PUBLICIDADE
Topo

Histórico

Categorias

"Brasil: ame-o ou deixe-o" pode ter sido extrema unção de nossa democracia

Leonardo Sakamoto

24/10/2018 14h54

Indígena tenta impedir reintegração de posse no Amazonas. Foto vencedora do Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos, categoria Fotografia – Luiz Gonzaga Alves de Vasconcelos, Jornal A Crítica (2008).

De esquerda? É comunista.
Comunista? É do PT.
Do PT? É bandido.
Bandido? Bora linchar!
Foi linchado? Era vagabundo.
Vagabundo? Ora, sem-teto!
Sem-teto? Igual sem-terra.
Sem-terra? É preguiçoso.
Preguiçoso? Um maconheiro.
Usa maconha? Deve fumarm crack.
Fuma crack? É um lixo.
Quem é lixo? Os "mendigos"
E os "mendigos"? Não trabalham.
Não trabalha? Coisa de índio.
Se é  índio? Não saia da floresta.
E a floresta? Bora desmatar.
Desmatamento? Sinal de progresso.
Progresso?

Progresso é um corpo de um jovem negro e pobre da periferia estendido no chão para garantir a tranquilidade dos "homens de bem".

"Homem de bem"? Casa com "mulher honesta"
"Mulher honesta"? Não anda sozinha.
Sozinha na balada? Por certo, quer sexo.
Não queria sexo? Feminazi.
Feministas? São contra a família.
Fim da família? É a "ideologia de gênero"!
"Ideologia de gênero"? Ensinar a ser gay.
Gays? São abominações para Deus.
Não crê em Deus? É do mal.

E o mal precisa ser limpo, varrido e banido para o bem da sociedade.

O que é sociedade? Somos nós.
Se está contra nós? Não é patriota.
Não é patriota? É um inimigo do país.
Não ama o país? Então, deixe-o.

Venho criticando o pensamento binário – que reduz a complexidade do comportamento humano e comete grandes injustiças – neste espaço há tempos. Por conta das declarações de Jair Bolsonaro, no último domingo (21), que ressuscitaram indiretamente um dos slogans usados na ditadura ("Brasil: ame-o ou deixe-o"), ao tratar de críticos ao seu provável governo, decidi atualizar essa discussão.

Há várias formas de amar o Brasil, mas o que esse slogan e sua atualização – que diz respeito a limpar, varrer e banir opositores, que devem obedecer sob risco de prisão ou exílio – trata é daqueles que se negam a "amar" o país de um jeito pré-determinado pelo grupo no poder.

Nutro uma certa inveja por pessoas que demonstram um pensamento binomial. Para eles, a vida é tão simples! É A ou Z – e só. Não existe outra coisa entre um polo e outro, nenhuma área cinzenta, nenhuma dúvida, nada. Enfim, para elas o mundo não é complexo – os "enganadores" é que tentam turvar aquilo que é certo, confundindo os "homens e mulheres de bem" ou os "revolucionários".

Daí, para a vida fazer sentido, dizem que todos têm que abraçar uma ideia e simplificar o mundo ao máximo. Quem não faz isso, é taxado de aberração por não se enquadrar nas caixinhas pré-escolhidas. Para essas pessoas, se você não é hétero é homo. Se defende políticas para os mais pobres, não pode ter um smartphone. Ou apoia a campanha de terra arrasada do governo contra as drogas ou é um usuário de crack que rouba a mãe pelo vício. Acha que um partido político representa toda a maldade no mundo ou acredita que da boca de seus líderes fluam rios de leite e mel.

Você pode criticar a atuação da polícia militar em operações realizadas em comunidades pobres, denunciar o envolvimento de policiais em chacinas e milícias e afirmar que sua formação precisa ser alterada e sua estrutura desmilitarizada. E isso não significa que está defendendo o assassinato de trabalhadores da segurança pública, nem que acredita que a polícia não deva existir, nem que quer bandidos impunes.

Você pode afirmar que houve avanços em áreas como educação e saúde em Cuba e, ao mesmo tempo, reconhecer a violência bizarra com a qual o regime trata seus opositores ou a falta de liberdade de expressão na ilha. Da mesma forma, você pode ser crítico a uma parte da elite venezuelana e seu comportamento golpista e, ao mesmo tempo, afirmar que o governo de Maduro é autoritário, antidemocrático e ditatorial. Você pode adorar muita coisa nos Estados Unidos, da música à produção intelectual, passando pelas pessoas e cidades, e repudiar políticas de seu governo, seu presidente e a ideologia de parte de sua elite econômica.

Você pode achar um absurdo a pornográfica concentração de riqueza no Brasil e dizer que a desigualdade social é um problema tão grave quanto a pobreza porque constrói a percepção de que há cidadãos de primeira classe, com direitos, e de segunda, com deveres, e ao – mesmo tempo – não ser comunista, nem lutar pelo fim da democracia liberal.

Você pode afirmar que há excessos, injustiças e sinais de partidarismo em operações de combate à corrupção sem considerar que caixa 2 é normal e defender a Lava Jato, afirmando que os partidos envolvidos cometeram crimes e os envolvidos merecem ser punidos.

Você pode. Mas talvez não faça isso.

Porque talvez não consiga sentir empatia por quem pense diferente, tenha outra cor de pele ou uma orientação sexual que não é igual à sua. Porque acha que todo adversário é um inimigo. Porque acredita que mais importante que construir pontes é executar vinganças. Porque chama de "verdade" apenas aquilo com o qual já concorde e de "mentira" tudo que discorde. E, com base nisso, crie sua noção de "bem" e de "mal", excluindo-se sempre deste último, e elegendo "heróis" e "vilões". E vai à guerra, que considera santa, para matar ou morrer por eles.

Discordo visceralmente de muitos textos que leio, mas nem por isso acho que eles não tenham o direito de vir a público (a menos que tenham sido produzidas para incitar a violência, principalmente contra minorias). Pelo contrário, discordo, mas defendo o direito de que seja dito. A saída para contrapor uma voz não é o silêncio, mas sim outra voz.

Muitos simplesmente repetem mantras que leem na internet, ouvem em bares ou veem na igreja e não param para pensar se concordam ou não realmente com aquilo. É um Fla-Flu, um nós contra eles cego, que utiliza técnica de desumanização, tornando esse outro uma coisa sem sentimentos. Isso é muito útil durante eleições polarizadas, mas péssimo para o dia seguinte.

É mais fácil pensar de forma binária. Mas, assim, a vida vai ficando mais pobre. Sem o direito ao convívio diário com aqueles que pensam de forma diferente, estancamos em nossas posições, paramos de evoluir como humanidade. Do outro lado sempre estará um monstro.

Vamos criando casulos para nós mesmos – afinal, a ignorância é um lugar quentinho. Sem perceber que, mais dia, menos dia, dele brotará não um ser que voará livre carregado pelas asas da razão, mas um monstro que rastejará pesado por ter se empanturrado de ódio, intolerância e preconceito. É triste, mas quando algumas pessoas acordarem, será noite.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Leonardo Sakamoto