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Leonardo Sakamoto

Na xepa do governo Temer, o Congresso liquida o que sobrou da República

Leonardo Sakamoto

13/07/2018 04h36

Michel Temer e Rodrigo Maia. Foto: Givaldo Barbosa/Agência o Globo

Está chegando a hora da xepa do governo Michel Temer. E, como era de se esperar, o Congresso Nacional – a maior feira livre do país – está liquidando o que sobrou da República.

Digo o que sobrou por que, convenhamos, a profusão de projetos arrombadores de orçamento e destruidores da dignidade e da moralidade que estão circulando na praça são apenas a consequência lógica do que foram os últimos dois anos.

Para um país que aprovou uma Reforma Trabalhista que permite gestantes e lactantes em trabalhos insalubres e dá a empresas o poder de exigir contratos de exclusividade com trabalhadores autônomos, propostas como a que facilita a liberação de agrotóxicos ou a que libera a contratação de parentes de parlamentares em estatais até que fazem sentido.

Afinal, é tudo passada de mão na bunda alheia sem autorização.

E o que é uma conta de quase R$ 70 bilhões em novos gastos a ser paga pelo próximo governo diante de um presidente da República que torrou bilhões na compra de votos de deputados, necessários para livrar seu excelentíssimo pescoço da guilhotina de duas denúncias criminais apresentadas pela Procuradoria-Geral da República.

Perdões de dívidas de grandes empresas e de ruralistas foram concedidos no Congresso para tanto e até a liberdade de trabalhadores escravizados acabou na mesa de negociação. A equipe de Temer chegou a montar um balcão no plenário da Câmara dos Deputados para atender às demandas.

O governo parece cada vez mais disfuncional ao caminhar em direção ao final do ano. Só parece, pois – na verdade – segue em forma, cumprindo os papéis aos quais foi incumbido. Pelo lado da velha política, garantir a ela e seus representados acesso aos recursos públicos de forma rápida e fácil. E, pelo lado do poder econômico, reduzir a regulamentação do trabalho e o peso dos direitos sociais no orçamento. Ou seja, agora, é vender o estoque, assinar uns papagaios e passar o ponto.

E, no Congresso, segue o cada um por si e o Fundo Partidário por todos.

Grande parte da sociedade até fica indignada, mas não acredita mais em seu país. Outra parte grita e ninguém ouve. Tem os que passam todo o tempo discutindo se o nazismo é de direita ou de esquerda. Há aqueles que não sabem o que está acontecendo e acham que tudo é uma luta contra a venezuelização bolivariana do mundo. E uma minoria da minoria da minoria, rica pacas, enche os bolsos com o sequestro do Executivo pelo Legislativo e a compra do Legislativo pelo Executivo.

Respirem fundo. A próxima legislatura poderá ser pior. E o governo pode operar o milagre de nos fazer sentir saudade deste.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.