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Às vésperas da Parada do Orgulho LGBT, presidente apela para a homofobia

Leonardo Sakamoto

20/06/2019 12h08

Presidente Jair Bolsonaro em coletiva à imprensa em Guaratinguetá (SP), nesta sexta. Foto: Reprodução

Jair Bolsonaro usou uma bizarra teoria da conspiração sem fundamento aliada a uma declaração homofóbica como ferramenta de gestão de crise de seu governo. Ironicamente, a 23ª Parada do Orgulho LGBT, um dos maiores eventos do gênero em todo o mundo, será realizada neste domingo (23), em São Paulo, e traz como tema a celebração da luta desse grupo contra o preconceito de agentes públicos.

Desta vez, o presidente da República afirmou, durante uma coletiva à imprensa em Guaratinguetá (SP), nesta quarta (19), que o jornalista Glenn Greenwald, diretor do Intercept, seu companheiro, o deputado federal David Miranda, e o escritor Jean Wyllys fazem parte de uma trama para atingi-lo. Ele se referiu ao ex-deputado federal, que também é gay, como "menina" que "tá lá fora do Brasil". Jean decidiu sair do país devido às ameaças de morte que recebia.

Bolsonaro fez as declarações durante um desagravo ao seu ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro.

"Esse pessoal, daquele casal né, aquele casal lá, um deles inclusive teve detido na Inglaterra, há pouco tempo, por espionagem, o outro aqui tem suspeita de vender, suspeita de vender o mandato, e a outra menina, namorada de outro, tá lá fora do Brasil. É trama para… atacam quem tá do meu lado para tentar me atingir. Vão quebrar a cara, podem procurar outro alvo, esse já era. O Sérgio Moro é nosso patrimônio." O repórter Pedro Durán, da rádio CBN, registrou em vídeo a coletiva e o postou em sua conta no Twitter.

Bolsonaro reproduz, dessa forma, uma mentira que circula há tempos na internet e foi impulsionada recentemente por robôs e seus seguidores nas redes sociais, afirmando que David Miranda, que era suplente do PSOL no Rio de Janeiro, teria comprado o mandato de Jean Wyllys, com recursos pagos por Glenn Greenwald, mas origem de bilionários russos. A teoria conspiratória foi repercutida pelo apresentador Ratinho, durante a entrevista que fez com o juiz Sérgio Moro em seu programa, como registrou o jornalista Maurício Stycer.

Não é a primeira vez que Bolsonaro, já como presidente, repercutiu mentiras contra jornalistas. Um dos casos mais conhecidos foi a reprodução, através de sua conta no Twitter, de uma notícia falsa contra Constança Rezende, do jornal O Estado de S.Paulo, atribuindo a ela uma falsa declaração em que atacaria seu filho Flávio. Isso levou a ameaças contra ela e seus familiares.

A partir do momento em que Jair Bolsonaro compartilha informações falsas ou não comprovadas torna-se corresponsável por qualquer ataque, ameaça e agressão contra as pessoas envolvidas. Isso já seria inaceitável vindo de um hater anônimo nas redes sociais, mas partindo do principal funcionário público do país é um caso que deveria ser analisado pela Procuradoria-Geral da República.

O presidente da República não pode usar a posição privilegiada em que está para ir contra a integridade física e psicológica de qualquer cidadão, fazendo com que seus seguidores transformem em um inferno a vida das pessoas que o desagradam. Por mais que diga que não ordena ataques a ninguém, a sobreposição de suas postagens à sua legião de seguidores serve como justificativa para tanto, declarações que alimentam a intolerância, que depois é consumida por fãs malucos ou inconsequentes.

Ele que reclama, com razão, de pessoas que questionam a veracidade de um atentado contra sua vida, como o próprio ex-presidente Lula fez em recente entrevista, deveria repensar antes de espalhar boatos que transformam a vida dos outros em um inferno. Porque sabe o que significa se acusado de algo do qual não é responsável.

Como já disse aqui, ações como essa têm o objetivo de fomentar um estado de apreensão constante, fundamental para que a base do bolsonarismo mantenha-se coesa e orientada a ficar firme nas guerras cultural e política. Neste caso, a meta é atingir Glenn Greenwald e desacreditar as reportagens do Intercept Brasil, que têm revelado diálogos envolvendo personagens da Lava Jato. O efeito colateral de bombar mentiras e conspirações é a democracia sendo maltratada diante de nossos olhos pelas mãos daquele que jurou defendê-la.

A "Parada do Orgulho LGBT" deste ano terá como tema "50 anos de Stonewall". Em junho de 1969, policiais invadiram o bar Stonewall, em Nova York, frequentado pelo público LGBTTQ sob o pretexto de que vendiam bebidas sem licença. Os clientes do lugar se rebelaram e os protestos contra homofobia, bifobia e transfobia duraram dias. Isso faz meio século, mas parece que foi ontem.

De certa forma, compreende-se a razão do presidente ter sido tão crítico à decisão do Supremo Tribunal Federal que, diante da demora do Congresso Nacional, ordenou que a homofobia fosse equiparada ao crime de racismo. Com base em declarações como a desta sexta, ele parece ter atuado em causa própria.

Post atualizado às 9h25 do dia 21/06/2019 para correção de informação: dia 19 foi quarta e não sexta-feira.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.