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Líder evangélico critica silêncio após Bolsonaro imitar arma em ato cristão

Leonardo Sakamoto

22/06/2019 17h31

Foto: Jales Valquer/Framephoto/Estadão Conteúdo

"A cena de Bolsonaro fazendo gesto de arma [na Marcha para Jesus] mostra o tamanho da cegueira, da hipnose coletiva, que tomou conta de enorme e esmagadora parte do movimento evangélico neste país." A análise é de Ricardo Gondim, pastor, teólogo, escritor, presidente da Igreja Betesda e do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos, ao blog.

Durante a Marcha para Jesus, que reuniu, segundo os organizadores, 3 milhões de pessoas, em São Paulo, nesta quinta (20), o presidente da República defendeu seus decretos que facilitam o porte de armas de fogo e a compra de munição. "A bandidagem está muito bem armada por aí", disse em uma coletiva a jornalistas. Antes, ainda no palco do evento, o presidente simulou armas com as mãos – gesto que virou sua marca registrada.  

Gondim está em Dortmund, na Alemanha, para falar em evento do 37o Dia da Igreja Protestante Alemã (Deutsche Evangelische Kirchentag). O encontro, um dos mais importantes do protestantismo, criado por cristãos da igreja confessional que foram resistência religiosa ao nazismo, reúne a cada dois anos líderes espirituais, políticos, intelectuais de todo o mundo. Neste ano, o tema é da confiança em tempos de polarização. Veja sua análise:

Como você viu a imagem do presidente da República fazendo o gesto de armas com as mãos em meio à sua participação na Marcha para Jesus?

Com grande preocupação. Não apenas chocado com Bolsonaro não respeitar um espaço em que a cena não caberia, mas das pessoas que promovem aquele espaço não se sentirem agredidas e aviltadas que alguém fizesse aquele gesto ali. É uma incoerência em nome de Jesus, em nome da fé, em nome dos evangélicos na Marcha para Jesus. Na verdade, não é uma Marcha para Jesus, mas uma marcha que usa Jesus para uma plataforma política de poder e de negociação muitas vezes fisiológica de interesses da própria comunidade.

Como liderança evangélica, como analisa isso?

Em estados totalitários, em situação de autoritarismo, as pessoas estão dispostas a negociar a sua liberdade em nome da segurança. Essa é uma das características de Estados totalitários, principalmente o fascismo, em que se navega pelas águas do medo. Acredito que no movimento evangélico há pessoas dispostas a negociar a vida, os direitos humanos, a compreensão da dignidade, em nome do moralismo. É impressionante como o moralismo consegue ser uma panaceia para cobrir todas as outras grandes agendas. Dificilmente você ouvirá um desses pastores defender direitos humanos, direitos de indígenas, direitos de populações em situação de riscos quaisquer que sejam elas, como LGBTT e pessoas em situação de rua. Mas eles estão dispostos a defender o moralismo, defender essa agenda hipócrita.

Por quê?

Porque moralismo não precisa de coerência de vida, basta o discurso, basta o clichê. E a cena de Bolsonaro fazendo gesto de arma mostra o tamanho da cegueira, da hipnose coletiva, que tomou conta de enorme e esmagadora parte do movimento evangélico neopentecostal e carismático neste país.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.