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Da "tchutchuca" ao "não houve golpe", o debate público regride no Brasil

Leonardo Sakamoto

2004-04-20T19:04:48

04/04/2019 04h48

Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

A oposição teve um momento "Bolsonaro" com o pastelão causado pela intervenção do deputado Zeca Dirceu (PT-PR) – que disse em audiência na Comissão de Constituição e Justiça, nesta quarta (3), que o ministro da Economia, Paulo Guedes, é "tigrão" com os trabalhadores e "tchutchuca" com o poder econômico. Não é necessário conhecer o Bonde do Tigrão para entender o que significa a comparação. Enfurecido, Guedes respondeu que "tchutchuca é a mãe, tchutchuca é a avó!", exigiu respeito e o tempo fechou e, com ele, a audiência. A quinta série foi ao delírio com tanta tchutchuca.

Não há como escrever esse parágrafo e não se sentir meio ridículo, considerando que a história foi o apogeu de um debate sobre a Reforma da Previdência – que, se aprovada, define um projeto de país para os próximos anos. Tão ridículo quanto foi atender a um telefonema de um colega de um veículo de comunicação estrangeiro interessado em uma tradução – o mais fiel possível – do termo "tchutchuca". O problema, contudo, não é a armadilha em que o ministro caiu, mas o debate – que, com louváveis exceções, deixou a desejar, seja pelo despreparo, seja pela omissão.

Para citar dois pontos que interessam aos trabalhadores rurais, um dos grupos mais vulneráveis, por exemplo. Quando o ministro afirma, por exemplo, que quase não há variação na sobrevida após os 65 anos entre estados mais ricos e mais pobres, ignora que há diferenças consideráveis entre as regiões rurais pobres e urbanas ricas de cada estado. E quando a oposição dá ênfase apenas à questão da idade mínima, deixa de lado o impacto da mudança de 15 para 20 anos de contribuição mínima em um país com alta informalidade. Lembrando que quem se aposentar por idade, tendo contribuído 20 anos, receberá uma aposentadoria no valor de 60% da média salarial e não mais 90%, como é hoje.

Desde Primeiro de Janeiro, as declarações políticas estão mais à vontade para fugir dos protocolos institucionais e seguirem correndo alucinadas pelas redes sociais. Gestadas principalmente no Itamaraty, no Ministério da Educação, no Palácio do Planalto, na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, elas têm chocado. Ora cumprindo seu intento de distrair, ora para mobilizar regimento digitais – ou mesmo na forma de sincericídios e de ataques rasos contra o bom senso.

Tanto que, enquanto Paulo Guedes destilava ironia, sarcasmo e cinismo sobre os deputados, embalando conteúdo em arrogância ("Quem acha que [a reforma] não é necessária é um problema sério. É caso de internamento. Tem que internar", disse o ministro), não muito longe dali, outro ministro, o da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, fazia uma de suas últimas manobras para tentar permanecer no cargo diante de sua incompetência transbordante.

Considerando que nos devaneios de seu chefe, não houve golpe em 1964, nem ditadura militar, ele anunciou que pretende mudar os livros didáticos para resgatar "uma versão da história mais ampla".

Isso encontra eco na polêmica afirmação de Kellyanne Conway, ex-assessora do presidente Donald Trump. Questionada sobre a declaração de seu chefe, de que sua cerimônia de posse tinha sido a maior da história, apesar das fotos mostrarem que isso não se sustentava, afirmou a Chuck Todd, da rede de TV NBC: "Você está dizendo que é uma mentira. Nosso chefe de imprensa, Sean Spicer, apresentou fatos alternativos a isso". O jornalista respondeu corretamente que "fatos alternativos não são fatos. São falsidades".

O mesmo se aplica a este caso. Versão mais ampla? Não, apenas mentira.

Vivemos tempos bicudos. Em que, para o presidente da República, a culpa pela subida na taxa de desemprego, que alcançou 13,1 milhões de pessoas, é da metodologia do cálculo do índice pelo IBGE. Ou seja, a culpa da febre é do termômetro. Não admira, portanto, que não tenha apresentado políticas para resolver o problema, ele prefere torturar os números para que falem a verdade que deseja ouvir. Da mesma forma, ao afirmar que o nazismo era um movimento de esquerda, passa pano para os grupos de extrema direita responsáveis por fazê-lo renascer no Brasil e no mundo, grupos que espancam a população LGBTT, negros, judeus, entre outros.

Se o debate público fosse mais qualificado, políticos, empresários e a sociedade se sentiriam motivados a usar da boa argumentação até para não serem humilhados coletivamente ao exporem argumentos ruins, preconceituosos e superficiais. O que temos contudo, é que o discurso violento e opressor – mais palatável e que mexe com nossos sentimentos mais primitivos – ecoa e repercute. Esse discurso basta em si mesmo. Não precisa de nada mais do que si próprio para ser ouvido, entendido e absorvido.

Em um debate qualificado quem usa esses argumentos nem seria ouvido. Contudo, fazem sucesso na rede. Colam rápido, colam fácil. Pois, vale lembrar, quanto mais qualificado o debate em um universo que não sente a necessidade de um debate qualificado, menor a arena para consumi-lo. Lembrando que "qualificação" não significa elitização, muito pelo contrário. Não é algo chato, hipercodificado, barroco ou acadêmico e sim que ajude a perceber a complexidade do mundo e a construir sentido coletivo das coisas. Ou seja, que o ajude o país a fazer política.

O nível do debate público está baixando. E não é por comparações usadas no debate político – se o problema do país fosse o uso de termos como "tchutchucas", estaríamos no paraíso. Mas pelo diálogo ter sido destituído de seu papel central na vida comum. E, dessa forma, puxando a sociedade junto com ele.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.