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No Rio, fevereiro tornou-se o mês da morte pela chuva e pelo descaso

Leonardo Sakamoto

07/02/2019 04h47

Foto: Liane Thedim / Agência O Globo

O cenário de caos e catástrofe com o temporal que atingiu o Rio de Janeiro, na noite desta quarta (6), mostra que as grandes cidades brasileiras estão despreparadas para o impacto que as mudanças climáticas devem trazer nos próximos anos. Não que esta situação tenha necessariamente relação direta com as consequências da ação humana sobre o clima, mas eventos extremos como este tendem as ser mais frequentes. E estamos vendo, por antecipação, como vão matar muita gente.

Apesar das cenas do lobby de um hotel de luxo tomado pela água, de ruas e academias inundadas, árvores e postes caídos, o que torna um inferno a vida de moradores e turistas na cidade, quem mais sofre o impacto é quem tem pouco ou nada tem. Há registro de, ao menos, cinco mortes: uma por conta de um deslizamento de terra, na Rocinha, duas após o desabamento de uma casa em Barra do Guaratiba, outra com a queda de um muro no Vidigal e uma passageira depois que uma árvore despencou de uma encosta do morro do Vidigal e atingiu o ônibus em que estava. Todos são bairros pobres da capital carioca, onde a infraestrutura e a vida são mais precárias.

O Rio entrou em "estágio de crise", o mais grave dos níveis usados para medir a intensidade das chuvas pelo poder público local. Coincidentemente, no dia 14 de fevereiro do ano passado, também uma quarta, a cidade entrou no mesmo estágio por conta de um forte temporal que matou, ao menos, quatro pessoas. Naquela época também houve deslizamentos de terra, ruas alagadas, casas destruídas, árvores caídas, vias interditadas, trechos de ciclovias destruídas, caos no transporte público e problemas no fornecimento de energia elétrica. Tanto em 2018 quanto agora, as autoridades pediram para a população não sair para a rua.

Pode-se dizer que o cotidiano carioca em algum momento já foi farsa, mas hoje se repete incansavelmente como tragédia.

Como já disse aqui, chamamos equivocamente de "desastres naturais" as mortes causadas por tempestades, furações, inundações, entre outros eventos. Mas não há nada de natural nisso, pois já há tecnologia e protocolos para prever, reduzir e evitar o sofrimento causado. Como a retirada da população de um local, com antecedência, e a recolocação em outro, de forma decente e digna. Ou a melhoria estrutural de uma comunidade para evitar um deslizamento. A não implementação dessas medidas é irresponsabilidade e incompetência de gestores, acumulada ao longo do tempo.

Providências que não incluem apenas um sistemas de alerta decente, para fazer circular informação rápida e efetivamente horas, dias ou semanas antes de um fenômeno natural. Mas também a execução de políticas decentes de habitação, saneamento, contenção de encostas, dragagem de rios, limpeza de vias, campanhas de conscientização quanto ao lixo.

Reconhece-se que a cidade do Rio, crescida entremorros e sobre eles, é um grande desafio de gestão, que não será resolvido de uma hora para outra. Mas não precisamos de governantes otimistas, que acreditam na possibilidade de chover menos, ou de administradores que terceirizam a responsabilidade para Deus. E sim de gente realista, que tem o perfil de alguém que espera sempre o pior e age preventivamente, não culpando as forças do universo pelo ocorrido, muitos menos a estatística e a meteorologia.

Por fim, enquanto as ruas e os palácios estiverem repletos de negacionistas ambientais, o desenvolvimento de políticas federais, estaduais e municipais para adaptar as cidades para o inevitável impacto climático ficará em marcha lenta.

Esse pessoal não entende (ou entende e não quer perder dinheiro com isso) que o impacto de desregular o frágil equilíbrio que torna a Terra um lugar agradável para humanos, através do aquecimento do ar e da água, inclui a proliferação de eventos extremos – como grandes secas e grandes inundações, nevascas e calor intenso, mais e maiores furacões/tufões e tornados. E tempestades.

Alertas sobre mudanças climáticas não são produto de fé, mas entendimento baseado em evidências científicas coletivamente chanceladas. Produto de fé é mover a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, colocando em risco nossa segurança e nosso comércio internacional, alinhando-se à ideologia salvacionista de alguns grupos religiosos cristãs dos Estados Unidos, que foi importada para cá, e crê que o sucesso do projeto sionista de Grande Israel é uma condição prévia à Segunda Chegada de Cristo.

Talvez mudar as eleições do seco outubro para o úmido fevereiro fosse didático à democracia brasileira.

Post atualizado às 10h do dia 07/02/2018 para inclusão de outras mortes pela chuva. 

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.