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Para governo, estudante está errado e apenas pauta de apoiador é legítima

Leonardo Sakamoto

30/05/2019 04h03

Protestos em Belo Horizonte contra os cortes na educação no dia 15 de maio. Foto: Cristiane Mattos/Estadão Conteúdo

Uma nova manifestação de estudantes, professores e movimentos sociais acontece em capitais e cidades do interior, nesta quinta (30), para protestar não apenas contra os cortes no orçamento da Educação, mas também pela falta de uma política nacional para o setor. Enquanto isso, o governo federal ataca a realização do evento e faz de tudo para questionar sua legitimidade, por exemplo, afirmando que ele é fruto de "coação" de docentes contra alunos – comportamento muito diferente dado às manifestações de bolsonaristas no último domingo.

Apoiadores do presidente e de seus ministros foram às ruas, no último dia 26, manifestar-se a favor deles, contra aqueles que limitam o poder do "mito" e defender sua pauta de reformas.

Ato contínuo, membros da administração federal passaram a semana dizendo que é necessário e urgente atender o que as ruas pedem. Mas não qualquer rua, apenas aquela com a qual eles estão sintonizados. Ou seja, a rua preenchida com seus apoiadores, que também são adversários de seus adversários e empunham uma agenda que foi pautada pelo próprio governo e seus patrocinadores.

Com exceção das demandas por fechamento do Congresso Nacional, deposição de ministros do Supremo Tribunal Federal, intervenção militar constitucional, vulgo, golpe, a defesa dessa agenda é legítima. Mas o comportamento do governo, como se não tivesse ajudado na convocação das manifestações e não estivesse instrumentalizando essa pauta a seu favor, é um elogio ao descaramento.

Simultaneamente, as pautas em defesa da educação e da ciência, defendidas na manifestação do 15 de maio, são consideradas ideologizadas e fruto da manipulação de pobres estudantes-zumbis por professores-doutrinadores. É necessário e urgente atender o que as ruas pedem? Sim, mas como disse, não qualquer rua.

Porque, para o governo, há ruas com as pautas certas (aquelas com as quais ele concorda) e com pautas erradas (aquelas das quais discorda). Por esse ponto de vista, dia 26 valeu e, com isso, suas pautas e os manifestantes receberam o Selo Talkey de Qualidade.

Já dia 15, não. Inicialmente porque foi composto de milhares de "idiotas úteis" e "imbecis", nas palavras do próprio presidente. Após um toque por partes dos auxiliares de que chamar esse grupo dessa forma não pegou bem, os estudantes foram reembalados como "inocentes úteis" e "garotos inocentes, [que] nem sabiam o que estavam fazendo lá". O que nos leva a uma dúvida: se fossem garotas, talvez soubessem?

Para Bolsonaro, "a molecada foi usada por professores inescrupulosos para fazer manifestação política contra o governo". Os exércitos digitais do presidente passaram a semana seguinte tentando vender a ideia de que a manifestação era um grande "Lula Livre" e os alunos eram todos do MST – tendo um certo sucesso.

Nem a pauta, nem os manifestantes receberam o Selo Talkey de Qualidade porque falam outro idioma. O presidente, novato na administração pública, se expressa pela língua do contingenciamento, enquanto estudantes e professores, pós-graduados na cristalização da precariedade de condições de ensino, falam a língua do corte.

Como disse a este blog o reitor da Universidade Federal do Paraná, Ricardo Marcelo Fonseca, entrar num debate semântico sobre se o orçamento foi 'cortado' ou 'contingenciado' ou numa discussão sobre o percentual que saiu das contas das instituições federais de ensino só esconde um fato bem verdadeiro: no segundo semestre todas vão parar. Diz que nenhuma delas pode funcionar sem contratos de limpeza, vigilância, manutenção, luz e água.

As pautas das manifestações, desta quinta (30), não serão bem recebidas, nem defendidas como legítima expressão social. O problema é que, ao avaliar atos de acordo com o grau de amém que proferem ao poder, o governo deixa claro que quer governar para quem ele vê no espelho. E que ideológicos são sempre os outros.

Não se ignora um elefante dançando na sala de estar. Dessa forma, o governo faz uma concessão aqui, evita mais um corte ali, pede uma desculpa por ter chamado estudantes de "imbecis" – apesar de continuar os tratando dessa forma. Mas não abre uma discussão com a sociedade sobre o bloqueio de verbas no orçamento. Pelo contrário, o ministro da Educação entrega baldes de ironia em audiência na Câmara dos Deputados, buscando lacrar, não dialogar.

Discute-se se os estudantes deveriam ter marcado nova manifestação tão pouco tempo depois da outra, por conta da possibilidade dela ser menor. Muitos dos "idiotas/inocentes úteis", terminologia do Yin Yang bolsonarista, que estão indo para a rua com faixas e cartazes não estão muito preocupados em estratégia e sim demonstrar sua insatisfação. Daí reside o problema: a imprevisibilidade.

Portanto, mesmo não vendo legitimidade em suas pautas, é bom o poder público tratar esse pessoal com respeito. Simbolicamente, fisicamente.

Vale lembrar que, em 14 dias, será o aniversário do sarrafo de policiais e de parte da mídia nos estudantes durante as Jornadas de Junho de 2013. E, mais quatro dias, o aniversário da explosão deles nas ruas, o que ajudou a mudar a cara da política nacional.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.