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Após 6 meses de forte desemprego, Bolsonaro percebeu que "temos problema"

Leonardo Sakamoto

28/06/2019 09h18

Bolsonaro se irrita com jornalistas em entrevista coletiva no Japão. Imagem: Reprodução

O Brasil fechou o trimestre de março a maio deste ano com 13 milhões de desempregados. A taxa de desocupação de 12,3% ficou estável em relação ao trimestre anterior, de dezembro de 2018 a fevereiro de 2019 (12,4%). Mas a população subutilizada bateu novo recorde da série histórica iniciada em 2012: 28,5 milhões (25%). Isso representa 744 mil pessoas a mais que no trimestre anterior e é um contingente 1,066 milhão maior que o do mesmo período há um ano.

O contingente subutilizado é calculado somando desempregados aos subocupados (que poderiam trabalhar mais horas e não conseguem), os desalentados (que desistiram de procurar trabalho) e um grupo que não consegue procurar emprego por vários motivos.

A população ocupada passou de 91,8 para 92,9 milhões na comparação entre os dois últimos trimestres. A taxa de desemprego não caiu na mesma proporção, contudo, porque pessoas que estavam fora da força de trabalho voltaram a procurar serviço – esse é o problema de uma economia que sai da recessão, mas não cresce na velocidade necessária. Desses novos postos, 322 mil foram pessoas trabalhando por conta própria, 309 mil informais, ou seja, sem carteira assinada e sem garantia de direitos trabalhistas. Essas duas categorias ajudam a explicar o aumento da população subutilizada.

O número de empregados no setor públicos também cresceu 264 mil.

Paralelo a isso, o rendimento médio real (R$ 2289,00) caiu 1,5% frente ao trimestre anterior (R$ 2323,00) e é ligeiramente menor que o do mesmo período no ano passado (R$ 2292,00). Os números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) Contínua, do IBGE, divulgados nesta sexta (28), mostram que o país sob Bolsonaro está em compasso de espera.

À espera do quê? Talvez nem ele saiba, como também não sabem os 4,9 milhões em situação de desalento – que desistiram de procurar emprego porque sabem que não vão encontrar. A questão é que Bolsonaro é presidente da República e sua função é dar respostas e apontar caminhos. Ou seja, ainda estamos na lama.

Em uma live no Facebook, direto de Osaka, no Japão, onde está para a reunião do G20, o clubão dos países mais ricos, o presidente afirmou que "a economia não vai bem" ao comentar o resultado do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), tornado público nesta quinta. Maio fechou com a criação de apenas 32.140 vagas formais, o pior resultado para o mês desde 2016.

"Reconheço que temos problema", disse.

Não é necessário entender de economia (ele adora deixar claro que não entende), nem de administração pública para chegar à mesma conclusão do mandatário brasileiro. Basta passar à noite pelo centro de grandes cidades e verificar o aumento da população em situação de rua arranjando um canto para dormir. Ou constatar as filas quilométricas quando são abertas vagas de empregos com baixa remuneração. Ou perceber que há mais pessoas vendendo comida como ambulantes nas vias públicas, não por desejo de empreender, mas por falta de oportunidades.

O pior termômetro da vulnerabilidade econômica das famílias, contudo, veio do grupo especial de fiscalização do governo federal, que verifica denúncias de trabalho escravo. Desde janeiro até 12 de junho, ele retirou 27 crianças e adolescentes do trabalho escravo ou de atividades relacionadas na Lista de Piores Formas de Trabalho Infantil. A quantidade era próxima do total que foi encontrado em todo o ano passado (28), não apenas pelo grupo especial, mas por toda fiscalização no Brasil. Filhos de famílias pobres acabam empurrados para trabalhos de risco em momentos de dificuldade.

Bolsonaro disse também que quem cria emprego é a iniciativa privada e o trabalho dele é "não atrapalhar", movendo o corpo para fora da zona de responsabilidade. E repetiu que a melhora da economia e do emprego passam pela aprovação da Reforma da Previdência. Mas só isso não será suficiente para aquecer o consumo interno, aumentar investimentos públicos e privados, capacitar mão de obra, transmitir confiança e fazê-la circular.

 

Desde que se lançou como candidato à Presidência da República, Bolsonaro não mostrou uma proposta decente para a geração de postos de trabalho. Entregou a um economista neoliberal a construção desse projeto ao diluir o Ministério do Trabalho no Ministério da Economia e, até agora, seu subordinado também não trouxe nada que se assemelhe a um plano de emprego.  Mas vem mostrando cada vez mais um humor parecido com o do chefe, esbanjando arrogância no trato com o Congresso Nacional.

De janeiro até junho, a aprovação de Bolsonaro caiu de 49% para 32% e a reprovação disparou de 11% para 32%. A pesquisa CNI/Ibope, divulgada nesta quinta, além desses números também mostrou que 55% dos entrevistados desaprovam como o governo combate o desemprego. Considerando que não mostrou nada consistente até agora, esse número – ao contrário da geração de postos de trabalho –  apresenta tendência de alta.

Bolsonaro aposta tanto que a Reforma da Previdência vai destravar a economia e gerar empregos na velocidade que o país precisa que deveria colocar o cargo à disposição se isso não acontecer. Afinal, qual o objetivo de seguir na função se não consegue entregar aos brasileiros o que eles desesperadoramente pedem? Ficar para defender o fim da cadeirinha de bebê, da tomada de três pinos e do horário de verão? Liberar as armas, o desmatamento, a pesca irregular? Vídeo de golden shower não enche a barriga.

No mês passado, em declaração dada a repórteres durante viagem que faz a Dallas, nos Estados Unidos, o presidente afirmou que há milhões de trabalhadores desempregados "que não têm como ter emprego porque o mundo evoluiu" e eles "não estão habilitados a enfrentar um novo mercado de trabalho". Também disse: "Tenho pena, tenho. Faço o que for possível, mas não posso fazer milagre, não posso obrigar ninguém a empregar ninguém".

Como escrevi na época, ele não precisa ter pena, muito menos obrigar alguém, até porque empregar não é um favor, mas um negócio de compra e venda de força de trabalho em nome de salário e lucro. Mas o governo deve fazer sua parte e não apenas apostar suas fichas nas reformas e privatizações de estatais.

Bolsonaro herdou um problema de seus antecessores, mas o tempo das desculpas está acabando. Vai chegar o momento em que será instado a mostrar que sabe apontar soluções eficazes ou entregar a tarefa a quem saiba. Por enquanto, sua briga com a estimativa do IBGE, que ele considera equivocada, é apenas bizarra – típico de quem ataca o termômetro por não saber lidar com as causas da febre. Em breve, esse tipo de comportamento ficará insustentável.

Post atualizado às 14h33, do dia 28/06/2019, para inclusão de mais informações da PNAD Contínua.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

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