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Após declaração amarga, Bolsonaro precisa de alfajor para adoçar diplomacia

Leonardo Sakamoto

12/08/2019 17h20

Jair Bolsonaro e Mauricio Macri, em Brasília, durante encontro em janeiro deste ano. Foto: Arthur Max/AIG-MRE

Bolsonaro corre o risco de ter que conviver, ao menos, três anos com a esquerda na Argentina após a chapa Alberto Fernández-Cristina Kirchner impor ao atual presidente, Mauricio Macri, uma diferença de 47% a 32% nas primárias das eleições gerais. E agindo como cheerleader e não como presidente da República vizinha, disse, nesta segunda (12), no Rio Grande do Sul, que o Estado deve se preparar para levas de "irmãos argentinos fugindo para cá".

"Povo gaúcho, se essa 'esquerdalha' voltar na Argentina nós poderemos ter, sim, no Rio Grande do Sul um novo Estado de Roraima e não queremos isso", disse Bolsonaro, sem pudor algum de comparar a democracia ao Sul com o governo autoritário ao Norte. Após essa declaração amarga, Bolsonaro precisaria de um alfajor para adoçar sua diplomacia.

O problema para Macri é que declarações como essa, que fazem vibrar os seguidores de extrema direita do presidente brasileiro, são recebidas de forma negativa por parte da classe média argentina – que sofre com uma crise econômica continuada.

Ninguém vai votar ou deixar de votar por conta do apoio de Bolsonaro, mas ele dá uma cara mais violenta à direita sul-americana – o que não ajuda quem precisa agregar votos em torno de seu nome. Pelo contrário, causa constrangimentos. No dia 24 de março, logo após o fim da visita oficial do mandatário brasileiro ao Chile, o presidente de lá, Sebastián Piñera, afirmou que as declarações do colega sobre as ditaduras latino-americanas eram "tremendamente infelizes". E disse que não compartilhava com muito do que Bolsonaro diz sobre o tema. Uma das frases mais conhecidas é "quem procura osso é cachorro", em referência à busca por ossadas de desaparecidos políticos. Ela estampava as paredes do gabinete do então deputado federal no Congresso.

A Argentina pode ter um milhão de problemas. Mas além de contar com índices de educação superiores aos nossos, conseguiu lidar com seu passado de uma forma melhor do que nós, punindo responsáveis por sua ditadura militar (uma das mais cruéis da América Latina), reformando sua anistia.

No Brasil, o coronel Brilhante Ustra, torturador e assassino da ditadura, herói confesso do presidente e do vice, morreu livre sem ter cumprido pena. Já o general e ex-ditador Jorge Videla, morreu, aos 87 anos, no Centro Penitenciário Marcos Paz, onde cumpria pena de prisão perpétua por cometer crimes de lesa humanidade. Ele comandou o golpe e coordenou a repressão entre 1976 e 1983 – quando mais de 30 mil pessoas foram assassinadas por questões políticas, e mais de 500 bebês de ativistas foram sequestrados ou desapareceram. Seria o equivalente a Médici ou Costa e Silva terem morrido no xilindró.

Videla chegou a dizer que as mortes foram necessárias. Tal qual o próprio Bolsonaro.

Como não resolvemos o nosso passado e não deixamos claro para as instituições que mortes e tortura não são aceitáveis, continuamos contando corpos de trabalhadores, lideranças rurais, populações tradicionais e pobres em geral no Brasil. O impacto de não resolvermos o nosso passado se faz sentir no dia a dia dos distritos policiais, nas salas de interrogatórios, nas periferias das grandes cidades, nos grotões da zona rural, com o Estado aterrorizando parte da população (normalmente mais pobre) com a anuência da outra parte (quase sempre mais rica). Agora, inclusive, temos um governo que ao engrandecer a tortura, dá um salvo conduto simbólico a quem quiser fazer a sua Justiça com as próprias mãos.

Enquanto isso, no Brasil, uma parte do poder econômico fecha os olhos diante da escalada do discurso contra liberdades individuais e direitos humanos do presidente da República. Estão de olho na Bolsa e no dólar – e apenas neles. Querem preservar as reformas para fazer o país sair do buraco. O problema é que corremos o risco de sair de um buraco para entrar em outro, mais sombrio, com o enfraquecimento das instituições que levamos décadas para construir.

Torcer pela Argentina? Temos é que pedir para eles torcerem por nós.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.