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Culpa por Ricardo Vélez e Ernesto Araújo não é de Olavo, mas de Bolsonaro

Leonardo Sakamoto

2004-04-20T19:16:33

04/04/2019 16h33

Foto: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

Diante do risco de paralisia e vexame, o governo Bolsonaro resolveu decretar "intervenção militar" no Ministério da Educação, nomeando o tenente-brigadeiro Ricardo Machado Vieira para o cargo de secretário-executivo. Discípulos do polemista de extrema-direita Olavo de Carvalho, que haviam sido indicados para cargos estratégicos, têm sido substituídos.

Enquanto isso, o comandante da pasta, Ricardo Vélez Rodríguez, tornou-se um morto-vivo na Esplanada dos Ministérios. Em uma de suas últimas cartadas para permanecer no cargo, afirmou, em entrevista ao jornal Valor Econômico, que os livros didáticos passarão a explicar que não houve golpe em 1964, muito menos ditadura. Ou seja, pirou de vez.

A ala militar do governo, que tem sido responsável por conter e corrigir comportamentos erráticos do presidente da República, de seus filhos e assessores, está em conflito com a ala ideológica – que não tem muito compromisso com a História, tampouco com os fatos. Não que os militares sejam uma maravilha, basta perguntar a muitos deles sobre meio ambiente e direitos indígenas, por exemplo, mas considerando o outro lado, são todos estadistas. "Quem diria que teríamos que contar, no final, com os generais", disse, em tom de galhofa, um deputado tucano em conversa com este blog. "Imagina se fossem mais oito ministros iguais ao Vélez ou ao Ernesto ao invés dos militares que ocupam essas cadeiras."

Questionado, em audiência no Senado Federal, na manhã desta quinta (4), sobre suas declarações de que o nazismo era um movimento de esquerda, o chanceler Ernesto Araújo preferiu não repetir o que havia dito e defendeu um debate sobre a essência desses movimentos, o que na prática significa revisar a história. Com isso, os grupos neonazistas de extrema direita que caçam minorias Brasil afora agradecem a passada de pano.

Ele, que também foi indicação de Olavo, segue estridente (o Itamaraty mandou uma carta estapafúrdia às Nações Unidas afirmando que não houve golpe em 1964), mas com poder relativo. Quem dá a última palavra sobre a Venezuela são os militares. E sobre viagens e reuniões do presidente, o deputado federal e filho caçula, Eduardo Bolsonaro.

Olavo de Carvalho, porta-voz e guru da ala ideológica, chama os militares de "bando de cagões. Diz que seu mais recente desafeto, o general e ministro-chefe da Secretaria de Governo, Santos Cruz, "simplesmente não presta". Bolsonaro assiste a tudo em silêncio, inclusive as novas mudanças no MEC. Talvez ninguém tenha lhe explicado que a tática do "dividir para governar" era para os inimigos, não os aliados. Ou ele está esperando ver quem vence a disputa para chamar a governar o país ao seu lado.

Dizer que as nomeações equivocadas para cargos públicos, nomeações que criam problemas para o país, são culpa da influência de Olavo de Carvalho seria dar a ele uma importância que não tem. O polemista é útil para a Presidência da República, pois alimenta a massa de seguidores de extrema direita que, assim, permanecem fiéis a Bolsonaro, e gera os ruídos junto à esfera pública que ele precisa para governar. Mas é Jair quem decide em última instância e é dele, e não do polemista, a responsabilidade pelas escolhas erradas para o país.

Não duvido que o presidente tomaria uma distância de segurança dele caso o contexto mudasse e Olavo deixasse de ser um instrumento útil para se tornar um fardo.

Post atualizado às 17h58, do dia 04/04/2019, para inclusão de informações.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.