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Amazônia pega fogo, e Bolsonaro queima o filme do Brasil com o mundo

Leonardo Sakamoto

22/08/2019 17h52

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Bolsonaro conseguiu uma façanha: levou o Brasil a perder o protagonismo no combate global às mudanças climáticas e o respeito na área ambiental por parte de outras democracias, correndo o risco de nos tornar um pária internacional e ver limitado nosso acesso a mercados. Tudo em menos de oito meses.

Nesta quinta (22), o presidente francês Emmanuel Macron conclamou que o G7 (o grupo das economias mais avançadas do mundo) discuta o que está acontecendo na Amazônia em seu próximo encontro, chamando as queimadas de "crise internacional". O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou que está "profundamente preocupado com os incêndios na floresta amazônica". Protestos estão sendo organizados em frente a embaixadas brasileiras no exterior.

Tudo porque o presidente da República decidiu atender aos desejos suicidas da parcela anacrônica do agronegócio e do extrativismo. Sua retórica serviu como o combustível para que produtores rurais e madeireiros queimassem e derrubassem a floresta. E para que garimpeiros ficassem à vontade para invadir territórios indígenas. Os ataques a quem fiscaliza (Ibama e ICMBio) e a quem monitora (INPE) passam a mensagem de que o governo garantirá a impunidade.

Também nesta quinta, Onyx Lorenzoni, ministro-chefe da Casa Civil, disse que os europeus usam a questão ambiental com o objetivo de "estabelecer barreiras ao crescimento e ao comércio de bens e serviços do Brasil". Mas também "para confrontar os princípios capitalistas", pois – segundo ele – esse teria sido o destino da esquerda após a queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética.

Qualquer urso polar deprimido por estar preso em um pedaço de gelo flutuando no Ártico, contudo, seria capaz de explicar ao ministro que o processo de mudanças climáticas não tem a ver com esquerda e direita, mas com a nossa sobrevivência como espécie. Ou seja, é um tema que separa a civilização e a barbárie. E, infelizmente, o governo que ele representa parece ter escolhido o seu lado na História.

Sob Bolsonaro, o Brasil adotou uma perspectiva medieval e negacionista quanto ao meio ambiente e o clima, muitas vezes usando argumentos como "se outros países levaram o mundo ao precipício, nós temos o direito de empurrá-lo de vez para a vala". E quando o problema começou a ser notado, na forma de nuvens de fumaça em fotos de satélite, o governo fugiu da responsabilização, tentando culpar sociedade civil, governadores da região Norte, o tempo seco, a crise econômica.

Não é que a Amazônia seja pulmão do mundo. Ela imobiliza bilhões de toneladas de carbono que, se lançadas à atmosfera, farão do planeta um lugar pior para se viver. Sem ela, menos água é retirada do solo e jogada no ar. Sem ela, São Paulo pode dar adeus à sua agricultura porque nosso sistema de chuvas dela depende. Sem ela, sobrará um deserto que avançará sobre outras áreas de produção. Isso sem falar que nela está a maior biodiversidade do planeta. E que nela vivem milhões de pessoas, incluindo populações tradicionais, suas línguas e culturas.

Por ser um importante produtor de alimentos e commodities, o Brasil desperta a ira de setores econômicos em países concorrentes – dos Estados Unidos, passando pela Europa até chegar a Austrália. Por isso, temos visto tentativas de erguer barreiras comerciais a mercadorias brasileiras usando como argumento o desrespeito aos direitos humanos ou agressões ao meio ambiente, mesmo que o interesse seja puramente protecionista. A França, de Macron, por exemplo, defende com unhas e dentes seu setor agrícola.

Infelizmente, damos subsídios para isso devido a uma parte de nossa produção insistir em agir de forma predatória. Há atores econômicos estrangeiros que usam o discurso ambiental de forma hipócrita em nome do seu protecionismo? Sim. Outros países também poluem? Claro. Mas o Brasil está ajudando a piorar a vida no planeta com seu comportamento medieval? Também.

Muitas vezes, o país já evitou as tais barreiras comerciais, mostrando que estava implementando uma política firme e que havia transparência de informação para que o mercado gerenciasse seu risco. Transparência é fundamental para que o capitalismo funcione a contento. Um governo atacar sua principal fonte de dados sobre o desmatamento (INPE) é sinal de que também pode sonegar informações relevantes que devem ser ponderadas por um comprador, um financiador ou um parceiro comercial em suas decisões.

Bolsonaro pode falar grosso com outros mandatários que têm alertado para um retrocesso galopante na política ambiental do Brasil. Pode se lambuzar na piscina do conspiracionismo e da paranoia, onde seus seguidores mais fiéis se sentem bem. Mas, ao final do dia, a questão que precisa ser respondida por ele é se o governo está mesmo disposto a combater as ameaças reais que colocam em risco nosso planeta, mudando seu comportamento quanto ao meio ambiente, ou zombará delas enquanto queima dinheiro de exportações de carne, soja, entre outros, que ficarão bloqueadas em portos pelo mundo, acusadas de crimes ambientais e sociais.

Como já disse aqui, Bolsonaro não precisa acreditar em mudanças climáticas, basta acreditar em boicote.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.