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Bolsonaro fomenta paranoia e até extrema-direita francesa vira "comunista"

Leonardo Sakamoto

12/10/2018 05h51

Graças à sabedoria que circula na redes sociais, descobrimos – nestas eleições – que a cantora Madonna, a revista Economist, as Nações Unidas, o jornal New York Times, a Rede Globo, o Facebook, o cantor e compositor Roger Waters, o filósofo e economista conservador Francis Fukuyama e a deputada de extrema-direita Marine Le Pen são comunistas. Particularmente, eu achava que a Madonna era mais anarcossindicalista, mas o resto nunca me enganou.

Há uma estranha reação de parte dos seguidores de Jair Bolsonaro, que é tachar qualquer pessoa que faz críticas a ele de comunista. De um filósofo conservador norte-americano a uma política de extrema-direita francesa, da bíblia do capitalismo a uma das maiores empresas do mundo, todos são comunistas e, portanto, defenderiam a propriedade comum dos meios de produção, Cuba e Venezuela.

Aliás, recentemente, brasileiros chamaram a Embaixada da Alemanha de comunista por ela ter postado um vídeo explicando que o nazismo é um movimento de extrema-direita e não de esquerda. Na verdade, nossos conterrâneos foram além na vergonha-alheia, tentando explicar aos alemães que eles não entendiam muito bem do tema. Arrogância que se repete com frequência, como ao tentarem explicar a Roger Waters, fundador do Pink Floyd, que ele não entende muito bem Another Brick in the Wall, sua própria música.

É claro que muitos que "xingam" pessoas ou instituições de comunistas não compreendem o que isso, de fato, significa – o que nos leva a lamentar que falhamos retumbantemente na educação do país. Caso as pessoas soubessem história e um mínimo do que se passa à sua volta, entendendo o que foi o comunismo ao redor do mundo, poderiam criticar de forma embasada – e há mais críticas do que elogios a serem feitos. Porém, o que vemos é uma mistura de inocência, ignorância, paranoia e má fé, transformando a palavra em um palavrão.

Isso quando não enfiam a ditadura venezuelana ou a norte-coreana no meio para fazer volume.

Há um esvaziamento do sentido original da palavra. Não raro, muitos que chamam alguém de comunista, queriam alcunhá-lo de corrupto, ladrão, despudorado, assassino, ateu, invasor de propriedade. Em suma, o inimigo externo, aquele que vem de fora para destruir nossas tradições e nosso modo de vida. Praticamente, uma ação reativa diante desse mundo grande e desconhecido.

Despida de seu significado original, a palavra também se tornou um elemento de identificação. Ou seja, uma postagem chamando a Economist, a tal bíblia capitalista, de comunista, imediatamente passa uma mensagem compreendida pelos demais membros do grupo, gerando conexão. De que aquilo é ruim, de que não deve ser consumido, de que deve ser combatido.

Quando uma candidatura, como a de Jair Bolsonaro, escolhe chamar atenção à "ameaça comunista" que seria representada por seu adversário, o mais tucano dos petistas, primeiro na internet, depois na propaganda eleitoral no rádio e na TV, alimenta mais ainda a paranoia de que há risco do comunismo ser implantado no Brasil ou "virarmos uma Venezuela ou uma Cuba". Sendo que, convenhamos, é mais fácil nos tornarmos uma ditadura de extrema-direita.

Isso faz com que voltemos 50 anos no tempo, para um mundo polarizado, com autointitulados mocinhos e intitulados bandidos, em que essa "ameaça vermelha" era usada como justificativa para torturar, matar e tolher a liberdade e a democracia por aqui.

Uma pena porque essa pode ser a sua zona de conforto. Mas certamente não é a de muita gente.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.