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Protestos pela Lava Jato bombam culto à personalidade de Moro

Leonardo Sakamoto

30/06/2019 17h40

Foto: Adriano Machado/Reuters

O general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, chamou o ex-juiz e hoje ministro Sérgio Moro de "herói nacional", durante ato em defesa da Lava Jato, em Brasília, neste domingo (30). Não é a primeira vez e, provavelmente, não será a última que ele faz isso.

Particularmente, discordo do general. Heróis não recebem auxilio-moradia. Não são chamados de "doutor", nem ficam irritados se interpelados. Não encaram a si mesmos como infalíveis, pois sabem que esse julgamento não lhes cabe, mas à História. Pedem desculpas, reconhecem seus erros, creem que são menos do que são e não o contrário.

Ao ser transformado em símbolo de algo maior por uma parcela da sociedade, uma figura pública acaba sendo alvo da projeção de muitas qualidades e de nenhum defeito. Construção que, ocorrendo de forma espontânea ou dirigida, acaba tornando a pessoa, mais do que referência em uma certa área, um repositório de tudo o que é bom. O processo acaba por produzir santos. E as regras para os santos são diferentes. Eles podem subverter as leis dos seres humanos em nome do bem maior, mesmo que, ao fazer isso, sejam tão questionáveis quanto o mal que afirmam querer liquidar.

Claro que a construção desses mitos, não raro, passa pela ação da própria pessoa – atendendo ao seu desejo de poder ou por pura vaidade. "Eu vejo, eu ouço", tuitou Moro neste domingo de protestos. A declaração, como bem lembrou a rádio Jovem Pan, faz referência à passagem do livro de Êxodo, em que diz que Deus estava acompanhando o sofrimento dos judeus no Egito. Que, por um acaso, era seu povo escolhido entre todos na Terra.

O Êxodo tem pragas e recompensas, leis e punições, e um povo sofrido e humilhado que não é libertado por sua própria ação, mas que precisa de um líder que o retire da escravidão – ação que conta com intervenção divina. Faz mais sucesso, portanto. Mas sabedoria mesmo, desde o começo, está no livro de Eclesiastes. Já no capítulo 1, versículo 2, que deveria ser ensinado na pré-escola, ele joga a real: "vaidade de vaidades, tudo é vaidade".

Na manifestação da avenida Atlântica, no Rio, uma faixa dizia a Moro: "O senhor nos livrou das trevas", segundo registro da Folha de S.Paulo. O senhor não era o Deus cristão, mas o então juiz federal. Mais explícito, impossível. 

Quando um servidor público, que foi alçado à categoria de herói e está no caminho da "canonização", é chamado a prestar esclarecimentos, seus fiéis encaram isso não como uma discussão sobre falhas de um indivíduo, mas como um ataque ao conjunto dos valores que o herói, o mito, o santo teria passado a representar. Questioná-lo, portanto, equivale, a colocar em dúvida as crenças pessoais dos que o seguem cegamente. Dessa forma, muita gente age como cão de guarda da biografia alheia, interditando qualquer debate, inclusive os saudáveis, que envolvem seus ídolos em nome dos fatos.

O catador de material reciclável Luciano Macedo foi assassinado, em abril, ao tentar ajudar a família do músico Evaldo Santos Rosa, executado quando seu carro foi alvejado mais de 80 vezes por militares, no Rio – eles teriam sido confundidos com bandidos, mas estavam indo a um chá de bebê. Luciano estava com a esposa, grávida de cinco meses, catando madeira para construir um barraco e garantir um teto aos três. Viram o desespero da família e ele foi ao seu socorro para retirá-los do carro.

Como escrevi na época, não importa como Luciano viveu, mas como morreu. Viveu à margem da sociedade, morreu herói. Mas não houve glamour midiatizado em seu sacrifício. Era um negro tentando salvar outros negros. Se ele tivesse torturado alguém, seria chamado de herói. No ano passado, o então candidato à vice-presidência Hamilton Mourão disse que "heróis matam" ao falar do finado torturador Brilhante Ustra. O próprio Bolsonaro divide a opinião com Mourão.

Se Luciano fosse juiz, militar ou político seria chamado de herói. Mas não se encaixava no perfil exigido para o panteão. Era muito, digamos, comum.

Ao final, cada sociedade merece os heróis que constrói para si.

E, como também já escrevi aqui, quando percebermos que os grandes exemplos e as histórias que realmente inspiram estão ao nosso lado e não acima de nós, o país vai deixar de acreditar na fábula de que precisa de alguém que o salve.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.