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Desastres da Vale em Brumadinho e Mariana fazem parte de um projeto de país

Leonardo Sakamoto

30/01/2019 20h00

Wilton Júnior/Estadão Conteúdo

Duas barragens não se rompem, não matam dezenas de pessoas e não alteram para sempre o meio ambiente por conta da incompetência, ignorância ou má fé apenas de um punhado de pessoas. Chamamos o que aconteceu em Brumadinho e Mariana de tragédia, desastre, catástrofe e, muito inadvertidamente, "acidente", por tentativa de objetividade. O correto seria dizer que isso faz parte de um empreendimento, um projeto coletivo, pacientemente implementado ao longo do tempo, tendo a Vale como protagonista, mas com muitos coadjuvantes.

Quando o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, afirma que "as investigações têm que chegar no CPF de alguém", pois "alguém deu ordens para fazer isso ou aquilo", ele livra a barra do sistema.

Também são responsáveis mandatários, senadores e deputados que não agiram para manter a empresa na linha, via leis, fiscalizações, punições. Ou magistrados com interpretações de leis que amenizaram a punição a projetos com sofrimento humano sob a justificativa de evitar que fossem inviabilizados. Ou ainda com a parcela dos investidores e acionistas cuja preocupação é apenas com a redução no valor das ações ou no pagamento de dividendos – não se importando que a empresa não diga toda a verdade sobre o riscos sociais e ambientais de sua fábrica de dinheiro. O que os olhos não veem, o coração não sente.

O amor da Vale pela democracia levou a empresa a distribuir R$ 79,3 milhões na eleição de 2014, de acordo com reportagem do UOL – a última com doação (legal) de pessoas jurídicas. As campanhas de Dilma Rousseff, Aécio Neves, Fernando Pimentel estavam entre as grandes recebedoras. 

O ato de doação é um indício de que o doador comunga das propostas do candidato e deseja que ele o represente politicamente, seja por suas ideias, seja por sua classe social, ou porque quer criar com ele um vínculo. Alguns eleitos mantêm apenas diálogos cordiais com os financiadores, outros literalmente pagam através de serviços prestados.

Esse tipo de empreendimento coletivo não enxerga barreiras ideológicas e matizes políticos. Não surgiu neste governo, que acaba de começar (apesar dele se esforçar em atacar o licenciamento ambiental e a fiscalização do trabalho para alegrar alguns grupos arcaicos que lhe dão suporte), mas não deve terminar com ele.

O fogo que consumiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em setembro do ano passado, é representativo do mesmo empreendimento e paradigmático da ausência de um projeto nacional que enxergasse naquele patrimônio um subsídio fundamental para a construção de um país melhor. E que, portanto, precisaria ter sido protegido a qualquer custo. Se assim fosse, haveria recursos para monitorar, conservar e estudar esse patrimônio da mesma forma que existe para garantir o funcionamento dos mais diversos palácios que hospedam os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário pelo país. Até porque representantes políticos vêm e vão, mas nossa história fica.

Da mesma forma, a vida vale muito pouco diante do extrativismo brasileiro, com o perdão do trocadilho. Nossa riqueza natural e ambiental tampouco. Muito menos as vidas de comunidades tradicionais atingidas pela lama que correu, em 2015, pelo rio Doce ou das que são alcançadas pela que corre, agora, em direção ao rio São Francisco. Talvez se tivéssemos outro projeto de país, um em que a centralidade estivesse na dignidade humana, o poder público e a empresa teriam sido convencidos de que o minério de ferro teria que ficar no solo até que fosse possível garantir o armazenamento dos resíduos sem riscos.

Mas direitos humanos, que incluem a proteção à vida e à dignidade em seus aspectos econômicos, sociais, ambientais e culturais, são chamados de "lixo" pelas mesmas pessoas que, logo depois, replicam memes do tipo "Salve, Brumadinho". O que parece esquizofrenia comunicacional na verdade é parte da lógica do tal empreendimento coletivo. Desconectada e alienada do curso de sua vida e da história de sua gente, treinados para atuar como cães de guarda daqueles que os oprimem, muitos se tornam soldados do capital alheio.

Não houve um desastre da Vale em Brumadinho depois de um da Samarco (Vale + BHP) em Mariana. São o mesmo desastre. Duas temporadas da mesma série, passando via streaming na tela do seu celular.

Por não percebermos isso, deixamos de entender o encadeamento de nossa própria história e de construir um outro projeto de país. Passivo, diante dos planos de terceiros, o povo não é mais povo, mas gado. E como gado, pode ser tocado adiante. Um amontoado de mugidos difusos que não tem ideia para onde está indo, tampouco faz questão de saber. Até ser surpreendido pelo próximo atoleiro de lama, ali, logo em frente.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.