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Seis meses depois, Bolsonaro não entendeu o emprego

Leonardo Sakamoto

01/07/2019 17h55

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Passaram-se seis meses e Bolsonaro ainda não entendeu o emprego. Nem o dele, nem aquilo que é o desejo de quase 13 milhões de pessoas.

Centenas de milhares conseguiram trabalho desde o início do ano, mas a esmagadora maioria são postos informais ou serviços por conta própria, ganhando menos, sem direitos. Temos 28,5 milhões de subutilizados. E o Brasil precário se avoluma.

Pressionado a apresentar propostas para a geração de postos de trabalho formais, o presidente respondeu que quem cria emprego é a iniciativa privada e sua função deve ser "não atrapalhar", desviando totalmente da responsabilidade.

Não é isso o que pensa a população, contudo. De acordo com a última pesquisa Ibope, 55% dos entrevistados desaprovam como sua gestão combate o desemprego. Essa é uma das razões que levaram a reprovação de seu governo saltar de 11% para 32%, de janeiro a junho.

Ele também tentou culpar o avanço tecnológico, que deixaria analfabetos digitais para trás. Segundo ele, há milhões de desempregados "que não têm como ter emprego porque o mundo evoluiu" e eles "não estão habilitados a enfrentar um novo mercado de trabalho". Simples assim.

"Tenho pena? Tenho. Faço o que for possível, mas não posso fazer milagre, não posso obrigar ninguém a empregar", disse o presidente. O argumento é intelectualmente indigente, uma vez que governos têm a obrigação de criar ambientes propícios para o crescimento econômico e a geração de postos de trabalho.

Bolsonaro vê a abertura de vagas como um favor por parte do patrões e não como um processo econômico em que ganham empregadores e trabalhadores. Tanto que, no Primeiro de Maio, fez um pronunciamento à nação para afagar empresários e não dirigiu uma palavra aos desempregados. A vida tá difícil para quem toca um negócio. Para quem não tem nada, então…

Tudo isso vai ao encontro de um de seus bordões, repetidos à exaustão desde a campanha eleitoral: "o trabalhador vai ter que decidir se quer menos direitos e emprego, ou todos os direitos e desemprego". Essa relação tende a ser binária apenas em matrizes de pensamento simplistas ou insensíveis, que excluem a possibilidade de um empregado produzir mais riqueza quando está sob condições saudáveis.

Não à toa, o governo Bolsonaro decidiu alterar as Normas Regulamentadoras, 37 conjuntos de regras adotados por empregados e empregadores para proteger a saúde e a segurança de todos. Vão desde cuidados para evitar acidentes com máquinas (NR-12) até a interdição de um local de trabalho em caso de grave e iminente risco (NR-3). Um manifesto com 63 coordenadores de fiscalização do trabalho de todo o país alertou que uma revisão à toque de caixa pode significar perdas para o lado mais fraco.

Ao mesmo tempo, seu governo tem insistido na criação de uma categoria de trabalhadores que estaria sujeita a menos proteção que as demais, com uma carteira de trabalho "verde e amarela" no lugar da azul. Ela representaria um contrato em que o empregador é liberado do cumprimento da CLT, bastando para isso a concordância do candidato a uma vaga. Que, no desespero, aceitará qualquer coisa. Seria voltada aos mais jovens que estão entrando o mercado de trabalho e preparara terreno para o sistema de capitalização na Previdência Social.

Para muitas pessoas, quanto mais liberdade se dê ao empreendedor mais nos aproximamos do fim de uma suposta tutela do Estado sobre os trabalhadores. Contudo, o atual ambiente não é de estímulo ao empreendedorismo, mas de cristalização da precarização do trabalho. Além disso, nem todos desejam ou podem empreender, preferindo ser assalariados, trabalhando naquilo que aprenderam e sabem fazer bem. Neste caso, o que fazer? Esperar um próximo governo com um plano específico de geração de emprego e renda?

Em uma recente live, realizada enquanto estava na reunião do G20 no Japão, Bolsonaro disse que a "a economia não vai bem" ao comentar o resultado do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Maio fechou com a criação de apenas 32.140 vagas formais, o pior resultado para o mês desde 2016. "Reconheço que temos problema", disse.

Esperemos que não leve mais seis meses para ele propor um programa nacional capaz de ajudar a resolver esse problema.

Pela enésima vez neste espaço, vou dizer que concordo com Bolsonaro quando ele afirma que não tem culpa pelo alto patamar de desemprego. Mas por enquanto. Afinal, apenas uma pequena parcela de brasileiros vai continuar aceitando que "tudo é culpa do PT" e viver feliz para sempre com um governo que fala o tempo todo, mas nada propõe.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.