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Retrato da era Bolsonaro: deputados perdem votação enquanto fazem lives

Leonardo Sakamoto

24/05/2019 12h35

Deputados do PSL fazem lives em redes sociais durante votação. Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

A fotografia que mostra um grupo de deputados federais fazendo lives para seus seguidores em redes sociais, enquanto uma votação retirava o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) das mãos do ministro Sérgio Moro, tornou-se instantaneamente icônica. Representa os desafios para o diálogo voltado à construção coletiva em um ambiente com farto acesso à tecnologia, mas sem reflexão sobre os impactos éticos (e estéticos) do seu uso.

O que diz respeito não apenas à política, mas também a outras instâncias da vida cotidiana, em que se faz necessário também conversar e construir com quem está fisicamente ao seu lado ao invés de buscar a saída só nas redes sociais.

Grosso modo é o equivalente a ignorar a cônjuge, que quer falar sobre problemas no relacionamento na mesa do restaurante, enquanto manda mensagens sobre esses problemas ao grupo de amigos no WhatsApp, pedindo que intercedam junto a ela. Ou xinguem muito por ela estar pressionando-o.

Ao manter a audiência em estado de constante excitação, a frequente transmissão via lives, feita sob justificativa de informar a base eleitoral, funciona para fidelizar seguidores. Mas também como uma forma de fazer pressão política – o que, fora das eleições, tem produzido resultados questionáveis. Quando parlamentares acionam suas redes em nome de um projeto legislativo sabem que o resultado são eleitores ou simpatizantes pressionando colegas. O problema é que fazer isso enquanto o colega está ao seu lado, no plenário, ao invés de gastar saliva – uma das principais ferramentas de uma democracia – torna o debate político disfuncional. A construção lenta passa dar lugar ao assédio rápido.

"Querem que as redes nos pressionem para que votemos com eles, mas também querem tirar o deles da reta, mostrando que fizeram de tudo. Assim é fácil", afirmou um deputado de um partido do centrão, que pediu para não ser identificado.

Entende-se a preocupação dos parlamentares que, uma vez eleitos com a ajuda das redes sociais, mantenham-se conectados. Ao mesmo tempo, é legítimo que a população, convocada por seus representantes, pressione em nome de suas demandas. Mas uma coisa é pressão, outra ataque, ameaça e assédio. E as redes sociais – alimentadas por câmaras de eco que dão a impressão que a opinião de uma bolha é a de todo o mundo e, portanto, as dissidências são falhas que precisam ser corrigidas – não são boas em saber impor limites.

Desde que Jair Bolsonaro foi apontado como presidente da República, discuto neste blog o que pode acontecer se o diálogo político for substituído por coação digital contínua no Congresso Nacional e qual a reação se políticos acharem que podem jogar seus seguidores para atacar outros políticos a cada nova proposta de seu interesse, usando WhatsApp e redes sociais.

Por não saber dialogar ou ter nojo de fazer política, que é a arte de encontrar soluções pacíficas para conflitos e buscar formas coletivas de construção da sociedade, garantindo a divisão racional e solidária dos limitados recursos disponíveis, Bolsonaro segue acreditando que pode governar apenas com seus seguidores nas redes sociais. Enquanto não entrega soluções para o desemprego de 13,4 milhões ou para um país em que metade das escolas não está ligada à rede de esgotos, ele e parte de seus apoiadores, cometem um intenso bullying digital contra políticos, jornalistas, economistas, movimentos sociais e qualquer um que critique sua política medieval em costumes e comportamento. Agora, diante de impasses no Congresso, o bullying transborda para fora das telas de computadores e smartphones e ganha as ruas.

Bolsonaro e parte de seus aliados no parlamento mantiveram sua comunicação no mesmo estado bélico com o qual ganharam as eleições, apostando em uma guerra prolongada para manter os apoiadores unidos contra o "inimigo". Que, a princípio, é personificado na esquerda, mas abrange todos aqueles que se oponham aos seus planos – o que inclui deputados federais e senadores (aliados ou adversários) e ministros do STF.

O Congresso Nacional é o local para que conflitos sejam resolvidos dentro de regras, onde saídas são costuradas, evitando assim que diferentes grupos sociais entrem em embate direto no resto do país. Nosso parlamento é, por vezes, uma tragédia disfuncional, mas nem por isso é justificativa para ser subvertido – ruim com ele, pior sem. Ao invés de resolver conflitos, deputados que contam com seus seguidores para atacar outros deputados apenas colocam mais lenha na fogueira.

As bases de seguidores de deputados nas redes sociais não são as mesmas. Uma coisa é ser pressionado via Twitter por alguém de outro Estado, outra é perder voto da pessoa que te elegeu. O público de 513 deputados e 81 senadores reage diante de pressões externas, a questão é que depende de onde vem essa pressão. O presidente da República é o único capaz de criar danos a diversas bases eleitorais com suas lives e postagens. Mas seus ataques aos políticos não fizeram com que sua vontade fosse imposta, mas estão na gênese da crise com o Congresso Nacional – que responde votando de forma contrária aos interesses do governo. Ou seja, o bullying presidencial teve efeito contrário ao que ele pretendia.

Uma coisa é a justa pressão, o desejável monitoramento por parte dos eleitores e mandatos em que o eleitor é consultado por seu representante para a construção de políticas. Outra é usar o cidadão comum como massa de manobra, fomentando a violência digital como instrumento da política diária. Ou acreditar que é possível construir algo novo sem descer do palanque digital com o qual foi eleito e aceitar o contraditório comum a quem dialoga. Vai ser interessante ver como essa "nova política" consegue ter sucesso e, ao mesmo tempo, resistir no teste da democracia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.