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Raposa Serra do Sol: Bolsonaro mandou índio "comer capim" em debate de 2008

Leonardo Sakamoto

17/12/2018 20h27

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Jair Bolsonaro confirmou, nesta segunda (17), que irá rever a demarcação da Raposa Serra do Sol, em Roraima. "É a área mais rica do mundo. Você tem como explorar de forma racional. E, no lado do índio, dando royalty e integrando o índio à sociedade", disse.

Coincidentemente, o presidente eleito tem um passado conflituoso com essa terra indígena.

Em maio de 2008, durante audiência pública, na Câmara, para discutir se a demarcação dessa região deveria ser contínua ou não, Jecinaldo Sateré Maué, da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, atirou um copo de água na direção do deputado federal. Bolsonaro criticou o indígena e afirmou: "esse é o índio que vem falar aqui de reserva indígena. Ele devia ir comer um capim ali fora para manter as suas origens".

Vamos entender como o rebú começou. O então ministro da Justiça Tarso Genro condenou, na audiência, "atitudes terroristas" e violentas de moradores não-indígenas que se recusavam a deixar a área, afirmando que as forças policiais iriam agir contra grupos armados que estavam trancando estradas e ferindo indígenas à bala. Bolsonaro chamou Tarso de "terrorista mentiroso", defendeu os fazendeiros e aproveitou para criticar o MST, que não estava na história.

O ministro, por sua vez, afirmou que ele era saudosista da ditadura, disse nunca ter participado de ato terrorista e chamou Bolsonaro de mentiroso. Ouviu como resposta do deputado federal  "pode até não ser Vossa Excelência, mas o seu grupo, tipo Dilma Rousseff". Na época, a ex-presidente era ministra-chefe da Casa Civil de Lula.

Em meio ao bate-boca, veio o copo d´água.

O deputado, exaltado, ainda disse: "É um índio que está a soldo aqui em Brasília, veio de avião, vai agora comer uma costelinha de porco, tomar um chope, provavelmente um uísque, e quem sabe telefonar para alguém para a noite sua ser mais agradável. Esse é o índio que vem falar aqui de reserva indígena. Ele devia ir comer um capim ali fora para manter as suas origens".

"Eu peguei um copo de água porque não tinha uma flecha", afirmou um também exaltado Jecinaldo. Ele acusou Bolsonaro de "desconsiderar o direito dos povos indígenas".

A Raposa Serra do Sol foi demarcada em 1998 e homologada em 2005. Dois anos depois, o Supremo Tribunal Federal determinou a desocupação dos não-indígenas. Contudo, um grupo de grandes fazendeiros de arroz resistiu de forma violenta, tendo Paulo César Quartiero – então prefeito de Pacaraima – à frente.

Em 2008, o Ministério Público Federal o denunciou por tentativa de homicídio, com armas de fogo e bombas caseiras, em uma ação que deixou 11 indígenas feridos em 2008. Depois disso, foi eleito deputado federal (DEM), em 2010, e vice-governador de Roraima, em 2014. O Congresso em Foco afirmou que ele era o campeão de processos no STF entre os parlamentares, incluindo quadrilha, sequestro e cárcere privado e crimes contra o patrimônio.

O STF confirmou a demarcação contínua da Raposa Serra do Sol, em 2009, e não em "ilhas" – com manutenção das áreas de produção agrícola de arrozeiros, conforme demandado pelos ruralistas e Bolsonaro. Na época, eram 19 mil indígenas, a maioria da etnia macuxi, em mais de 200 aldeias.  A decisão foi novamente confirmada em 2013.

Nos últimos dois anos, a região tem ocupado o noticiário por outra razão. Pacaraima é a principal porta de entrada de venezuelanos que fogem do regime de Nicolás Maduro e não conta com estrutura para receber tanta gente. E, em agosto deste ano, produziu cenas de conflitos entre moradores e estrangeiros, com direito a cenas de roupas e pertences de refugiados sendo amontoados e queimados.

Por fim, uma coincidência – ou nem tanto. Jair Bolsonaro ganhou de forma avassaladora, no segundo turno, no Estado de Roraima (71,55% a 28,45%, votos válidos). Perdeu para Fernando Haddad apenas em três municípios – exatamente aqueles onde fica a Raposa Serra do Sol: Uiramutã (80,42% a 19,58%), Normandia (66,22% a 33,78%) e Pacaraima (51,59% a 48,41%), de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral.

Post atualizado às 2h do dia 18/12/2018 para inclusão de dados sobre o processo de desocupação da terra indígena.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.