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Sabe o que vai mudar na eleição de outubro se o Brasil ganhar a Copa? Nada

Leonardo Sakamoto

16/06/2018 18h52

Se eu fosse o canário, ficaria pistola com quem não se esforça para interpretar um texto. Foto: Lucas Figueiredo

Não há uma relação direta entre a manutenção do grupo no poder e quem ganha a Copa do Mundo de futebol masculino desde o momento em que, após a redemocratização, os anos do torneio passaram a coincidir com os do pleito.

Em 1994, levamos a Copa e o ex-ministro da economia do governo foi eleito presidente.

Em 1998, perdemos, mas Fernando Henrique foi reeleito.

Em 2002, ganhamos e o governo anterior não fez seu sucessor e Lula chegou ao poder.

Em 2006, perdemos, mas Lula foi reeleito.

Em 2010, perdemos e Dilma manteve o PT no poder.

Em 2014, perdemos por uma acachapante 7 a 1 e Dilma foi reeleita.

Pode-se discutir 1994, 2002 e, agora, 2018 sob a ótica do sentimento de mudança, claro. Muita gente pesquisa sobre o tema, há muito tempo, mas não se chegou a um consenso. E não há um resultado único para essas análises.

A verdade é que a economia segue explicando muito mais o comportamento eleitoral e o humor político do país do que o futebol ou mesmo denúncias de corrupção contra um governo.

Se a economia estivesse bem, FHC teria feito seu sucessor.

Se o emprego não estivesse em viés de alta, o Mensalão poderia ter abatido a reeleição de Lula em 2006.

Se o desemprego não atingisse cerca de 13%, mas 6%, a lembrança dos anos Lula não seria suficiente para que uma parte da população o colocasse no primeiro lugar disparado nas intenções de voto. E desconsiderasse a Lava Jato e o fato dele ter sido condenado e preso.

Como a História não aceita o condicional "se", nunca saberemos.

Um título em uma Copa do Mundo influencia menos no estado de espírito individual do que a obtenção de um emprego, entrar em uma boa faculdade pública ou conseguir um tratamento médico sem longas filas no sistema público de saúde. Ou, melhor: a percepção futura de que isso vá acontecer ou que a situação vá ser melhor.

O povo é pragmático e sabe calcular o que é melhor para sua vida, ponderando os prós e os contras. Boa parte das pessoas sabe o que é "pão e circo" e o que influencia realmente em sua vida. Apesar de muita gente dizer que ele vota "errado" e é incapaz de decidir por si.

Por fim, há quem diga que torcer para o Brasil nessa Copa é irresponsabilidade diante da situação política do país. Particularmente, acho isso uma tremenda bobagem. Primeiro, a vida já é dura demais para não termos um descanso. Além disso, quando será o momento de comemorar? No dia da revolução? No dia do meteoro?

As coisas têm os significados que construímos para elas, inclusive as festas. Essa construção pode ficar na mão de narradores de futebol, jornalistas, economistas, padres, pastores e políticos em geral. Ou ser feita de forma coletiva, por todos nós.

A menos que nos vejamos como gado. Mas gado não joga bola.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.