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Cruzada por armas prova que Jair Messias governa só para seu Povo Escolhido

Leonardo Sakamoto

04/07/2019 16h13

Bolsonaro ensina criança a imitar uma arma, durante agenda eleitoral em Goiânia. Foto: Reprodução

Apesar de defendida com unhas e dentes por Bolsonaro, a facilitação do porte de armas de fogo é condenada por 73% dos moradores da capital paulista, de acordo com pesquisa Ibope encomendada pela Rede Nossa São Paulo. No mês passado, outro levantamento do mesmo instituto apontou que 73% dos brasileiros também eram contrários a essa flexibilização. E, em abril, o Datafolha mostrou que 72% dos entrevistados acreditavam não estarem mais seguros com mais pessoas armadas para se proteger.

Ao tentar impor por decreto algo que é rejeitado pela imensa maioria da população sem uma ampla discussão legislativa, Bolsonaro mostra que não quer governar para a sociedade brasileira, mas segue preocupado em atender o desejo da parcela mais radical de seus eleitores. Acredita que sua estabilidade reside neles e em sua capacidade de ocuparem ruas e redes todas as vezes que seu líder for criticado ou sentir-se ameaçado. Alimenta, dessa forma, uma campanha eleitoral sem fim rumo a 2022 – e além.

"Peço aos senhores que, com muito carinho e respeito que vocês têm com o que votam na Câmara, vejam essa questão do armamento e tomem a decisão mais acertada", pediu o presidente à bancada ruralista nesta quinta (5). O termo usado foi esse mesmo "armamento", sem medo de ser feliz. Também afirmou: "arma é instrumento que garante liberdade e democracia de todo país. Todo governo que desarma seu povo está mal-intencionado".

Isso remete a outro de seus discursos. Em um evento do Exército, em Santa Maira (RS), em junho, sugeriu que o povo pegasse em armas em nome de sua visão de democracia ao invés de defender a lei. Parlamentares e entidades da sociedade civil questionaram se isso não equivale à defesa da formação de milícias para proteger uma "República Bolsonariana", plagiando a Venezuela. Em um país com uma democracia saudável, a sociedade teria um revertério ao ouvir esse tipo de coisa. Por aqui, a declaração pega uma senha e entra na fila dos absurdos cotidianos.

Se estivesse atendendo ao desejo da maioria da população, Bolsonaro não estaria buscando formas de armar o povo, mas debruçado na construção de uma política nacional para fomentar a geração de postos formais de trabalho. Contudo, em sua estranha visão de gestão pública, o presidente disse que sua função é apenas "não atrapalhar" a iniciativa privada, uma vez que ele não pode fazer "milagre". Indução de crescimento via política pública? Sumiu, ninguém sabe, ninguém viu.

Messias continua dedicado a atender os diferentes grupos que compõem o seu Povo Escolhido. Nesta quarta, interveio na discussão da Reforma da Previdência para tentar proteger a categoria de agentes de segurança pública – coisa que ele não fez por mais ninguém. Esqueceu-se que é presidente da República e que deveria tratar todos os cidadãos como iguais e não agir como lobista de uma categoria. O mesmo se aplica ao seu desejo incontrolável de entregar armas à população a fim de atender àqueles que, há anos, gritam "mito".

Ironicamente, policiais e militares honestos também são vítimas da violência do tráfico, das milícias, de policiais e militares desonestos, do preconceito de uma parte da população que espera que cumpram o papel de capitães do mato. Eles também serão prejudicados quando civis porcamente treinados tiverem as armas roubadas, alimentando o mercado ilegal e a criminalidade. Armas que, depois, vão atingir policiais honestos e cidadãos.

Ao invés de agir como garoto-propaganda de fabricante de armas e pegar carona na diminuição dos números de violência trazidos pelo governo anterior e por governos estaduais, Bolsonaro poderia responder algumas questões.

Quais as formas de usar e integrar a inteligência policial para articular bloqueios de bens de criminosos ou o comércio ilegal de armas? Como tornar efetiva a punição caso seja constatado o envolvimento de policiais e militares em delitos? Como investigar os negócios dos milicianos e desarticulá-los, uma vez que é improvável que ocorra confrontos territoriais com a polícia? Dar mais voz aos agentes de segurança honestos para que ajudem a encontrar soluções em parceria com as comunidades é possível? Como desmilitarizar a força policial, mudando sua formação, melhorando seus salários e suas condições de trabalho? E, claro, onde está o Queiroz?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.