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Datena pode ser a "novidade" da eleição e roubar votos de Bolsonaro

Leonardo Sakamoto

28/06/2018 03h02

Ele pode até dizer que não quer. Mas a pré-candidatura de José Luiz Datena (DEM-SP), um dos rostos mais conhecidos do país, ao Senado Federal nasce com um potencial de "Plano B". Ou, ao menos, uma espécie de elixir "levanta-defunto" para chapas presidenciais.

Apesar de ter afirmado que ainda não é capacitado para ser um gestor público e se colocar ao centro no espectro político, diante de um quadro de indefinição crônica na centro-direita e direita, Datena pode ser cortejado para outros voos. Por exemplo, se as intenções de voto em Geraldo Alckmin seguirem modorrentas até agosto, emprestar sua credibilidade ao candidato do PSDB, compondo com ele.

João Doria, pré-candidato ao governo paulista, segue sonhando com o lugar do padrinho. Ele nega, mas os tucanos, na surdina ou nem tanto, confirmam. O problema é que, apesar dele ter muito dinheiro para o autofinanciamento de uma campanha tanto ao Palácio dos Bandeirantes quanto ao Palácio do Planalto, Doria também não apresenta desempenho melhor que o de Alckmin segundo as pesquisas de opinião. Parte dos paulistanos segue com farinata entalada na goela.

Não é apenas em São Paulo que o apresentador de TV e rádio é lembrado. Uma história exemplifica: tempos atrás, debati em um boteco, em Açailândia, na Amazônia maranhense, a violência na capital paulista. Quando perguntei aos meus interlocutores como conheciam aquelas histórias sem nunca terem vindo para cá, apontaram para a TV ligada, com Datena.

Graças às antenas parabólicas, ele é conhecido no interior do Nordeste, enclave do PT – partido ao qual foi filiado, aliás, por mais de uma década. Muitos de seus telespectadores acreditam que Datena conhece o caminho para melhorar a segurança pública.

Ele já declarou que nenhum dos pré-candidatos que estão aí o anima. Mas se resolvesse participar de alguma forma, como apoiador ou na chapa presidencial, roubaria votos de Jair Bolsonaro (PSL-RJ). Datena é mais inteligente e preparado que o deputado federal e, há anos, também é reconhecido pela pauta da segurança.

Lembrando que segurança pública e geração de emprego serão as duas principais demandas do povão nas eleições. Com mais de 13 milhões de desempregados e mais de 62 mil mortes violentas todos os anos, corrupção só será o tema central para uma parcela das classes média e alta.

Podemos discordar das opiniões e posicionamentos de Datena, mas se decidir ir além de tentar o Senado, talvez assuma o papel da esperada "novidade na política" nessas eleições.

Por enquanto, apesar do potencial, Alckmin interditou as sondagens nesse sentido. Imagino que, a depender de suas intenções de voto em agosto, o ex-governador receie deixar de ser protagonista de uma chapa com o apresentador para se tornar um coadjuvante.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Leonardo Sakamoto