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Senadores votarão contra Reforma da Previdência se redes sociais mandarem?

Leonardo Sakamoto

03/02/2019 04h37

Davi Alcolumbre, novo presidente do Senado, junto com aliados. Foto: Handout/Reuters

"Os desejos das ruas terão protagonismo." A frase de Davi Alcolumbre (DEM-AP) reverberou declarações de seus colegas durante a sexta (01) e o sábado – quando o Senado Federal o elegeu presidente em meio a uma conturbada sessão de autópsia da democracia transmitida, ao vivo, pela TV.

"Nós estamos sendo comentário das redes sociais", disse uma senadora. "As manifestações pelas mídias sociais são avassaladoras", afirmou outro. "Esta casa aqui tem de passar a ter respeitabilidade diante da opinião pública brasileira, caso contrário, nós vamos ser troco, aí, na rua", declarou um terceiro. Houve até quem fizesse enquete na internet para decidir o voto.

Ouvir os eleitores é sempre bem-vindo para a tomada de decisões. Esse discurso usado na eleição no Senado, contudo, não surge como parte de uma experiência de mandato participativo, mas foi utilizado para a construção da narrativa que justifica a não eleição de Renan Calheiros – considerando sua ficha corrida, é compreensível, mas as razões foram menos éticas do que políticas. Pode parecer a mesma coisa, mas não é. Tanto que surge a dúvida: os parlamentares manterão o mesmo comportamento quando a Reforma da Previdência for colocada em discussão?

A má fama do tema só rivaliza com a baixíssima popularidade do antecessor de Jair Bolsonaro, que não conseguiu colocar nem a versão desidratada do projeto de reforma em votação. É de se imaginar que, mesmo com os exércitos digitais do governo, serão muitas as mensagens insatisfeitas de eleitores quando a reforma tramitar pela casa. Os senadores darão ouvidos a elas, votando contra o governo? Ou há pautas em que a opinião expressa nas redes importa, como o combate à corrupção, e outras, não?

Mais do que uma vitória de Davi Alcolumbre, essa foi uma derrota de Renan Calheiros, com diferentes grupos superando diferenças para evitar que ele voltasse à Presidência. Por isso, o ministro-chefe da Casa Civil Onyx Lorenzoni não deveria cantá-la como vitória pessoal até fazer os primeiros levantamentos do número de votos a favor da Reforma da Previdência que ele terá na casa. Rodrigo Maia (DEM-RJ), eleito presidente da Câmara dos Deputados com folgada vantagem, já avisou que ainda não conta com os 308 suficientes para aprovar a idade mínima para a aposentadoria.

A leitura do conjunto de mensagens publicadas nas redes sociais sobre um assunto e/ou alguém não é uma medida confiável da opinião pública. Tampouco um assunto que se torna trending topic no Twitter reflete o posicionamento da população sobre determinado tema. Ele é apenas o mais citado na rede social por um determinado momento – o que pode ser impulsionado por pessoas, mas também por robôs ou perfis falsos controlados por profissionais pagos.

O Brasil precisa de uma Reforma da Previdência, mas uma que não mexa nas regras do Benefício de Prestação Continuada, garantido aos idosos pobres, e da aposentadoria especial rural. E que afaste a possibilidade dos trabalhadores mais vulneráveis, com pensões de até dois salários mínimos, de terem que trabalhar um quarto de século para terem direito à aposentadoria.

Deveríamos ter discutido os diferentes projetos de reforma nas eleições do ano passado, pelo menos no segundo turno. O que não aconteceu. Aliás, se um alienígena pousasse aqui em meados de outubro, durante as eleições, a impressão que levaria era de que o principal problema nacional seria o "excesso de fiscalização ambiental e trabalhista". Olhando sob a ótica de uma tsunami de lama e centenas de mortos, o passado recente soa até ofensivo.

Tem um outro elemento que é políticos fomentando seus seguidores contra outros políticos no intuito de conseguir aprovar matérias. Faz parte da democracia cidadãos serem alertados por seus representantes e pressionarem administradores públicos ou parlamentares em matérias de seu interesse. Mas a linha que separa a justa pressão e a coação política via ameaças e medo não pode ser ultrapassada.

O que aconteceria se o diálogo político for substituído por coação digital contínua no Congresso Nacional? Qual será a reação se alguns deputados, senadores, governadores ou mesmo o futuro presidente acharem que podem jogar seus seguidores para ameaçar parlamentares da oposição ou assediarem de forma indevida os da sua própria base a cada nova proposta de seu interesse em trâmite no Congresso, usando WhatsApp e redes sociais? O que acontece se alguém decidir exercer seu mandato usando ataques digitais, que se desdobram em ameaças de morte em postagens de seguidores, perfis falsos ou robôs, como se ainda estivesse em campanha?

Convencer seguidores nas redes sociais a apoiarem algo é bem mais fácil do que fazer com que lideranças partidárias coloquem as pautas do governo na agenda de votações e entreguem votos necessários para aprová-las em assuntos que fogem aos interesses das bancadas temáticas. >Uma coisa é a justa pressão, o desejável monitoramento por parte dos eleitores e mandatos realmente participativos, com construção coletiva. Outra é usar o eleitor como massa de manobra, fomentando a violência digital como instrumento da política diária.

Vai ser interessante ver como essa forma de ação consegue ou não ter sucesso em substituir, na democracia, o diálogo pelo grito.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.