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Bolsonaro diz que nazismo é de esquerda e Brasil passa vergonha em Israel

Leonardo Sakamoto

2002-04-20T19:15:30

02/04/2019 15h30

Bolsonaro testa metralhadora em Israel e criticar desarmamento

Após visitar o Memorial do Holocausto, em Israel, Jair Bolsonaro afirmou que o nazismo foi um movimento de esquerda.Dessa forma, alinha-se ao ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e ao guru de ambos, Olavo de Carvalho, mas bate de frente com a posição expressa por pesquisas do próprio Memorial, pelo governo da Alemanha (que viu o nazismo nascer) e pela esmagadora maioria dos historiadores em todo o mundo, que tratam do assunto praticamente como consenso. Mas, o mais importante: faz o Brasil passar vergonha no exterior.

Não dá para dizer que a vergonha foi gratuita. Mais do que uma questão ideológica, a declaração tem razões pragmáticas ao alimentar seus seguidores para que mantenham a guerra cultural nas redes e a defesa de sua administração. Mas também conecta seu governo a outros de extrema direita pelo mundo. Sem falar na básica distração diante de uma administração que não conseguiu decolar e vive batendo cabeça e fazendo bobagem.

No ano passado, a Embaixada da Alemanha em Brasília foi chamada de comunista nas redes sociais por ela ter postado um vídeo explicando que o nazismo é um movimento de extrema-direita. Se não bastasse isso, nossos conterrâneos foram além, tentando explicar aos alemães que eles não entendiam muito bem do tema.

Muitos que "xingam" pessoas ou instituições com as quais não concordam de esquerdistas ou comunistas não compreendem o que isso, de fato, significa. Caso as soubessem um mínimo de História e também do que se passa à sua volta, poderiam criticar esses termos de forma embasada – e há mais críticas do que elogios a serem feitos. Porém, o que vemos é uma massa misturando inocência, ignorância, paranoia e má fé, guiada por grupos que se aproveitam politicamente do processo de transformar palavras em palavrões.

Não raro, muitos que chamam alguém de esquerdista acreditam que estão chamando-o de corrupto, ladrão, despudorado, assassino, ateu, invasor de propriedade. Em suma, o inimigo, aquele que vem de fora para destruir tradições e modos de vida. Praticamente, uma ação reativa de alguém perdido diante de um mundo grande e desconhecido. Despida de seu significado original, a palavra também se tornou um elemento de identificação. Ou seja, uma postagem chamando o nazismo de esquerdista imediatamente passa uma mensagem compreendida pelos demais membros do grupo, gerando conexão.

A mesma "sabedoria" que transforma o nazismo em esquerda também colocou na mesma categoria a cantora Madonna, a revista Economist, as Nações Unidas, o The New York Times, a Rede Globo, o Facebook, o cantor e compositor Roger Waters, o filósofo e economista conservador Francis Fukuyama e a deputada de extrema-direita Marine Le Pen nas eleições de 2018 no Brasil. A importância do "socialista" no Partido Nacional-Socialista da Alemanha é tão grande quanto o "democrática" no República Popular Democrática da Coreia (do Norte).

Em menos de uma semana, Bolsonaro afirmou que não houve ditadura militar no Brasil, apesar de termos 21 anos de provas do contrário. Disse que a metodologia de cálculo de desemprego do IBGE está errada porque não concorda com o número de desempregados. E, agora, defende que o nazismo foi de esquerda após uma visita ao Memorial do Holocausto, em Israel – lembrete dos mais de 6 milhões de judeus exterminados durante a Segunda Grande Guerra pela extrema-direita.

Bolsonaro não possui variáveis explicativas decentes para sustentar suas declarações, mas ela resistem mesmo assim. A ideia de pós-verdade, quando a emoção ao transmitir um fato é mais importante para gerar credibilidade em torno dele do que provas de sua veracidade em si, segue pertinente. A partir de determinado ponto, a verdade se desgarra da realidade, que passa apenas aquilo com a qual a pessoa concorda. Morre a razão, sobrevive a crença. O que para alguns vale bem a pena, pois, em nome dessa crença, muitos vão até as últimas consequências, matando e morrendo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.