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General Heleno chama Moro de Batman, o herói das sombras que atropela a lei

Leonardo Sakamoto

09/07/2019 02h07

Batman e Bolsonaro em Copacabana em 2014. Foto: Murilo Rezende/Futura Press/Folhapress

Foi interessantíssimo o general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, associar seu colega e ex-juiz federal Sérgio Moro à figura do Batman – e não ao Super-Homem, como os bonecos infláveis em protestos gostam de afirmar. Associação inconsciente, presumo, uma vez que poucos personagens das graphic novels são tão polêmicos quanto o Homem-Morcego. Na zona cinzenta entre um herói e um vigilante justiceiro que opera nas sombras e fora da lei, ele conta com uma legião de abnegados fãs – como o ministro da Justiça.

"Um homem desses ser colocado na parede por gente que tem pavor dele? O cara quando ouve falar em Moro quer morrer, né? Aquilo ali é o símbolo do Batman contra o Coringa. E os caras querem ver o Batman na parede", afirmou o general em um evento com empresários em Belo Horizonte.

A comparação gera vários desdobramentos. Batman é um dos personagens psicologicamente mais complexos da DC Comics, com sérias questões internas a resolver. A psicóloga norte-americana Robin Rosenberg, formada pela Universidade de Nova York, com doutorado em Psicologia Clínica pela Universidade de Mayland, é autora do livro "What's the Matter with Batman? An Unauthorized Clinical Look Under the Mask of the Caped Crusader" (Qual é o Problema com o Batman? Um olhar clínico não autorizado sob a máscara do Cruzado de Capa). O livro foi lançado em 2012 na Comic-Con em San Diego, nos EUA.

Entre os quadros clínicos que ele poderia ser associado, ela enxerga o Transtorno de Personalidade Antissocial. De acordo com Rosenberg, Bruce Wayne espiona e invade. Resolve problemas por conta própria, perseguindo e atuando de forma ilegal. Mas não age dessa forma por prazer, como um psicopata, mas por acreditar estar em uma missão de prender criminosos. E tem que cumpri-la, custe o que custar. Sugiro a matéria de Diego Assis, para o UOL, para saber mais sobre o livro.

Um jornalista que trabalha na área de entretenimento de um veículo especializado contou ao blog que os conteúdos sobre Batman estão entre os mais lidos entre os heróis, bem mais do que os do próprio Super-Homem – um dos primeiros produtos a ter uma revista com seu próprio nome na década de 1930, personagem cuja trajetória foi construída em cima da história cristã do pai que entrega seu único filho para salvar a Terra.

Da mesma forma, no universo Marvel, o caído Wolverine/Logan é uma personalidade muito mais interessante que o bonzinho Ciclope/Scott Summers. Se o Batman for os de The Dark Knight Returns, de Frank Miller, The Killing Joke, de Alan Moore, e Arkham Asylum, de Grant Morrison, os personagens descem aos nossos porões mais sombrios.

Alguém de poder que faz Justiça do seu próprio jeito, adotando uma moral na qual o fim justifica os meios, é um sucesso de público e de audiência. Na ficção, mas também na vida real.

As conversas reveladas entre Sérgio Moro e os procuradores da força tarefa da Operação Lava Jato estão sendo trazidas a público pelo site The Intercept Brasil sozinho ou em parceria com outros veículos de comunicação. Os envolvidos adotam uma justificativa quântica, em que mensagens são verdade e mentira ao mesmo tempo. Dizem que podem ter sido adulteradas e não as confirmam mas, caso fossem verdade, não veriam nelas problema algum.

Pesquisa Datafolha apontou que 58% dos brasileiros consideram que a conduta de Moro foi inadequada, enquanto apenas 31% a aprovam. A mesma quantidade (58%) considera que, confirmados os diálogos, as decisões do então juiz deveriam ser revistas. Mesmo assim, 54% acreditam que a condenação de Lula foi justa, diante de 42% que a veem como injusta. Para 54%, Sérgio Moro deve continuar como ministro, enquanto 38% defendem que ele saia.

Ou seja, não é desconhecimento de suas atividades. Mas a indicação de que uma parte significativa da sociedade as vê como um mal necessário.

O general Augusto Heleno chamou Sérgio Moro de "herói nacional", durante ato em defesa da Lava Jato, em Brasília, no dia 30 de junho. Enquanto isso, Moro tuitava como uma entidade durante os protestos: "Eu vejo, eu ouço". A declaração, como lembrou a rádio Jovem Pan, faz referência à passagem do livro de Êxodo, em que diz que Deus estava acompanhando o sofrimento dos judeus, seu povo escolhido, no Egito.

Quando um servidor público, promovido à categoria de herói e no caminho da "canonização", é chamado a prestar esclarecimentos, seus fiéis encaram isso não como uma discussão sobre falhas de um indivíduo, mas como um ataque ao conjunto dos valores que ele, o herói, o mito, o santo, teria passado a representar. Questioná-lo, portanto, equivale, a colocar em dúvida as crenças pessoais dos que o seguem cegamente.

Dito tudo isso, seria interessante ver um inflável de Batman ao invés de Super-Homem no próximo culto coletivo à personalidade de Moro. Não resolveria coisa nenhuma, mas escancararia as contradições.

Em tempo: Harvey Dent, o Duas-Caras, era promotor de Justiça, tanto nas revistas, quanto no filme Cavaleiro das Trevas.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

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