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Pacificação do país dependeria de estelionato eleitoral de Bolsonaro

Leonardo Sakamoto

28/10/2018 04h42

Foto: Adriano Machado/Reuters

Caso Jair Bolsonaro confirme seu favoritismo e seja escolhido presidente da República, neste domingo (28), apenas um estelionato eleitoral de grandes proporções irá pacificar o país. Pois se ele colocar em prática exatamente o que prometeu durante a campanha, o Brasil pode encontrar muita coisa, menos paz.

O fim das eleições já demandaria um exaustivo trabalho de redução de animosidades e de sinalização ao lado derrotado, se o eleito colocasse como primeira medida em seu discurso da vitória reduzir a tensão. O problema é que, baseado no que disse até agora, Bolsonaro não parece disposto a trabalhar por isso.

Ele têm voltado atrás quando criticado em assuntos econômicos e políticos, seja em propostas de fusão e extinção de ministérios, mudanças em acordos internacionais, relações a serem estabelecidas com parceiros comerciais ou na de composição de sua base de governo. O mesmo não tem acontecido, contudo, nas questões sociais e de direitos, onde encontra-se a parte mais violenta de seu discurso. Dizer que há uma divisão do país entre "brancos e negros" e a culpa é do PT para, logo na sequência, chamar a política de ações afirmativas de "coitadismo" mostra que ele não evoluiu nesse sentido.

No último domingo, Bolsonaro prometeu "uma limpeza nunca vista na história desse Brasil" após eleito. "Vamos varrer do mapa esses bandidos vermelhos do Brasil", afirmou. "Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão para fora ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria." Em suma, varrer, banir, prender ou exilar adversários.

E, nas últimas semanas, não vem demonstrandi indignação à altura das perseguições, agressões e até assassinato cometidos por alguns indivíduos de sua militância. Ele, mais do que ninguém, sentiu na pele o significado da loucura política e do ódio no atentado que sofreu. E como é considerado exemplo e liderança para muita gente, prometendo, repetidas vezes, que iria pacificar o país, poderia ter mudado o discurso, servindo de exemplo para que seus seguidores optassem pelo diálogo ao invés da violência.

Caso Bolsonaro vença, grupos radicais, sentindo-se empoderados pela mudança de governo, vão se sentir à vontade de ir às ruas, atuando como milícias políticas, para monitorar e punir opositores do governo, ativistas dos direitos humanos e jornalistas? Policiais, bombeiros e militares se reunirão para vender "tranquilidade" a moradores e empresários, aumentando o número de milícias mafiosas de segurança?

Ironicamente, quem chama de "exagero" a possibilidade de Bolsonaro colocar em prática a parte mais dura de suas promessas são os mesmos que, meses atrás, tachavam como "exagero" os que apontavam que ele poderia ser o próximo presidente.

Além disso, é espantoso como algumas pessoas afirmam com indescritível certeza que, caso eleito, ele será devidamente controlado – seja pelos freios e contrapesos institucionais (quando as instituições já não estão funcionando perfeitamente), pela força da imprensa e da sociedade civil (quando a imprensa é chamada constantemente de principal produtora de fake news) e pelo mercado (como se o mercado não fosse pragmático).

As pesquisas Ibope (54% a 46%) e Datafolha (55% a 45%), divulgadas neste sábado (27), confirmaram a tendência na redução da diferença entre ambos os candidatos. Essa tendência fez com que Bolsonaro, líder, tomasse mais cuidado com polêmicas na última semana e fizesse acenos a posições mais moderadas. Isso, contudo, não apaga o que prometeu contra a efetivação dos direitos humanos. E ele prometeu muita coisa.

Caso ganhe, será um raro caso em que uma parte significativa do país ficará feliz se, ao afinal, o presidente não conseguir cumprir todas suas promessas.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.