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Brasil precisa desesperadamente de educação, mas governo a tornou inimiga

Leonardo Sakamoto

08/06/2019 11h24

Protesto contra cortes na educação. Foto: Nacho Doce/Reuters

É desesperador ver um país com mais 13 milhões de desempregados, que não consegue retomar o crescimento, ter a educação – força motriz de qualquer desenvolvimento social e econômico – tratada como inimiga por parte de seu próprio governo. Desde o começo do ano, não temos ministro da Educação e as ações para o setor visam à desconstrução do que décadas de esforço pós-redemocratização possibilitaram sem dizer o que pretende colocar no lugar.

Enquanto isso, talvez querendo vingar a própria ignorância, membros da administração federal transformaram o conhecimento em inimigo – o que se traduz não apenas no desmantelamento da pesquisa e do ensino superior, mas na negação da ciência como ferramenta da administração pública.

Não é que estamos à deriva. A melhor analogia seria a de um barco, com um capitão terraplanista, navegando em um mundo esférico. No final, podemos até chegar ao nosso destino, mas será por um caminho mais longo e penoso, demandando dedicação dobrada por parte do restante da tripulação, deixando mortos e feridos pelo caminho e precisando de muita, mas muita sorte.

Incensado como sensato pelo mercado, o ministro da Economia considera irrelevante indicadores trazidos por uma pesquisa robusta do Censo, avaliando que um dos países mais desiguais do mundo não precisa conhecer a si mesmo para saber onde melhor alocar seu parco orçamento. O ministro da Cidadania prefere acreditar nas deduções simplistas de um passeio pelas ruas do Rio, regadas às suas próprias crenças sobre drogas, do que confiar em estudo realizado por anos e envolvendo centenas de cientistas da Fiocruz, uma das mais renomadas instituições de pesquisa do mundo. E o presidente da República acha que sabe mais de cálculo estatístico de desemprego do que o IBGE.

Na prática, desconfio que ele não entenda direito o que é desemprego. Porque se entendesse a dor por trás de não conseguir trabalhar para sustentar a família, já teria apresentado uma política nacional para geração de emprego e renda. Como sempre digo neste espaço, Jair Bolsonaro não é culpado pela massa de desempregados, oriundas da crise gestada durante o governo Dilma Rousseff. Mas, considerando que agora é presidente, aos poucos vai sendo responsabilizado por contar apenas com a aprovação da Reforma da Previdência para a solução do problema, sem apresentar nada mais. 

Relatei, há pouco, um caso de casas de farinha que foram interditadas no sertão de Pernambuco pela fiscalização. Apesar da cena do menino de três anos descascando tubérculos ter chocado, um rosário de adolescentes de 13, 14, 15 anos, operando máquinas nesta, que é considerada uma das piores formas de trabalho infantil, é o retrato de nossa incompetência em garantir que a escola proteja o futuro.

De acordo com o Censo Escolar 2017, das escolas que oferecem ensino fundamental, menos da metade (41,6%) têm rede de esgoto e 65,8% contam com abastecimento público de água. Em 10% delas, não há ao menos um desses três itens: água, energia ou esgoto. Só 54,3% têm bibliotecas ou salas de leitura e 53,5% acesso à banda larga. Algumas unidades não têm papel higiênico para a criançada se limpar após as necessidades fisiológicas.

Mas o grande problema é "combater o lixo marxista que se instalou nas instituições de ensino", conforme defendeu Bolsonaro.

Sugiro que, antes de combater moinhos de vento, o presidente comece por melhorar a remuneração dos docentes e servidores públicos da educação, garantindo dignidade a eles e suas famílias; aumentar o nível de sua formação e garantir que estejam constantemente atualizados com o que há de mais moderno do ponto de vista didático e pedagógico; implantar atividades de contraturno a fim de elevar o número de escolas em período integral, contratando mais professores e não sobrecarregando os existentes como fizeram alguns estados; conversar com governadores para que jovens que se trancam em suas escolas para protestar contra a falta de merenda e de professores não sejam agraciados com bombas de gás lacrimogênio ou balas de borracha; atuar para aumentar e melhorar as escolas técnicas de nível médio, garantindo formação profissional para que os jovens possam entrar no mercado de trabalho – o que inclui proteger de desidratação entidades como o Senai e o Senac; revisar a Emenda do Teto dos Gastos, que limitou o crescimento dos gastos públicos ao aumento da inflação por 20 anos, guiando nossa educação da insuficiência para a inviabilidade – lembrando que o país universalizou o acesso à educação, mas produz jovens semianalfabetos com diploma de ensino médio. 

Desconfio que se Bolsonaro conseguir fazer tudo isso, perceberá que terá nas mãos uma educação de qualidade com jovens preparados para o salto de produtividade que o país precisa dar e capazes de discernir quando estão tentando enganá-los com discursos doutrinadores que servem para entreter a militância, desviar a atenção da opinião pública e criar uma cortina de fumaça a fim de disfarçar a incompetência dos que os proferem. Da esquerda à direita. Mas parece que ele não deseja isso.

Diante do que foi posto, é desesperador não apenas ver um país com mais 13 milhões de desempregados, que não consegue retomar o crescimento, ter a educação – força motriz de qualquer desenvolvimento social e econômico – tratada como inimiga por parte de seu próprio governo.

É desesperador olhar para o presidente e perceber que isso é seu projeto de país.  

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.