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Embaixada para Bolsonaro lembra que a meritocracia é hereditária no Brasil

Leonardo Sakamoto

13/07/2019 00h08

Será que o presidente da República confia tão pouco em pessoas fora de seu próprio sangue para não encontrar outra capaz de executar a tarefa de ser embaixador nos Estados Unidos? Ele não consegue cercar-se de profissionais qualificados e honestos ou essas pessoas não querem se aproximar dele?

O presidente anunciou que desejar indicar seu filho, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), ao cargo de embaixador na capital, Washington DC. O fato foi revelado logo após o deputado federal completar 35 anos, idade mínima para função. Como o cargo segue vago há três meses, ao que tudo indica, estavam esperando por ele. A despeito de não possuir formação específica ou experiência profissional em relações internacional ou comércio exterior, há uma questão anterior que é a separação entre o público e o privado.

A palavra nepotismo vem do latim "nepote", que significa neto ou sobrinho, e ela começou a ser utilizada para designar os privilégios que os papas concediam a seus familiares.

A prática de filhos, irmãos, cônjuges ocupando cargos públicos sob a responsabilidade de um mandatário é rejeitada pela sociedade por razões óbvias, mas é uma das expressões mais conhecidas da relação incestuosa e promíscua que a elite brasileira, política ou econômica estabeleceu com o Estado. Muitos parlamentares e governantes consideram normal colocar parentes em cargos que requerem confiança e dependem de nomeação. Velha política, nova política, mudam os rótulos fica a percepção de que os envolvidos não entendem a necessidade de separar a "res publica", a coisa pública, do âmbito particular.

Pois mesmo que um parente seja qualificado para uma função pública, permanecerá sempre a dúvida sobre a razão da indicação.

A solução para esse problema passa por reduzir o número de cargos que possam ser preenchidos por indicação, garantindo que o acesso a mais e mais funções se dê apenas por concurso público. Cria-se, dessa forma, um corpo burocrático permanente e de qualidade, independente do poder de plantão. Mas isso, que deveria estar pacificado na segunda década do século 21, ao que parece, ainda é visto como "entrave" à governabilidade.

Em 2000, um deputado federal defendeu apenas "limitar" as indicações de parentes, criando uma "cota" para o número de familiares que poderiam ser contratados como cargos de confiança no serviço público. "Poder contratar para as funções um ou dois parentes não é escandaloso", afirmou. Deixou de ser deputado federal tempos depois. E tornou-se vice e, depois, presidente da República, tendo transferido o cargo em Primeiro de Janeiro deste ano ao atual presidente.

Quem diria que, comprando votos de deputados em nome da Reforma da Previdência ou indicando filho para cargos públicos, Bolsonaro se tornaria um fiel seguidor de Michel Temer.

Moral da história: a meritocracia segue hereditária no Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.