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Bolsonaro culpa ONGs por queimadas. Vai culpar Mick Jagger pelo desemprego?

Leonardo Sakamoto

21/08/2019 19h02

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Bolsonaro diz que tem um "sentimento": o de que ONGs são responsáveis pelos focos de incêndio da Amazônia – o que seria uma estratégia de expor o seu governo para o mundo. Questionado se tem provas, ele não as apresentou. Apenas afirmou que "isso não está escrito, não têm um plano para isso aí".

Uma parte dos brasileiros também tem um "sentimento": o de que o presidente continua não tendo a mínima ideia de como governar o país.

E, com isso, põe em risco o comércio exterior brasileiro ao praticamente implorar por barreiras comerciais diante da lambança que está fazendo no meio ambiente. Tudo para atender interesses do naco anacrônico dos ruralistas, sua base de apoio. Mas, ao contrário de Bolsonaro, há uma profusão de provas para embasar esse "sentimento" da parte insatisfeita da população  – de dados de satélite, passando por autos de infração, depoimentos de representantes de populações tradicionais até chegar à qualidade do ar que a gente respira e da chuva que nós bebemos ou que cai sobre nós.

Quando ele fornece uma explicação rasa e conspiratória como essa, dizendo que o movimento ambientalista é responsável por dezenas de milhares de focos de incêndio em toda a região (superestimando o poder de organização da sociedade civil, aliás), inconscientemente dá um grito de socorro. Um grito de alguém que deseja contar ao mundo que o fogaréu na Amazônia é sua cria.

Só não assumiu de vez pelo medo do que pode acontecer quando navios de soja e carne do Brasil começarem a serem proibidos de atracar em portos europeus por conta de acusações de dumping ambiental, concorrência desleal, descumprimento de tratados internacionais. Note que falei "quando" e não "se".

A visão de Bolsonaro para a Amazônia provavelmente é de um grande pasto, entrecortado por extensas fazendas de soja, com rios onde se pode pescar sem se preocupar com a politicamente correta proibição por conta da piracema, uma Alter do Chão transformada em uma Cancún ribeirinha, cujos hotéis empregam indígenas – que terão deixado finalmente seus territórios, passando a morar na periferia das cidades, frequentando igrejas graças a Deus. Tudo isso sem um fiscal ambiental ou do trabalho para atravancar o crescimento.

Os discursos do presidente atrapalham a retomada da economia, mas contribuem para a retomada de um padrão de desmatamento da Amazônia da época da ditadura militar. O vácuo de ação estatal somado à narrativa permissiva levou ao aumento da destruição socioambiental. Enquanto isso, o vácuo de um projeto nacional para fomentar a geração de emprego e renda faz com que a queda da taxa de desocupação seja mais lenta do que a dignidade humana necessita.

Cuidado. Do jeito que a retórica presidencial é rica, se bobear, pode acusar o pé frio do Mick Jagger por ter visitado o país e impedido a retomada da economia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.