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Rosemyrtha, escrava doméstica aos 6 anos no Haiti, pediu a Deus para morrer

Leonardo Sakamoto

01/12/2018 12h51

Foto: Vlad Sokhin/ Restavek Freedom

"Se me pedissem para lavar a louça e eu não tivesse tempo por causa de outro trabalho que já estivesse fazendo, ela me levava pela orelha e começava a me bater e me chutar. Seus filhos também tinham autorização para abusar de mim e não era incomum que me chutassem. Eu só tinha permissão para brincar quando terminasse com as minhas tarefas, mas isso era raro. Às vezes, terminava, mas nunca era permitido brincar. Várias vezes, quando morei com minha tia, pedi a Deus que eu parasse de respirar porque minha vida era um inferno."

Rosemyrtha Mireille Innocent nasceu no Haiti, onde se tornou vítima de servidão doméstica infantil aos seis anos de idade. Seus pais entregaram-na à sua tia sob a promessa de que ela estudaria e teria uma vida melhor. Mas foi forçada a trabalhar para sete pessoas por três anos, sendo espancada cotidianamente e não podendo estudar, nem brincar. Hoje, mora em um abrigo, com o apoio da organização não-governamental Restavek Freedom, onde está protegida e matriculada na escola. Rosemyrtha, aos 19 anos, quer ser uma liderança para o combate ao trabalho doméstico forçado e outras formas de escravidão.

Ela falou no evento "Por trás das portas fechadas: como identificar e ajudar as vítimas de servidão doméstica", realizado no escritório das Nações Unidas, em Genebra, nesta sexta (30), organizado pelo Fundo da ONU contra Formas Contemporâneas de Escravidão, do qual sou um dos cinco membros do conselho. O painel, que contou com a parceria dos governos da Austrália e da Coreia do Sul e da Anti-Slavery International, é parte das comemorações pelo Dia Internacional para a Abolição da Escravatura, celebrado neste domingo (2). O Fundo ajuda a financiar o trabalho da organização que ajudou Rosemyrtha a deixar a escravidão, entre outros projetos.

As vítimas da servidão doméstica geralmente são expostas a múltiplas violações e abusos, incluindo isolamento físico e social, restrição de liberdade, violência psicológica, física e sexual, intimidação e ameaças, retenção de documentos de identidade pelo empregador, retenção de salários, condições abusivas de trabalho e de vida e jornada exaustiva. Progressos foram feitos em todo o mundo na identificação, cuidado, reabilitação e reintegração das vítimas. No entanto, milhões ainda permanecem presas, com um número cada vez maior de migrantes ou refugiados sendo empurrados para a servidão doméstica.

Apesar da principal forma de escravidão contemporânea que se manifesta no Brasil ser a da exploração do trabalho em atividades rurais, há também casos registrados de servidão doméstica, muitas vezes semelhantes ao restavek – corruptela do francês "ficar com". Em nosso país, aparece em casos de famílias que "pegam para criar" crianças do interior e as transformam em escravos domésticos. No Haiti, a prática é comum e atinge uma em cada 15 crianças.

Abaixo o depoimento de Rosemyrtha Mireille Innocent:

"Meu nome é Rosmeyrtha Mireille Innocent, tenho 19 anos. Eu estou aqui hoje para representar as crianças no Haiti mais frequentemente referidas como restavek. Eu estou aqui para ser a voz deles porque sonho com uma nova vida para eles e para todas as crianças ao redor do mundo que não têm voz em suas próprias vidas.

Eu cresci em uma família de sete filhos. A vida não era fácil para mim e minha irmã e irmãos porque minha mãe não tinha como cuidar de nós. Aos seis anos, minha tia decidiu me levar a Porto Príncipe. Minha mãe estava feliz porque sua filha estava indo para a capital do Haiti, onde eu conheceria outras pessoas, iria à escola e aprenderia novas habilidades. Minha tia também prometeu me mandar para a escola, tratar-me da mesma maneira que ela tratava seus próprios filhos e cuidar bem de mim.

Na primeira semana, fui tratada como uma princesinha, mas depois de um mês ela me disse que sou uma menina e que há tarefas que devo fazer porque a vida é difícil e ela precisa me alimentar. E ela acrescentou: 'Você acha que é uma princesa?'

Aos nove anos, percebi que não sabia ler nem escrever porque ela não me mandou para a escola e sempre me batia por nada. Eu não ia à escola até conhecer uma advogada da ONG Restavek Freedom que me encontrou e me colocou na escola.

Durante o tempo em que morei na casa da minha tia, senti-me muito mal porque me sentia inútil em seus olhos. Eu me sentia como lixo nos olhos de meus vizinhos e meus amigos por causa da maneira que fui maltratada. Muitas vezes ela me dizia: 'Você não será nada em sua vida'. Às vezes, ela me dava tapas ou me batia. Sempre que terminava de me bater, eu apenas ia para a parte de trás da casa e sentava para chorar porque eu não tinha com quem conversar. Chorava e perguntava a Deus por que eu? Por quê?

Quase todos os dias, minha tia me lembrava, com palavrões, como minha mãe era pobre. Ela queria que eu me sentisse mal. Quando me batia, se alguém dissesse para não fazer isso comigo, porque se fosse com os filhos dela ela não faria isso, ela ficava com raiva e continuava a me bater com raiva.

Ao centro, Rosemyrtha Innocent fala sobre servidão doméstica, em evento na ONU, em Genebra, nesta sexta (30). Foto: UNVFCFS/Divulgação

Lembro-me de um dia, quando me pediu para lavar uma saia para ela. Eu levei tempo para fazer isso por ela tinha nove anos de idade. Fiz o meu melhor para lavá-la bem e fazê-la feliz. De manhã, ela me disse para trazer-lhe a saia, eu estava tão feliz porque pensei que iria me agradecer pelos esforços que fiz. Em vez disso, disse que a saia ainda estava suja. Eu não tive a chance de abrir a boca para dizer algo a ela antes que me desse cinco tapas na minha cara. Tive uma vida muito difícil nessa casa. Minhas lágrimas eram minhas melhores amigas, eu me sentia sem esperança. E eu não tinha contato com minha mãe ou meu pai.

Muitas vezes, tentei fugir, mas não tinha para onde ir porque não conseguiria ir à casa da minha mãe.

Às vezes, eu desejava que fosse apenas um objeto por que qualquer um poderia fazer o que quisesse comigo e eu não saberia, nem sentiria a dor. Eles me forçavam a fazer as coisas que eu não queria fazer. Se me pedissem para lavar a louça e eu não tivesse tempo por causa de outro trabalho que já estivesse fazendo, ela me levava pela orelha e começava a me bater e me chutar em todos os lugares. Um dia, ela me deu um soco nos meus seios com tanta força que tive muita dor à noite e não consegui dormir, mas não se importou com a minha dor, afinal estava lá apenas para trabalhar. Quando disse a ela que estava sofrendo por causa do soco, ela respondeu que não era responsabilidade dela. Um dia, meu primo, seu filho, me levou ao hospital. Ela nunca me levou ao hospital quando eu ficava doente.

Mas seus filhos também tinham autorização para abusar de mim e não era incomum que eles me chutassem. Eu só tinha permissão para brincar quando terminasse com as minhas tarefas, mas isso era raro. Às vezes, terminava mas nunca era permitido brincar. Até que cheguei ao Lar de Transição da Restavek Freedom e comecei a brincar e a entender o que significava me sentir livre.

Várias vezes, quando morei com minha tia, pedi a Deus que eu parasse de respirar porque minha vida era um inferno.

Em dezembro de 2010, meu primo me pediu para lavar a louça. Quebrei uma panela por acidente e ela me bateu até que meu olho esquerdo ficou tão inchado que mal conseguia enxergar. Corri de casa até encontrar um diretor de escola e, quando ele viu a minha condição, ligou para uma advogada na Restavek Freedom. Ela veio me pegar na esquina da rua, onde eu estava descalça porque não tive tempo de trazer nada da casa. Era hora de sair de lá porque, se ainda estivesse, eu não estaria aqui para falar sobre a miséria das crianças que tenho a honra de representar.

Eu gostaria que todas as crianças tivessem as mesmas oportunidades que tive nos últimos sete anos e 11 meses: direito de ser amado, ter uma família, ser protegida, ter direito à educação e ter orgulho de fazer parte do mundo.

Em dezembro de 2010, minha vida de inferno acabou e as coisas começaram a mudar porque a organização me levou para a Casa de Transição. Antes, nunca me atrevi a sonhar e agora posso sonhar. Eu sei que posso ser o que eu quiser na vida. Trabalhe duro, mantenha-se positivo e acredite em Deus.

Qual é o significado da escravidão infantil no Haiti?

Escravidão infantil é quando uma criança está com seus pais e alguém da capital vai para o interior pedindo a essa família pobre que lhes dê o filho e eles cuidarão dessa criança. Qual pai não quer uma boa vida para seus filhos? Todos eles querem isso! Por causa disso, a criança tem que se separar de sua família para ir para Porto Príncipe na promessa de uma vida melhor. Quando ela chega, a primeira semana, às vezes, é boa, mas depois tudo muda. A família anfitriã considera esta criança restavek,ela tem que fazer todas as tarefas na casa e não sair da casa. A família anfitriã não a envia para a escola. Essas crianças são as últimas a dormir e as primeiras a acordar. São elas que tem que fazer o café, preparar a comida e cuidar de toda a família. Se acontecer de acordarem tarde, elas são surradas com fios elétricos, panelas, sandálias, esfregões… Qualquer coisa que esteja por perto e a família possa colocar as mãos.

Uma das coisas mais difíceis é que, na maioria das vezes, são elas que cozinham para a família, mas nunca são autorizadas a comer enquanto assistem com o estômago doendo de fome. Uma das coisas piores é que, em algum momento, a criança restavek pode ser estuprada pelo marido ou filho da família ou até mesmo um vizinho para quem elas são emprestadas. Quando isso acontece, não há ninguém para pedir ajuda porque ninguém acredita no que você diz. Você só pode sofrer em silêncio e temer que isso aconteça novamente.

Se você conversar com essas crianças, sentirá a dor na voz delas, porque sempre dizem que não aguentam mais essa vida, que são inúteis, que ninguém as ama, que querem morrer porque não estão vivendo.

A primeira coisa que sei sobre os direitos das crianças é que: somos criados à imagem de Deus e o primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos diz que todos os seres humanos nascem e permanecem iguais perante à lei.

O artigo 19 da Convenção sobre os Direitos da Criança exige que elas sejam protegidas contra todas as formas de violência, abuso físico ou mental ou brutalidade.

Depois de tantas análises, podemos dizer que nossos filhos realmente desfrutam desses direitos? O que foi implementado para garantir que esses direitos escritos sejam aplicados?

Temos várias organizações no Haiti que trabalham para combater o abuso contra seres humano, mas até agora sem resultado, porque nem todos estão cientes do que está acontecendo ao nosso redor. Às vezes, até temos a impressão de estarmos cercados por pessoas cegas e surdas, porque os gritos das vítimas não chegam aos ouvidos.

Eu ouvi os gritos de crianças na minha vizinhança e continuo a ver crianças sofrendo. Eu era parte desse sofrimento.

Edmund Burke, um grande filósofo e orador, disse uma vez: 'A única coisa necessária para o triunfo do mal é que os homens bons não fazem nada'. Minha prece é que bons homens e mulheres se levantem e usem suas vozes para combater o mal da prática restavek no Haiti e que um dia as crianças não mais sofrerão com essa prática que viola todos os direitos humanos, especialmente os direitos das crianças.

É hora de nos unirmos aos nossos esforços para que isso mude, porque o futuro é a criança, não só para o Haiti, mas para o mundo. O sistema restavek no Haitiprecisa parar. Nós podemos pará-lo."

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.