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Temer tira recursos da Educação em nome da Segurança. Ache o erro da frase

Leonardo Sakamoto

21/06/2018 03h39

Michel Temer participa da abertura da Expozebu. Foto: Joel Silva/Folhapress

O governo Temer vai retirar quase R$ 1 bilhão da educação para financiar a área de segurança pública. Mais especificamente do financiamento estudantil para o ensino superior (Fies). O que é uma bobagem.

Bora desenhar:

1) O objetivo da segurança pública é prevenir e combater a violência.

2) Entre as causas da violência estão a falta de perspectivas e de oportunidades entre os jovens, aliada a uma gigantesca vulnerabilidade social e uma desigualdade crônica na efetivação de direitos.

3) A educação é reconhecida como um dos principais instrumentos para trazer perspectivas e oportunidades aos jovens, reduzir a vulnerabilidade social e tornar menos grosseira a desigualdade na efetivação de direitos.

Ou seja, a qualidade da segurança pública de um país está diretamente relacionada à da educação que oferece à população. Quanto mais você gasta em educação, menos precisará gastar em segurança pública. Como previu o antropólogo, escritor, educador e político Darcy Ribeiro, na década de 80, se não construirmos escolas, em 20 anos, faltará dinheiro para construir presídios.

Apesar dessa relação estar largamente comprovada a ponto de nortear as políticas de segurança pública de uma série de democracias, parece que o governo Temer quer coloca-la à prova.

E não apenas vai pagar para ver, mas dobrou a aposta. Os cortes, que reduzem consideravelmente recursos oriundos das loterias federais para a educação, também vão atingir os ministérios da Cultura e do Esporte e o apoio a instituições como a Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais).

A promoção da cultura e do esporte entre jovens e crianças também é fundamental para reduzir sua vulnerabilidade e, portanto, para melhorar a segurança.

Reportagem de Angela Boldrini, da Folha de S.Paulo, desta quinta (21), mostra que ao invés de destinar uma parte da arrecadação dos recursos de loterias, o governo vai destinar apenas o valor dos prêmios que não forem buscados pelos ganhadores e caducarem. Se isso estivesse valendo no ano passado, a diferença teria sido de quase um bilhão.

O financiamento público do ensino superior beneficia, principalmente, os filhos das famílias mais pobres – uma vez que os filhos das mais ricas tendem a ficar com as melhores vagas das universidade públicas porque tiveram recursos para se prepararem para o Enem e os vestibulares.

Tudo isso ajuda a explicar por que 62% dos jovens, entre 16 e 24 anos, desejam se mudar para outro lugar, segundo pesquisa Datafolha, divulgada neste domingo (17). Muitos desistiram do país por que o país desistiu deles muito antes.

Claro que é importante conseguir recursos para garantir estrutura, remuneração, formação às forças de segurança e investir em inteligência do sistema. Mas não tirar dessas áreas, nunca dessas áreas.

O bom de ser um governo com 3% de aprovação e 82% de desaprovação (novamente, Datafolha) em reta final de mandato é que você não precisa se preocupar em tentar explicar sua lógica para a sociedade. Principalmente quando sua lógica fere a lógica.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.