Blog do Sakamoto

Fãs de Bolsonaro estão linchando jornalistas. Quando chegará a sua vez?

Leonardo Sakamoto

À medida em que avançamos em direção ao dia 28 de outubro, parte dos apoiadores de Jair Bolsonaro passou a atacar qualquer jornalista que traga notícia, análise ou opinião crítica sobre seu candidato. Atiçadas por formadores de opinião simpáticos a ele,  que postam declarações grávidas de ódio, campanhas de difamação nas redes sociais e grupos de WhatsApp têm nos dado uma mostra do que pode ser a barbárie contra os profissionais de imprensa a partir do ano que vem.

O caso dos ataques contra a repórter Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, que mostrou a contratação por empresas do disparo de milhões de mensagens de WhatsApp que beneficiariam a campanha do deputado do PSL, nesta quinta (18), é um exemplo. Mas nem é possível dizer que foi o último, uma vez que, no dia seguinte, Ricardo Galhardo, do Estado de S.Paulo, foi vítima de Luciano Hang, proprietário da Havan, que divulgou o número do celular do repórter a seus seguidores após ter sido procurado para dar sua posição sobre um desdobramento do caso da Folha.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), que lançou notas repudiando ambas situações, registra 141 casos de ataques, ameaças e agressões a comunicadores por conta das eleições deste ano. A grande maioria envolvendo apoiadores do deputado do PSL. A violência contra jornalistas nunca foi monopólio de bolsonaristas, como mostram os registros de agressões de petistas, como na manifestação que antecedeu a prisão de Lula. Mas parece que eles estão se esforçando para que seja. E as críticas de seu candidato à imprensa e seu silêncio diante dos ataques empodera ainda mais as hordas.

Políticos não são ingênuos, sabem o tamanho de sua caixa de ressonância, o fanatismo de alguns de seus seguidores, que agem como torcida organizada, e o gigantismo de redes simpáticas a eles ou por eles controladas. E, ao ter consciência disso e não agir para evitar os ataques, tornam-se cúmplices das consequências de seus atos.

Políticos dizem não incitar a violência com suas palavras. Por vezes, não são eles que atacam, mas é a sobreposição de seus discursos ao longo do tempo que distorce o mundo e torna a agressão banal. Ou, melhor dizendo, “necessária'' para tirar o país do caos e levá-lo à ordem. Acabam por alimentar a intolerância, que depois será consumida por fãs malucos ou seguidores inconsequentes que fazem o serviço sujo.

Você pode não gostar da cobertura de determinados jornais, revistas, sites, canais de rádio e de TV, do posicionamento de colunistas e blogueiros e discordar profundamente da pauta conduzida por um repórter. Mas o respeito aos jornalistas, sejam eles de veículos tradicionais ou alternativos, mídia grande ou pequena, liberal ou conservadora, segue sendo um dos pilares da democracia. Sem uma imprensa livre, o poder políticos e econômico estaria bem à vontade para ser mais tosco do que já é.

O direito ao livre exercício de pensamento e à liberdade de expressão são garantidos pela Constituição Federal e pelos tratados internacionais que o país assinou. Mas liberdade de expressão não é direito fundamental absoluto. A partir do momento em que alguém abusa de sua liberdade, espalhando o ódio e incitando à violência, isso pode trazer graves consequências à vida de outras pessoas. Caso veja erro ou má fé em um conteúdo publicado por uma empresa jornalística, um político deveria buscar, junto ao veículo de comunicação, seu direito de resposta. E se isso for insuficiente, procurar na Justiça a reparação. E não incentivar sua matilha a assumir o papel que seria de instituições democrática.

A liberdade de expressão não admite censura prévia. Ou seja, apesar de alguns juízes não entenderem isso e darem sentenças aqui e ali para calar de antemão biografias, reportagens, propagandas, a lei garante que as pessoas não sejam proibidas de dizer o que pensam. Mas isso não significa que não devam ser responsabilizados quando suas palavras levarem a consequências graves na vida de outras pessoas. O silêncio das instituições do Estado que deveriam garantir a imprensa livre também assusta. O sentimento é de que não se importam.

Enquanto isso, parte dos veículos de comunicação rifa seus próprios profissionais seja por razões políticas, ideológicas e religiosas ou pela simples conveniência de preservar anunciantes governamentais e empresariais no futuro. Temos lido até editoriais que defendem o ódio que acaba por atacar seus próprios jornalistas.

Pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta (19) mostra que questionados sobre a frase ''O governo deve ter o direito de censurar jornais, rádios e TV'', 72% discordam (61% totalmente e 11% em parte), 23% concordam com ela (13% totalmente e 10% em parte), 1% não concorda e nem discorda e 4% não opinaram. Em 2014, a taxa dos que discordam diminuiu oito pontos (era 80%) e a taxa dos que concordam cresceu 10 pontos (era 13%). Os que desgostam da imprensa livre ainda são minoria, mas eles vêm crescendo.

Os ataques a jornalistas não se resumem a enxurradas de críticas, o que faria parte do debate público. Invade a vida privada dos profissionais, distorcendo fatos, expondo dados pessoais, ameaçando filhos e pais. A perseguição é sempre mais violenta quando o alvo são mulheres, quando o ataque também ganha cunho sexual. Por vezes, transborda a rede e vai para a rua, para o restaurante, para a porta da casa. O processo de ataque aos jornalistas se assemelha à tortura – instrumento de trabalho do açougueiro Brilhante Ustra, assassino da ditadura militar, apontado como herói por Bolsonaro. Não para que o jornalista em questão seja punido pelo que fez, mas para que, traumatizado, nunca mais tenha coragem de tratar do candidato novamente.

Caberá à sociedade decidir se quer uma imprensa livre, mesmo que discorde dela, e sair em sua defesa. Ou está satisfeita com a proposta colocada à mesa nestas eleições: substituir a pluralidade e o contraditório por mensagens falsas postadas em grupos de WhatsApp que confirmam nossa visão de mundo.

Vale o alerta: jornalistas, não raro, são os primeiros a serem perseguidos e calados. Mas nunca são os únicos.