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Leonardo Sakamoto

Ao dizer que não aceita derrota, Bolsonaro põe democracia no pau de arara

Leonardo Sakamoto

28/09/2018 21h10

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

"Pelo que vejo nas ruas, não aceito resultado diferente da minha eleição." A frase é de Jair Bolsonaro, em entrevista ao programa Brasil Urgente, da TV Bandeirantes, nesta sexta (28). "Se você ver como eu sou tratado na rua e como os outros são tratados, você não vai acreditar. A diferença é enorme."

Com isso, soa inocente a declaração do presidente do Supremo Tribunal Federal, José Dias Toffoli, que, no dia 24, afirmou que "qualquer que seja o resultado [das urnas], será respeitado".

O candidato não pode estar tão descolado da realidade que acredite que a sociedade brasileira se resume aos fãs e apoiadores que encontra nas ruas ou a seus seguidores nas redes sociais e nos aplicativos de mensagens, mesmo que sejam milhões.

Ou estar mergulhado em paranoia a ponto de desconfiar de todas as pesquisas que apontam as intenções de voto.

O discurso de Bolsonaro tampouco é voltado a incendiar a militância após sua longa internação hospitalar por conta do odioso atentado que sofreu e diante das revelações trazidas pela imprensa sobre seu patrimônio e das declarações catastróficas do candidato a vice em sua chapa.

Também não visa a plantar uma justificativa para caso de uma derrota.

A declaração deve ser encarada como o que ela é de fato: um ultimato à democracia.

Pois, do seu ponto de vista, não há uma Presidência da República em disputa nas eleições, apenas um ritual para confirmá-lo como próximo mandatário no dia 7 de outubro. Ao dizer que qualquer outro resultado será "fraude", via urna eletrônica, ele joga fora a legitimidade do voto popular e põe em risco a estabilidade do país.

Já teremos muita dificuldade para evitar grandes comoções do lado derrotado, seja ele qual for, após o resultado ser confirmado dada a ultrapolarização em que nos encontramos. Ultrapolarização que nos impede de ouvirmos uns aos outros e faz com que seja tachada como mentira tudo aquilo que vai contra a visão de mundo das pessoas.

Nessa toada, Bolsonaro também deixou uma ameaça sobre a mesa na entrevista, afirmando que as Forças Armadas não tomariam a iniciativa de contestar o resultado, mas que não tolerariam erros do PT caso Fernando Haddad vença. "O que vejo nas instituições militares é que não tomariam iniciativa. Mas na primeira falta, poderia acontecer [uma reação] com o PT errando, sim. Nós, das Forças Armadas, somos avalistas da Constituição. Não existe democracia sem Forças Armadas."

O general Hamilton Mourão, seu companheiro de chapa, afirmou, no ano passado, que "companheiros do Alto Comando do Exército" entendem que uma "intervenção militar" poderá ser adotada se o Judiciário "não solucionar o problema político" [referindo-se à corrupção]. E que os militares terão que "impor isso" e essa "imposição não será fácil". E que ainda não é o momento, mas uma ação poderá ocorrer após "aproximações sucessivas". E que o Exército teria "planejamentos muito bem feitos" sobre o assunto. Era sobre o governo Michel Temer, mas o que impede dos "planejamentos muito bem feitos" serem recauchutados?

Na verdade, não existe democracia com Forças Armadas passando por cima do poder civil eleito, mas isso parece ser um detalhe para essa chapa eleitoral.

A tática de torturar a realidade até que ela grite o que se quer ouvir se assemelha às usadas pelo coronel Brilhante Ustra, o finado torturador-açougueiro da ditadura, autor do livro que repousa, segundo o próprio Bolsonaro, em sua cabeceira. A legitimidade de ocupar a Presidência da República virá do voto, não do grito. A República tem a obrigação de, diante desses disparates, deixar isso claro a ele e a sua militância.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.