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Bolsonaro cita rota de genocídio indígena como exemplo de preservação

Leonardo Sakamoto

07/07/2019 21h47

Aldeira em território Waimiri-Atroari. Foto: Raphael Alves/TJAM

Ao comentar as declarações do papa Francisco e de líderes europeus sobre a necessidade de proteger a Amazônia e seus povos, Bolsonaro fez um discurso, neste sábado (6), que nasceu antológico. Primeiro, mostrou mais uma vez suas fixações sexuais ao dizer que "o Brasil é uma virgem que todo tarado de fora quer". Depois, destilou uma sequência de teorias conspiratórias sobre a transformação de territórios indígenas em países independentes – demonstrando uma paranoia que não cabe nem em um ativista do terraplanismo, quanto mais em um presidente da República.

E chegou atrasado ao tratar da "internacionalização" da Amazônia, uma vez que isso já aconteceu. Não por indígenas ou sociedade civil, mas por empresas nacionais e transnacionais que conectaram a região ao capitalismo global, tornando-a produtora de matérias-primas e alimentos para o Brasil e o mundo. O problema é que essa conexão, não raro, foi feita a ferro e fogo e a produção, muitas vezes, ocorre com base em grilagem de terras, desmatamento ilegal, contaminação de rios, execução e expulsão de populações tradicionais, trabalho escravo.

O presidente disse que respondeu devidamente os líderes da Alemanha e da França, durante reunião do G-20: "convidei-os a voar de Boa Vista a Manaus. Se encontrarem um hectare de devastação de terra, aí eles têm razão. Agora me convide para voar na Europa. Se tiver um hectare de floresta, voces têm razão".

O Brasil realmente tem muito mais área de floresta que a Alemanha e uma matriz energética mais limpa, mas não graças à visão política compartilhada por Bolsonaro. Aliás, por conta da política ambiental do atual governo, já estamos perdendo essa posição de destaque. Contudo, se o presidente olhar da janelinha do avião na próxima vez que sobrevoar esse país europeu, verá um terço de seu território coberto por florestas. Então, um conselho: não faça apostas.

Agora, caso ele convide chefes de Estado estrangeiros para voar de Boa Vista a Manaus, seria bom se lembrar que, naquela rota, ocorreu uma ação genocida contra o povo Waimiri-Atroari, que vive entre Roraima e o Amazonas. Durante a ditadura militar, que Bolsonaro tanto defende, milhares de indígenas foram executados em nome da implementação de grandes projetos na região.

Relatos colhidos de sobreviventes em uma ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal (MPF), por exemplo, contam que helicópteros sobrevoaram aldeias derramando veneno e detonando explosivos sobre centenas de indígenas reunidos para celebração de rituais de passagem. Depois disso, ataques a tiros, esfaqueamentos e degolas violentas praticadas por homens brancos fardados contra adultos e crianças sobreviventes. Tratores passaram, na sequência, destruindo tudo.

O MPF cobra que o Estado brasileiro assuma sua responsabilidade, adote medidas de reparação e de indenização pelas violências cometidas contra a etnia entre os anos 70 e 80. Sim, ainda estamos em débito com eles.

"Um dos depoimentos mais fortes apresentados à Justiça na audiência foi prestado por um que sobreviveu, quando adolescente, a um ataque aéreo e terrestre contra uma aldeia localizada nas proximidades do traçado da rodovia BR-174. Ele relatou que os indígenas ouviram muito barulho vindo de cima e não sabiam do que se tratava. Pouco tempo depois, começaram a sentir muito calor no corpo, não conseguiam mais andar e ficaram todos "muito doentes", em decorrência de veneno jogado do alto. Ele contou ainda que, depois que se ver praticamente sozinho em meio aos corpos de seus pais e irmãos e dos demais indígenas presentes, testemunhou homens brancos entrarem na aldeia por terra, armados com facas e revólveres", afirma nota divulgada pelo MPF.

Além dos ataques, as obras para a abertura da rodovia BR-174, ligando Manaus a Boa Vista e à Venezuela, levaram doenças para a população kinja (como eles se identificam). Muitos morreram sem apoio e a rodovia se tornou vetor de ocupação do Estado de Roraima. O relatório da Comissão Nacional da Verdade afirma, com base em dados oficiais, que houve uma redução de 3 mil, nos anos 70, para 332 indígenas nos 80.

Sobrevoando esse trajeto, o presidente e convidados não vão achar um hectare. Encontrarão uma estrada inteira.

E se esperarem, verão outros desmatados para a instalação de um linhão de transmissão de energia elétrica, decidido pelo atual governo. Os indígenas não são contra a obra, apenas querem ser ouvidos sobre a construção e o traçado (o que não aconteceu ainda, apesar de ser direito previsto pela convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, da qual o país é signatário), além de serem devidamente indenizados. 

Essa conexão Manaus a Boa Vista foi uma das piores escolhas de exemplos que ele poderia dar. Resta a dúvida se o presidente pinça esses casos de propósito, a fim de tripudiar de indígenas, ou ele realmente desconhece a história e simplesmente repetiu o que ouviu algum assessor dizer. Em ambos os casos, a vergonha pode ser dele, mas o azar é nosso.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

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