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Por que Bolsonaro fala tanto de cocô? Psicanalista Christian Dunker explica

Leonardo Sakamoto

16/08/2019 04h27

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Jair Bolsonaro vem recorrendo, há uma semana, ao cocô como retórica de governo. Disse que para preservar o meio ambiente, basta "fazer cocô dia sim, dia não". Reforçou, depois, para quem não entendeu da primeira vez, que a solução para os problemas ambientais "é só cagar menos". Também reclamou que "cocozinho petrificado" de indígena consegue barrar licenciamento de obras. E prometeu "acabar com o cocô no Brasil" – para ele, os comunistas.

A fim de tentar entender a mais recente escalada escatológica do presidente, o blog conversou com Christian Dunker, psicanalista e professor titular do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Ele é um dos coordenadores do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP e ganhador do prêmio Jabuti pelo livro "Estrutura e Constituição da Clinica Psicanalítica".

"Ele está optando pela pauta moral. O que combina com a ideia mais básica da analidade – criança aprende a controlar os esfíncteres, aprende o que é o lugar do banheiro, aprende que tem que manter a higiene corporal. Isso tudo é o que? O início da moralidade. É também o momento em que a gente começa a aprender o processo civilizatório, do decoro, da vergonha e, mais adiante, da culpa. O discurso moral, quando você vai enxugando psicanaliticamente, frequentemente vai dar na merda, na bosta, exatamente o que o presidente está praticando", afirma.

Bolsonaro sempre recorreu a comentários de conotação sexual ao longo de sua carreira. Em uma live recente, questionou se o ministro da Justiça, Sérgio Moro, faria "troca-troca" com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, constrangendo-o. Dunker analisa essa questão como um misto de conveniências políticas com limitações pessoais do presidente, de se mostrar autêntico junto com uma grande insegurança estrutural.

Leia a entrevista abaixo:

Por que o presidente tem falado tanto de cocô?

No começo de seu mandato, o presidente estava mais dividido, com Paulo Guedes, Sérgio Moro, Rodrigo Maia, compondo com lideranças. Mas, gradativamente, foi se aproximando do discurso moralista ligado a Olavo de Carvalho – que é uma figura que fala e xinga na linguagem anal, que o básico tem a ver com cocô, bosta, merda, cu. Esses termos aparecem como irrupções no meio dos discursos de Olavo, que atravessam argumentos até razoáveis às vezes, mas que terminam com arremate autodestrutivo baseado em uma linguagem anal. A gente não escuta mais tanta metáfora do presidente com o "Posto Ipiranga". Ele, que teria alianças discursivas mais interessantes, mais sólidas, está optando pela pauta moral.

O que combina com a ideia mais básica da analidade – criança aprende a controlar os esfíncteres, aprende o que é o lugar do banheiro, aprende que tem que manter a higiene corporal. Isso tudo é o que? O início da moralidade. É também o momento em que a gente começa a aprender o processo civilizatório, do decoro, da vergonha e, mais adiante, da culpa. O discurso moral, quando você vai enxugando psicanaliticamente, frequentemente vai dar na merda, na bosta, exatamente o que o presidente está praticando.

Para onde vai esse discurso?

Isso são sinais regressivos do discurso. Você espera de alguém que ocupa cargo público que ele vá se estabilizando à medida que o tempo passa no cargo, que encontre suas respostas-padrão, suas metáforas. Lula tinha as do futebol, Fernando Henrique tinha as suas, cada forma de governar inventa uma retórica. A gente imagina que essa retórica vá acumulando vitórias, mas no caso da retórica de Bolsonaro, ela é dispersiva. É, em boa parte, incompreensível mesmo para seus apoiadores, pelo menos aos de média distância. Parece estar a serviço do que a gente chama de gozo desconhecido.

Mas ele não estaria acumulando vitórias com determinada faixa do eleitorado, na parcela do bolsonarismo-raiz, num grupo que se satisfaz tanto com a forma quanto com o conteúdo do que ele diz? 

Sim, vai tendo uma afinidade. Mas há um processo cissipartição, você vai descobrindo quem são seus verdadeiros aliados até que descobre que seus verdadeiros aliados se resumem a ele e seus filhos ou ele e ele mesmo. São processos descritos na história da filosofia política como a formação de tiranos solitários. Que se privam de bons conselheiros, que vão recuando para uma lógica paranoica – em que os inimigos se estendem cada vez mais e na qual os amigos têm que mostrar mais e mais fidelidade. Com esse discurso, ele está fazendo uma convocação, mas ela parece pouco instrumental, desgovernada, contrária aos óbvios objetivos políticos que qualquer um teria nessa situação.

Nesse ponto, há um outro elemento curioso do ponto de vista clínico que é a subordinação dele aos filhos. Que é algo também típico de alguém que está com dificuldade para assumir o seu lugar. Ao invés do presidente perceber que ele é o presidente, Bolsonaro vai se amparando no fato de que ele é pai de seus filhos. E como pai, teria autoridade. Mas essa autoridade acabou se invertendo. E a gente começa a pensar: quem é o pai nessa história? É ele ou o 03, o 02 ou o 01? Parece justamente alguém que esta com um conflito na relação entre autoridade e poder. Por um lado, tem muito poder, pode mandar um exército invadir lugares, mas, por outro, ele não se confere autoridade. 

E aí vamos encontrar um processo de regressão para formas mais simplórias de dominação – oral, anal, fálica. O que a gente imagina de alguém que precisa ficar falando do tamanho do seu pênis ou dizendo que é macho pra caramba? Essa pessoa está com problemas em sua virilidade. O problema é que isso toma muito trabalho, a pessoa tem se dedicar a inventar explicações para si e isso vai puxando-a para uma situação lamentável, uma situação de vergonha alheia mesmo para seus adversários políticos.

Bolsonaro também se notabilizou por comentários de cunho sexual ao longo de sua carreira. Recentemente, perguntou, em uma live no Facebook, se o ministro Sérgio Moro faria "troca-troca" com o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles. Por que o presidente recorre a essas imagens com frequência?

Creio que é uma composição de conveniências políticas com limitações pessoais. Esse tipo de vocabulário causa, quando usado por alguém que é uma figura pública, uma impressão de espontaneidade, sinceridade, autenticidade. Porque ele está violando códigos e, para muita gente, só pode fazer isso quem fala a verdade. Nada mais tentador do que imaginar que a verdade fala uma linguagem sexual. Porque é aquilo que a gente esconde, que não colocamos em público, que não é transparente. Alguém que usa linguajar de bastidor mobiliza um capital desse tipo. Isso seria a parte de conveniência política.

A parte de limitação pessoal diz respeito à necessidade de justificar o lugar que ele galgou. Uma necessidade subjetiva de alguém que, no fundo, se entende como impostor. Como alguém desqualificado para cargo, que não foi eleito como expressão de um programa político. Esse tipo de exageração, de formação reativa, de ter que gritar, criar inimigos, costumeiramente acontece com alguém que está acuado ou inseguro. Que não tem clareza ou esta exposto a uma situação de insegurança estrutural. Tudo aquilo que aparece em franco exagero, a gente vai buscar algo que, por trás, está em déficit.

E isso acontece em uma situação inicial de mandato de céu de brigadeiro, eleito com uma quantia de votos expressiva. Mesmo assim não consegue aceitar aquele lugar simbólico que lhe foi designado. Ele pode pensar que é um personagem que não está se encaixando muito bem com o ator. Com esse drama, vai se propor a mais e mais rituais de autenticidade, de exibição, de conversas que são constrangedoras inclusive para alguns apoiadores dele.

O psicanalista Christian Dunker. Foto: Reprodução/Facebook

Qual o risco de uma pessoa insegura no cargo de maior poder de uma República em que freios e contrapesos não funcionam sempre?

A pessoa que está nesse lugar não só exerce autoridade e poder, mas sanciona um tipo de poder, uma maneira de como o poder deve ser exercido pelos outros. Uma gramática do que é legítimo e não é legítimo. Funciona como uma referência simbólica de como a gente usa a autoridade que a gente tem. Então o sofrimento para a população brasileira tende a aumentar porque esse tipo de uso da autoridade é um uso opressivo. Que mensagem ela passa? Se você é chefe, você pode abusar do seu empregado. Se você está em posição de poder, você pode humilhar o outro. Se você acha que está com razão, isso te liberta para usar os recursos e os meios que você tem livremente. Isso vai transferindo a opressão contra aqueles que já são minorias.  Aquele que estava apanhando, agora vai apanhar mais. Aquele que estava sofrendo preconceito de raça, etnia, gênero, classe vai sofrer ainda mais.

Existe uma fixação do presidente com relação às minorias?

A gente tem que reconhecer que há um ponto de identificação importante dele com as minorias. Mas com um conceito equivocado de minoria. As minorias se definem na relação com o poder. Vamos pensar naquele homem que acha que está perdendo seu poder, pai de família, macho, viril, branco. Ele acha que tem direito de se considerar uma minoria e convocar os demais. "Olha, você, homem, branco, macho, que sempre mandava, agora está perdendo poder. Vem junto comigo que vamos recuperar o poder, nós temos que lutar por isso." É um erro conceitual, mas com eficácia retórica. Ele consegue capitalizar a identificação com os ressentidos, os que estão se sentindo ameaçados em sua condição viril ou de classe diante de pequenas avanços de outras pessoas em direção a seus direitos. Consideram-se uma minoria invisível e não reconhecida.

O público mais conservador que apoia o presidente não deveria ter ojeriza com o seu comportamento escatológico? Porque imagina-se que a "família de bem" brasileira não encara bem cocô na boca em público.

Mas temos que observar como a esquerda é lida por esses grupos conservadores. Para muitos deles, feministas não são mulheres limpas. Pensam que uma mulher comunista é suja, uma pessoa que não se limpa. Isso tem a mais pura materialidade com o cocô, com a coisa suja, malcheirosa. E remonta ao passado arqueológico no Brasil. A ideia racista de que os indígenas se banhavam bastante porque são sujos ou declarações racistas como "é negro, mas é limpinho".  Ou seja, que você pode superar o padrão de sua raça com limpeza. No Brasil, o que você faz quando você consegue recursos para comer e sobreviver ao mês? Compra produtos de higiene pessoal e beleza. Tem uma mistura que o presidente ajudou a produzir, fazendo com que muitos regredissem à característica mais inconsciente sobre o inimigo: que ele é sujo, alguém que não sabe tomar banho, se pentear, se arrumar…

Que faz xixi nos outros, em público, em "golden showers" no Carnaval…

Exatamente. É uma nova imagem que você pode anexar: esse que são os nossos inimigos. E você pode comparar isso com a degradação do ambiente. É um discurso que está localizando o lixo em outro lugar. "O problema não é essa poluição ambiental, pois não existe aumento da temperatura do planeta." Não é assim que se olha para a limpeza. Limpeza é nos afastarmos das pessoas que consideramos sujas, porque elas são cocô. Aquilo que temos que esconder e tirar de circulação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.