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Governo Witzel é corajoso contra museus. Será também contra milícias?

Leonardo Sakamoto

13/01/2019 18h42

Imagem da obra "A Voz do Ralo É a Voz de Deus"

O governo do Estado de Rio de Janeiro cancelou o último dia da mostra "Literatura Exposta" na Casa França-Brasil. Neste domingo, seria realizada uma performance artística crítica à tortura praticada pela ditadura militar.

Em nota, o secretário de Cultura e Economia Criativa, Ruan Lira afirmou que a razão foi descumprimento de contrato, pois a programação deste último dia não teria sido informada. O curador da exposição Álvaro Figueiredo disse, por outro lado, que ela havia sido avisada e autorizada e acusou Wilson Witzel de censura. O governador reafirmou a justificativa de seu secretário: "temos que saber previamente o conteúdo a ser exibido em um local administrado pelo governo, como está previsto em contrato".

Duas artistas nuas iriam interagir, neste domingo (13), com a obra "A Voz do Ralo é a Voz de Deus", que contava com milhares de baratas de plástico saindo de um bueiro, inspirada no conto do escritor Rodrigo Santos – que fala de uma mulher que sofreu sessões de tortura na ditadura com baratas introduzidas em seu corpo. Originalmente, o bueiro teria trechos de discursos de Jair Bolsonaro- parte que já havia sido censurada m dezembro.

Também na manhã deste domingo, o carro blindado em que estava a deputada estadual e ex-chefe da Polícia Civil Martha Rocha (PDT) foi perseguido por outro veículo e alvejado na Zona Norte do Rio. Seu motorista Geonisio Medeiros foi atingido na perna por um tiro de fuzil. A polícia afirma que é "prematuro" apontar os responsáveis – tentativa de assalto e de homicídio são as suspeitas. A deputada diz que é necessário esperar a investigação e afirmou que estava na lista de ameaçados por milicianos.

Vale lembrar que milícia e tráfico já vivem uma simbiose de métodos e territórios no Rio de Janeiro, tanto que – não raro – é difícil diferenciá-los. E tudo é tão escrachado e visível que vemos nas redes sociais apoiadores de milicianos (sim, eles existem, aos montes, inclusive em altos cargos da política), criticando traficantes. Talvez não pelos métodos, mas pela concorrência.

A ditadura militar é revivida não apenas quando inconsequentes usam sua liberdade contra a liberdade de outros. Mas também quando alguém é torturado e morto pelas mãos de pessoas treinadas pelo Estado. Por exemplo, por policiais criminosos ou sua versão organizada, as milícias – que, aliás, ameaçam os agentes de segurança honestos que ficam encurralados entre os bandidos e os mocinhos-bandidos. Milícias já controlam um território maior que o tráfico de drogas no Rio de Janeiro, segundo o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL).

O recém-empossado Wilson Witzel provou que tem coragem de calar manifestações artísticas.

A dúvida é se também terá a mesma coragem para calar a ação de milicianos, uma ameaça à população do Rio bem maior do que terríveis baratas de plástico e performances em centros culturais.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.