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"Cortar bolsas de pesquisa é amputar as pernas intelectuais do país"

Leonardo Sakamoto

02/09/2019 19h31

"Cortar bolsas de pesquisa é amputar as pernas intelectuais do país." A avaliação é do neurocientista Miguel Nicolelis, considerado um dos principais nomes da ciência brasileira em todo o mundo.

O blog conversou com ele após o anúncio do corte de 5.613 bolsas de mestrado e doutorado da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), ligada ao Ministério da Educação, de Abraham Weintraub, nesta segunda (2). Com isso, o governo Jair Bolsonaro já tornou indisponíveis 11.811 bolsas financiadas por essa instituição desde o início do ano.

Soma-se a isso outro problema. Em entrevista à BBC Brasil, João Luiz Filgueiras de Azevedo, presidente do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), outra instituição que concede bolsas a pesquisadores, afirmou que só tem recursos até o final de agosto. Se não receberem mais, terão que suspender o pagamento de cerca de 84 mil pesquisadores. No dia último dia 28, em entrevista à Andréia Sadi, na GloboNews, o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, reafirmou a situação: "se não tiver orçamento, eu não tenho como pagar. São 84 mil bolsas. Isso é difícil. Se for pensar, tem várias implicações". São necessários cerca de R$ 330 milhões para terminar o ano.

Nicolelis lidera uma equipe de pesquisadores na Universidade Duke, nos Estados Unidos, com o objetivo de integrar o cérebro humano a máquinas para reabilitar pessoas com paralisia. Publicou, neste ano, resultados dessa pesquisa, que levou duas pessoas a darem 4.580 passos com um dispositivo de estimulação muscular e uma interface entre a máquina e o cérebro. "Aqui novamente as imagens de um feito histórico da balbúrdia da ciência brasileira!", postou na época, em crítica ao ministro Weintraub, que havia dito que universidades que fazem "balbúrdia" teriam o orçamento reduzido.

"Você renuncia à soberania do seu país" se não conta com uma base científica funcionando, afirma ele, que é o fundador do Instituto Internacional de Neurociências de Natal. Nicolelis diz que o Brasil vai enfrentar uma grande diáspora de cérebros por causa dos cortes na educação e na ciência. "É uma tragédia. As pessoas não têm ideia do impacto que isso vai ter nas próximas décadas."

Leia a conversa que o blog teve, por telefone, com Miguel Nicolelis, que está nos Estados Unidos.

Como você analisa os cortes no orçamento das universidades e das pesquisas no Brasil?

É uma tragédia. As pessoas não têm ideia do impacto que isso vai ter nas próximas décadas. Projetos científicos não são ligados e desligados do dia para a noite. Quando você ligou, eu acabava de falar com um ex-aluno meu, norte-americano, que é professor e pesquisador, e estava chocado com as notícias que vêm do Brasil. Relaciono-me com gente do mundo inteiro e não há ninguém que não manifeste espanto. A comunidade científica internacional está aturdida com o que está acontecendo em nosso país.

Houve um crescimento surpreendente na produção científica do Brasil entre 2003 e 2012. O país chegou a ficar em 12o lugar em número absoluto de publicações científicas. Em medicina tropical, o Brasil é responsável por 20 a 25% do total de publicações no mundo. A redução no orçamento da pesquisa não apenas estanca projetos em andamento, mas também desestimula a juventude a perseguir essa carreira. Se não há uma base científica funcionando, você renuncia à soberania do seu país. 

Por que o corte em bolsas de mestrado e doutorado é preocupante?

Mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos são o exército que executa os experimentos e produzem as teses. Eles são o motor da ciência brasileira. Por isso, essa situação é sem precedentes. Não consigo lembrar, nos últimos 50 anos, de um país que ceifou sua base científica de forma rápida, dramática e sem justificativa lógica. Porque a economia que está sendo feita é nada comparado com o impacto que isso vai trazer para o futuro do país. A economia dessas bolsas não vai resolver nenhum problema de caixa, há outras áreas que poderiam ser usadas para isso.

Nós tivemos um programa que deu 108 mil bolsas de pesquisa para jovens brasileiros estudarem no exterior a ponto de universidades norte-americanas irem ao Brasil recrutarem jovens. Aqui mesmo, em Duke, eu tive vários alunos. Agora, estamos dizendo que a oitava economia do mundo não precisa ter investimentos na nova geração de cientistas. Não conheço nenhum país que tenha abraçado uma política dessas, nem os que adotaram o neoliberalismo econômico mais selvagem adotaram essa postura. Você dá um tiro no pé. Cortar bolsas de pesquisa é amputar as pernas intelectuais do país.

Qual o impacto disso para a imagem do Brasil no exterior?

A comunidade científica internacional sabe que o Brasil estava entrando para o clube das maiores potenciais científicas do mundo. Cresci cientificamente no Brasil, nos anos 1980, quando não havia nada para fazer ciência, apenas muita criatividade. Essa foi uma das razões que me levaram a participar da diáspora científica. Nós, agora vamos ter uma ainda maior por causa de tudo isso. O cientista que quer perseguir a sua carreira sabe que o mercado científico é global. Vai procurar, portanto, outro lugar no mundo que o queira, não há dúvida. A repercussão desse retrocesso é mundial.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.