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A paranoia anticomunista encobre as reais ameaças autoritárias da eleição

Leonardo Sakamoto

21/09/2018 10h43

Capa da revista inglesa "The Economist" diz que Bolsonaro é "a última ameaça da América Latina"

Quando um grupo de brasileiros tentou convencer a Embaixada da Alemanha que o nazismo era um movimento de esquerda e não de extrema-direita, eu senti mais vergonha do que no 7 a 1. A situação piorou quando, diante das negativas do governo alemão em aceitar a revolucionária interpretação, houve quem acusasse a embaixada de ser comunista.

Agora, outro bando (que, aliás, periga não ser outro, mas o mesmo) está chamando a The Economist – revista com 175 anos de existência, que é referência global para os defensores do livre mercado – de comunista. Acusam-na de ser um panfleto que faz o jogo da esquerda. O motivo? A capa de sua última edição chama Jair Bolsonaro de ameaça para o Brasil e a América Latina.

E, se duvidar, foram as mesmas pessoas que, no final da greve dos caminhoneiros, tentaram sequestrar o movimento exigindo um golpe militar. Ao perceberem que o comando das Forças Armadas achava a ideia estapafúrdia, chamaram os comandantes do que? De comunistas.

Estou em algumas listas em que muitos se manifestam diariamente o seu medo do comunismo ser implementado no Brasil com a vitória de uma candidatura identificada com a esquerda. A paranoia é alimentada por notícias falsas e postagens incitando a ultrapolarização (vindas dos dois lados), sem falar de candidaturas que, a cada cinco minutos, alertam para o risco do Brasil virar uma Venezuela – se elas não ganharem, claro.

Ouviram de seus mentores que comunismo é uma ideologia que mata milhões, formado por vagabundos que não gostavam de trabalhar e ajudava a perverter sexualmente as pessoas de bem, principalmente as crianças, e a destruir as famílias. Mentores que querem provocar um medo genuíno contra um fantasma distante de nossa realidade, anabolizar um inimigo invisível e, na oposição a ele, impor sua pauta. Não é o objetivo deste texto defender ou atacar essa ideologia, mas certamente isso não resume sua definição.

O fato é que, diante do esvaziamento de seu conteúdo e sua associação forçada com tudo o que há de ruim, a palavra e suas variações acabaram virando uma espécie de palavrão. Chamar alguém de comunista virou uma ofensa grave para um grupo de pessoas.

Despido de seu significado original, na verdade, foi além e tornou-se um elemento de identificação de grupo. Ou seja, uma postagem chamando a Economist de comunista por criticar Bolsonaro, imediatamente congrega um grupo grande de pessoas que entendem e concordam com aquilo porque dividem ou querem dividir do mesmo universo simbólico. Mesmo que aquilo, no fundo, não faça sentido algum.

Vez ou outra sou chamado de comunista na rua por pessoas muito simpáticas. Acho divertido, enquanto meus amigos comunistas consideram isso uma afronta. Dizem que, no máximo, sou social-democrata (o modelo europeu, não a versão que degringolou por aqui).

Ao ser parado por um desses cidadãos, perguntei a ele o que era comunismo. A cada vez que bradava os lugares-comuns equivocados de sempre, eu fazia, com muita calma, novo questionamento. Afinal, aceitaria o rótulo se ele me explicasse por que sou comunista. Foram quatro sessões de xingamentos intercalados com coisas como "porque você não tem Jesus no seu coração" ou "porque você não respeita o Exército".

O que foi feito com aquele ser humano, que é um caso extremo, é muita sacanagem. Ao longo do tempo, depositaram continuamente bobagens e ódio, que ocupou todo o lugar que poderia ser destinado à sua capacidade de raciocínio sobre o mundo. Terceirizou a capacidade de reflexão a quem, provavelmente, sabe muito bem o que é comunismo. E que usa esse medo para empurrar a sociedade na direção de um autoritarismo conservador como resposta a uma suposta "ameaça vermelha".

Tornou-se, dessa forma, uma alegoria, não um indivíduo.

Era possível identificar nele um medo muito grande. Provavelmente, abraçou um discurso que lhe dava respostas – ainda que rasas – diante da dolorida incerteza do mundo que o cercava. Ou seja, preencheu as lacunas à sua frente, que lhe davam insegurança, com respostas – mesmo que elas não se sustentassem diante de quatro perguntas de um desconhecido na rua.

Bloquear amigos como ele nas redes sociais, fechando-os num grupo que vê comunista escondido na tigela de granola de manhã e tirando a possibilidade de contato com quem pensa diferente, apenas derruba as pontes que – mais cedo ou mais tarde – terão que ser reconstruídas se quisermos superar a situação de ultrapolarização e de desumanização do outro em que nos encontramos.

A verdade é que estamos mais próximos de copiar o erro das Filipinas do que os erros da Venezuela, mais próximos de ver implementado um governo autoritário de direita do que de esquerda. O mercado pode ficar tranquilo que vai continuar ganhando bem mais do que os trabalhadores se vencer qualquer um dos candidatos da centro-esquerda/esquerda que estão melhor colocados nas pesquisas. Nenhuma dessas candidaturas é antissistêmica, não há espaço para tanto nessas eleições. Com isso, a elite brasileira continuará privilegiada pelo Estado em detrimento aos mais pobres, com a desigualdade violenta que nos é peculiar.

Hoje o palavrão é "comunismo". Amanhã, quem sabe, será "democracia".

Autoritarismo vermelho? Ditadura comunista? Bobagem. Fantasmas não machucam ninguém. Não seria melhor nos preocuparmos com as ameaças de verdade? Aquelas que querem armar as pessoas e reduzir direitos, por exemplo?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.