC do Teto dos Gastos (que congela investimentos em áreas como saúde e educação pelos próximos 20 anos), a Lei da Terceirização Ampla e a Reforma Trabalhista. Todas não estavam listadas no programa de governo da chapa eleitoral do qual participou em 2014. Ou seja, foram apresentadas e aprovadas sem que houvesse o endosso dos eleitores. Mais um estelionato eleitoral – ou, em português coloquial, mais um engana-trouxa, no caso, nós.

Com a corda no pescoço da Lava Jato, Michel Temer dependia do apoio do PSDB e do empresariado que o partido representa para chegar e permanecer no poder. Sabia que sua melhor chance era mostrar-se capaz de entregar essas encomendas corporativas, uma vez que não havia consenso quanto a uma outra pessoa que pudesse o substitui-lo para executar a tarefa no curto prazo.

Por fim, um comentário: o ex-governador afirmou que "Quem perdeu, já perdeu; quem ganhou só daqui a quatro anos, vamos ajudar o Brasil".

Por que ele não disse isso a Aécio Neves, que não aceitou o resultado das eleições de 2014 só para "encher o saco" do PT, é um mistério.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.