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O governador do Rio critica quem, como ele, transforma caixão em palanque

Leonardo Sakamoto

23/09/2019 21h07

"É indecente usar um caixão como palanque." 

Após três dias em silêncio, o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, manifestou-se sobre o tiro de fuzil que atingiu, pelas costas, Ágatha Félix, uma menina negra de oito anos, enquanto voltava para casa, com a mãe, em uma lotação.

Em entrevista coletiva, lamentou o ocorrido, culpou pela morte quem fuma maconha, disse que os números da criminalidade estão caindo e atingindo "patamares civilizatórios", que vai continuar sua política de segurança pública. E, criticando a oposição, que o responsabilizou pelo ocorrido, disse a frase que abre este texto.

Witzel criticou a possibilidade do caso ser usado como justificativa para alterar o pacote anticrime do ministro da Justiça, Sérgio Moro, no Congresso Nacional. Parlamentares, inclusive o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), discutem a retirada do excludente de ilicitude em caso de "escusável medo, surpresa ou violenta emoção". Ou, ao menos, deixar claro que a possibilidade de abrandamento da punição não vale para policiais.

Em nome da sanidade mental de nossos tempos confusos, este blog separou duas ocasiões em que o Wilson Witzel reforçou o "faça o que eu digo, não faça o que eu faço". 

Imagem: Facebook/Reprodução

No dia 30 de setembro de 2018, em uma ato de campanha eleitoral, em Petrópolis (RJ), o então candidato Wilson Witzel aparece ao lado de Daniel Silveira, depois eleito deputado federal, e Rodrigo Amorim, eleito o deputado estadual mais votado do Estado, ambos do PSL, em um carro de som.

Amorim discursou: "Marielle foi assassinada. Mais de 60 mil brasileiros morrem todos os anos. Eu vou dar uma notícia para vocês. Esses vagabundos, eles foram na Cinelândia, e à revelia de todo mundo, eles pegaram a placa da Praça Marechal Floriano, no Rio de Janeiro, e botaram uma placa escrito rua Marielle Franco. Eu, eu, eu e Daniel essa semana fomos lá e quebramos a placa! Jair Bolsonaro, Jair Bolsonaro sofreu um atentado contra a democracia e esses canalhas calaram a boca. Por isso que a gente vai varrer esses vagabundos! Acabou PSOL, acabou PCdoB, acabou essa porra aqui. Agora é Bolsonaro, porra!"

Witzel então diz, sorrindo: "É isso aí pessoal, é a resposta" (vídeo em 2'25")

Questionado posteriormente, Witzel disse foi surpreendido com a declaração, que não estava envolvido com a quebra da placa e qualquer pessoa que dissesse o contrário seria processado por ele.

Atenção para o assessor gravando, logo atrás, com celular. Foto: Ricardo Cassiano/Agência O Dia/Estadão Conteúdo

No dia 20 de agosto de 2019, o sequestrador de um ônibus na ponte Rio-Niterói foi morto por um atirador de elite do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e os 37 reféns liberados sem ferimentos. Segundo a Polícia Militar, ele portava uma arma de brinquedo e ameaçava incendiar o veículo com gasolina. Logo após o desfecho da operação, o governador Wilson Witzel chegou de helicóptero na ponte e capitalizou a tragédia para si. Até deu pulinhos e festejou de braços abertos, como se fosse uma final de campeonato de futebol. Diz que estava celebrando o fato de nenhum refém ter morrido. Ignorou a situação traumática pela qual as pessoas haviam passado e que, infelizmente, houve um óbito.

Witzel tem sido um dos defensores do uso de snipers em comunidades pobres com o objetivo de abater suspeitos de forma preventiva. Considerando que, não raro, a polícia acerta indiscriminadamente bandidos e inocentes, adultos e crianças, homens e mulheres, todos quase sempre negros, a adoção dessa política traria apenas mais mortes sem reduzir necessariamente a criminalidade. O caso da ponte foi usado como combustível para esse discurso e o governador fez de tudo para que esse não parecesse um caso isolado do restante que acontece no Rio.

Ao celebrar o caso, o governador passou, mais uma vez, a mensagem de que tal ato não deveria ser uma exceção, mas algo a ser repetido. Ignora que a melhor forma de celebrar a polícia seria aumentar salários, dar melhores condições de trabalho, mais treinamento e formação especializados e bons equipamentos aos agentes – que são obrigados a morrer em nome de uma sociedade que nem sempre reconhece os serviços de uma maioria de servidores honestos.

"Nós vamos tratar o governador como inimputável com fortes doses de psicopatia ou vamos tratar como oportunista e irresponsável? Essa é a escolha que temos que fazer, que são formas diferentes de encarar o que ele vem fazendo. Seu governo não tem uma política de saneamento, educação, saúde", afirmou ao blog o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ).

"E ele usa a violência contra as favelas como plataforma de propaganda política para se viabilizar como candidato à Presidência da República, quando mal acabou de assumir o Estado do Rio de Janeiro. Não é um caso de psicopatia, mas de irresponsabilidade", disse Freixo.

Witzel diz que não haverá mudanças. "Política de segurança é exitosa, a população tem sentido o aumento da sensação de segurança nas ruas. Narcoterroristas atuam nas comunidades e as usam como escudo. Escolhi os melhores quadros para a polícia, e eles definem como atuar. Cabe a mim ouvir a população e cobrar resultados. Continuaremos assim".

Ou seja, a menos que o governador seja instado a alterar o curso de sua política de aumento da letalidade policial pelo Poder Judiciário, pelo Poder Legislativo, por organismo internacionais ou pelos cidadãos, ela deve continuar matando inocentes. Pelo menos, até o período eleitoral de 2022.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.